Viagem

Viagem à Tailândia: gastronomia, massagem, religião e cultura

Neste país acolhedor, prepare-se para muitos encontros: seja com monges, turistas do mundo todo que lotam as noites da Khao San Road, vendedores dos variados mercados...

01/02/2016 | 19h05    

Felipe Mortara - O Estado de S. Paulo

Imagem do Templo do Buda Deitado

Imagem do Templo do Buda Deitado Foto: Felipe Mortara|Estadão

BANGCOC - Desconfie se alguém lhe disser que a Tailândia tem cheiro de flor de lótus. Ou fulano nunca esteve lá ou não imagina que a icônica planta que é referência do budismo não tem lá um odor muito marcante. Não se pode dizer o mesmo do país em que a flor é símbolo de fé, onde os sentidos são aguçados a cada passo, tudo parece querer dizer algo, a vida e o viver têm outra dimensão.

Exótica sem ser óbvia, pode-se dizer que a Tailândia é um país em camadas, e a distância é a primeira delas. Seja a geográfica – levei cerca de 23 horas a partir de Guarulhos, via Adis-Abeba, na Etiópia – ou a cultural, que nos hábitos de um povo doce, atencioso e educado revela uma nação que aprendeu a receber muito bem sem olhar a quem. A língua e o alfabeto absolutamente incompreensíveis que nos separam são meros detalhes: ser turista na Tailândia é uma grande barbada.

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Não me deixam mentir os quase 30 milhões de visitantes em 2015 (o Brasil, com área 16 vezes maior, teve 6,4 milhões em 2014). Dentre os motivos, posso facilmente listar as praias bem desenhadas, a riqueza cosmopolita de uma capital agitada como Bangcoc e a profundidade com que as pessoas se relacionam com a religião. Sem esquecer do astral leve, a fartura e diversidade gastronômica, os museus que revelam um passado vívido, a crença pulsante em templos budistas icônicos por todos os lados.

A espiritualidade multidimensional, que venera tanto divindades míticas como monarcas vivos, se exibe nas imagens de buda que saúdam os visitantes, bem como nas cores de pulseiras e colares de flores usados como presentes. Por exemplo, todo santo dia, há 20 anos, a floricultora Jantana Boonyakiat leva um buquê até onde o rei Bhumibol Adulyadej, de 88 anos, estiver – seja em seu palácio ou internado no hospital. Eu mesmo fui recebido com pulseiras de flores frescas em dois hotéis onde estive.

Mas não vá pensando que por ser um país acolhedor para o visitante a Tailândia seja de fácil compreensão. Extremamente tolerante, mescla uma intensa prática budista (95% da população e cerca de 40 mil templos) com preceitos de respeito e inclusão. Fui atendido em bares e restaurantes por travestis perfeitamente aceitos na sociedade. A prostituição não é um tabu, muito embora os tailandeses se irritem com a conversão implícita que a palavra massagem também ganhou. Ter o corpo ou apenas os pés pressionados por mãos habilidosas é um ritual de bem-estar mais do que natural por aqui.

Torna-se relativamente econômico descobrir um país em que a gastronomia é, literalmente, um barato. Eis um dos pilares para que a Tailândia, junto com os vizinhos Vietnã, Laos e Camboja, seja um dos principais destinos de mochileiros pela Ásia. Mas não se engane: com o dólar em alta, muitas hospedagens e passagens internas podem ser bastante salgadas. Os passeios de barco também não são lá uma pechincha... Vale pesquisar bastante antes de ir.

A começar pela melhor época: afinal, na Tailândia até quando é frio é quente demais. Não vá de jeito nenhum entre junho e outubro, pois é enorme a chance de chuvas intermináveis durante as monções. Evite o verão, de março a maio – às 9h14 de uma manhã de maio eu pingava de suor no centro da capital –, época em que, no entanto, as passagens estão mais em conta. O inverno, entre novembro e fevereiro, é alta temporada.

Com cerca de 300 ilhas espalhadas pelo Mar de Andaman e pelo Golfo da Tailândia, o país tem em suas praias e em sua vida subaquática uma das paradas obrigatórias de qualquer roteiro. Algumas como Maya Bay, onde Leonardo Di Caprio protagonizou A Praia (2000) acabam ficando sobrecarregadas. Acredite, há outras tão bonitas quanto. Ainda que visite os três principais centros turísticos (Bangcoc, Chiang Mai e Phuket), como eu fiz, certamente a Tailândia que se revelará aos sentidos de cada um é particular, única. 

SAIBA MAIS

Aéreo: SP–Bangcoc–SP desde R$ 3.553 na Etihad; R$ 3.594 na Emirates; R$ 4.116 na Turkish, com conexão.

Documentos: vacina contra febre amarela; visto não é exigido para até 90 dias de permanência.

Site: tourismthailand.org.

*O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA AUTORIDADE DE TURISMO DA TAILÂNDIA E BRAZTOA.

Dicas de Bangcoc (ou Bangkok)

Agito mundano e calmaria espiritual na capital da Tailândia

Grande Palácio, em Bangcoc

Grande Palácio, em Bangcoc Foto: Felipe Mortara|Estadão

BANGCOC - Não chega a ser aquela loucura de Se Beber Não Case 2, mas também passa longe da monotonia de um filme iraniano. Senhora de múltiplas facetas, Bangcoc assusta ao primeiro olhar. Colossais, as filas na imigração do aeroporto e o trânsito na grande via que leva até o centro da cidade dão uma sensação de terra de ninguém. Ou melhor, de gente demais. Mas basta uma caminhada pelo centro, um passeio pelo Rio Chao Phraya ou até mesmo uma noitada na icônica Khao San Road, a célebre rua dos mochileiros, para perceber que Bangcoc também pode ter a sua cara.

Parada obrigatória até para o mais abastado visitante, a Khao San tem mais a oferecer do que barraquinhas com espetinhos de escorpião, sucos coloridos, frutas tropicais no espetinho e promoções de drinques para todas as idades. Com suas ofertas de restaurantes, lojas de souvenir e camisetas com frases pasteurizadas como “Same same, but different”, bancas de massagem nos pés (e estabelecimentos que oferecem um, digamos, algo a mais), vai além de uma versão asiática da Passarela do Álcool, em Porto Seguro. É a síntese de uma Tailândia que permite, aberta à diversão e aos prazeres.

A ruela de pedestres pintada por letreiros de néon e fumaça de fritura é apenas um dos pontos que o visitante deve explorar da vívida metrópole. De tuc-tuc, táxi ou metrô (que, por sinal, é muito bom) parta em busca do que torna Bangcoc especial.

Faces do Buda. O Wat Pho talvez seja a síntese superlativa de toda a crença budista do país. A célebre imagem do Buda deitado tem 46 metros de comprimento por 15 de altura e fica abrigada em um pavilhão proporcional. É normal não caber direito na foto. Ao lado, uma fila de vasilhas de cobre perpetua a tradição de depositar moedinhas e fazer pedidos.

Os tailandeses acreditam haver um Buda para cada dia da semana. Em Wat Pho há enormes imagens dele de pé e também sentado, bem como 394 imagens menores por todo o templo. As centenas de pagodas, monumentos cilíndricos onde se acredita haver relíquias do Buda enterradas, se espalham pelo imenso espaço no centro de Bangcoc e abrigam também cinzas de famílias importantes.

Um olhar atento sempre traz à tona detalhes das obras, mas a companhia de um guia é essencial para compreender a complexidade do espaço e dos rituais. Minha guia tailandesa Norma Tassanee explicou em ótimo português de Portugal o que ocorria numa cerimônia de ordenação de jovens monges, com suas túnicas laranja-ferrugem, na capela principal. Talvez a única vantagem de enfrentar o calor de maio seja a festa de Buda, comemorada no primeiro dia do mês e que deixa tudo ainda mais enfeitado.

No Grande Palácio, de onde o rei se mudou há alguns anos, a atração é a imagem do Buda de Esmeralda, com 75 centímetros de altura, a mais sagrada da Tailândia. Fica em um templo anexo, o Wat Phra Kaew. Acredita-se que date do século 13 e que tenha sido trazida do Sri Lanka. Ali, nada de fotos, apenas orações. 

Pelo resto do palácio, veja as imensas estátuas de figuras mitológicas e as pinturas com cenas do Ramakian, a versão tailandesa do épico indiano Ramayana, que datam de 1782. Outro edifício belíssimo é o Chakri Mahaprasat, erguido em 1882 por arquitetos britânicos mesclando um quê de renascimento italiano com arquitetura tradicional tailandesa. Um primor. 

Um pouco distante dali, mas a poucos minutos em tuc-tuc, encante-se com o Wat Benchamabophit, mais conhecido como o Templo de Mármore. O belíssimo chão de mármore branco se espalha pelo salão e pelo pátio a céu aberto e apoia a estátua do Buda caminhando. De forma celestial surgiu ao meu lado o monge da foto principal desta página. É, parece mesmo um lugar mais perto do céu.

CURIOSIDADE

 O Bangkok National Museum (4, Na Phra That), um dos maiores do Sudeste Asiático, guarda coleção de arte religiosa dos períodos Dvaravati a Ratanakosin. A capela de Buddhaisawan tem preservados murais de 1795.

4 lugares imperdíveis para ir em Bangcoc (ou Bangkok)

Mercado flutuante perto de Bangcoc

Mercado flutuante perto de Bangcoc Foto: Felipe Mortara|Estadão

BANGCOC - Quatro dias é a duração média da permanência dos turistas em Bangcoc. Mas a capital tailandesa tem atrações nos arredores que facilmente justificam uma semana. 

Quanto ao transporte, alugar carro na Tailândia é uma opção que não compensa tanto. Valores das diárias são próximos aos dos tours organizados e a mão inglesa de direção dificulta a vida dos ocidentais. Os ônibus e o metrô são alternativas eficientes e seguras para fazer os passeios a seguir. 

Mercados às margens de canais entre campos de arroz são ícones nessa parte da Ásia. O mercado flutuante de Damnoen Saduak, a 90 quilômetros de Bangcoc, é um desses preciosos destinos para onde os turistas rumam para conhecer um pouco da vida rural. Frutas como mangostão, lichia e manga parecem que vão afundar as pequenas canoas paradas nas margens. É um lugar para pechinchar por souvenirs e provar uma autêntica noodle soup (50 baht ou R$ 5,60), sopa clássica do país. Tours saindo de Bangcoc custam a partir de 500 baht (R$ 56) na Asia Discovery e 2.330 baht (R$ 260) na Asiaiza. Há ônibus a cada 40 minutos desde o Terminal Sul de Bangcoc (40 baht ou R$ 4,50) que deixam a um quilômetro do mercado – dá para chegar a pé. Se quiser alugar um barco, os preços começam em 1.000 baht (R$ 113).

Com 120 metros de altura por 45 de diâmetro, é a maior stupa da Tailândia – e do mundo. Há registros da construção em forma de cone já no ano 675; aos poucos, foi incrementada até atingir as impressionantes formas atuais. A stupa abriga um claustro de monges e várias imagens de Buda. Em algumas delas os fiéis colam pequenas folhas de ouro como oferenda e forma de fazer pedidos à divindade. Fica a 52 quilômetros de Bangcoc e também há ônibus saindo do Terminal Sul (40 baht ou R$ 4,50).  

Saphran Riverside 

Na saída há uma curta exibição de truques com elefantes, que não parecem muito felizes. Antes das apresentações é possível almoçar em um bufê com comida asiática variada e bem preparada (500 baht ou R$ 56). Mais em sampranriverside.com

Museu, templo e canais 

Uma manhã é suficiente para compreender um pouco do amor dos tailandeses pelos barcos. O Royal Barges Museum (100 baht ou R$ 11; 80/1 Arun Amarin Road) abriga imensas embarcações adornadas que pertencem ao rei e desfilam em datas especiais. Pode ser combinado com um passeio de barco pelos canais residenciais de Bangcoc, que saem de afluentes do Rio Chao Phraya – por cerca de 300 baht (R$ 34). Se ainda não tiver conhecido Wat Arun, o Templo do Amanhecer, peça ao barqueiro para parar. A bela decoração é toda feita com mosaicos de cacos de porcelana.

Compras: o que vale a pena levar da Tailândia

Vá às compras em busca de gadgets, amuletos e flores

Vendedora de flores tailandesa

Vendedora de flores tailandesa Foto: Felipe Mortara|Estadão

Apesar da força da simplicidade budista, a Tailândia também se revela em produtos típicos e no consumismo voraz. De jovens a idosos, moradores desfilam com celulares da geração mais recente, fones de ouvido enormes e monociclos elétricos, um tipo de equipamento de locomoção que exige equilíbrio. O principal point para comprar esses itens é o MBK, shopping dedicado à tecnologia e à moda. Comparado aos do Brasil, os preços são ótimos.  

Modernidade à parte, persiste uma faceta mais tradicional. A feira de amuletos, próxima ao Grande Palácio, é uma joia rara em si, com banquinhas que vendem pequenos símbolos de argila e de metal, com imagens de Budas de milhares de templos do país todo.  

Também não deixe de visitar o Pak Klong Tala, mercado de flores aberto 24 horas – e resista se puder à tentação de levar um maço de orquídeas para enfeitar o quarto do hotel.

Dicas de Chiang Mai

Verde, compacta e fácil de descobrir em curtas caminhadas, a principal cidade do norte da Tailândia é um descanso

Comerciante dá alimentos e pede benção a monges em Chiang Mai

Comerciante dá alimentos e pede benção a monges em Chiang Mai Foto: Felipe Mortara|Estadão

CHIANG MAI - Sem querer levantar polêmica, faço aqui uma afirmação, no mínimo, recorrente. Quem não foi a Chiang Mai não sentiu a Tailândia. Pode ter vivido a agitação de Bangcoc, visto as praias de Phuket, mas o país é muito mais. Ainda bem que existe essa cidade menor, com seus 500 mil habitantes, clima mais ameno, ar interiorano e uma autenticidade comovente. Aqui vive uma Tailândia pulsante, pouco globalizada e que respira os ares de um passado inspirador. 

A 690 quilômetros ou 1h10 de voo da capital, eis uma cidade verdinha, gostosa de caminhar, fácil de encontrar tudo. O que você mais buscará são templos, talvez os mais belos que vi. Na primeira caminhada você já vai topar com Wat Phra Singh, lar da mais venerada imagem da cidade, a do Buda Leão. Idealizado pelo rei Pa Yo, em 1345, o hall que abriga a imagem foi concluído em 1400 – exemplo da arquitetura lanna, seguida no período em todo o norte da Tailândia. 

Pelas paredes, antiquíssimos afrescos dourados de uma delicadeza comovente, em estilo burma. Às 11 horas pode-se ver jovens monges – alguns de apenas 5 anos – almoçando sentados no chão. Tudo com uma naturalidade surreal, como se os cliques da câmera fossem silêncio. 

A uma quadra dali, o templo de Wat Chedi Luang abriga ruínas de uma imensa stupa que chegou a ter 84 metros de altura, tamanho respeitável para os idos de 1441, quando foi erguida. Dizem que a culpa é, em partes, de um terremoto no século 16 e de um ataque com balas de canhão pelo rei Taksin em 1775, durante a reconquista de Chiang Mai da mão dos homens de Burma (atual Mianmar). A coisa mais bacana dali é bater papo com um monge; entre 13 e 18 horas sempre há um deles sentado ao lado de uma placa onde se lê “monk chat” (converse com o monge). Deixe um donativo.

Insuperável é a beleza de Doi Suthep, 8 quilômetros a oeste do centro. No cume de uma montanha, a 2 mil metros de altitude, é preciso subir uma escadaria de 306 degraus ou ir de bondinho. Fundado em 1383 pelo rei Keu Naone para adorar um pedaço de osso que se acreditava ser do ombro de Buda, o templo e sua reluzente stupa coberta de ouro são impressionantes.

Problema de peso. Outra famosa atração de Chiang Mai são as fazendas que cuidam de elefantes. Até 1989 esses animais eram muito usados no trabalho pesado. Após a proibição da prática, milhares foram abandonados e tornaram-se um problema para o país. A partir daí surgiram refúgios que tratam dos bichos e os expõem aos turistas. 

Ocorre que nem todos cuidam tão bem dos elefantes e há na internet denúncias de maus tratos. Entre os santuários mais renomados está o Elephant Nature Park (desde 2.500 baht ou R$ 283), onde os visitantes podem dar banho nos gigantes, alimentá-los e interagir com eles. 

Muito mais radical, porém menos interativo, o Night Safari (400 baht ou R$ 45) é um projeto megalomaníaco do ex-primeiro ministro Thaksin Shinatrawa. Embarque em um trenzinho e veja girafas, veados, cangurus, ursos e leões. Tudo sob a luz de fortes holofotes. Alerta: as fotos ficam terríveis. O que valeu o ingresso foi o Predator’s Show, arena em que felinos mergulham em um aquário para pegar pedaços de carne. O tigre e a onça-pintada são deslumbrantes. 

Ching Mai atrai visitantes também pelos cursos que oferece. De meditação, gastronomia, idiomas, boxe tailandês, desenho de joias, ioga e, é claro, massagem. Uma busca na internet mostra dezenas de opções para alguns dias ou até meses de aulas com profissionais de várias nacionalidades que escolheram Chiang Mai como lar. Não vai demorar para você entender o porquê.

CURIOSIDADES

Em Chiang Mai, vá até o templo de Wat Chai Mokgong, compre um pote com peixinhos e solte-os no Rio Mae Ping fazendo um pedido. Em seguida, embarque em um passeio de 1h30 ida e volta (750 baht ou R$ 85).

Massagem tailandesa: um programa obrigatório (e baratinho)

Durante uma hora, a sorridente Noot parecia estar brincando com um amiguinho no jardim de infância, e não trabalhando. Muito menos tinha pinta de ex-presidiária, tal e qual o preconceito nos formata a conceber. Habilidosa com o manuseio do corpo alheio, está entre as dezenas de massoterapeutas formadas na Prisão Feminina de Chiang Mai que, após cumprirem suas penas, seguem livres para apertar, espremer e torcer pacientes por 200 baht (R$ 25) a hora.

Em uma ampla sala com luz baixa, cerca de 15 mulheres pilotavam pequenas macas, a um palmo do chão. Na companhia de Alejandra, uma boliviana que estava na recepção do Women’s Massage Center (252/15 Prapokklao Rd.), fui escoltado por Noot e uma colega até uma sala nos fundos. Puxa um braço, torce uma perna, comenta-se um causo aqui e outro ali.

Risadas, às vezes baixinhas, noutras mais escancaradas. Sempre em tailandês. Na média, massagem na Tailândia não tem o ar intimista que adquiriu no Ocidente – é como ir à manicure. Mas trata-se de uma experiência imprescindível para vivenciar o país. 

Alguns movimentos exigem sintonia entre tratado e tratadora, como numa ioga maluca sobre uma maca nunca larga o suficiente. No tatame, o papo – ou melhor, o tato – é outro. Ao rés do chão, não apenas somos todos iguais como as partes se encaixam melhor, há uma simbiose maior de movimentos. Não pense besteira: estão todos vestidos. Nada de toalha ou sungas ridículas, o uniforme oficial da massagem tailandesa é uma espécie de pijamão largo e bege, sem nenhum sex-appeal. 

Se me perguntarem qual foi a melhor massagem entre as várias a que me submeti no país, diria que foi a do Mr. Com, massagista simpático e baixinho do Rangnam Spa, em Bangcoc (800 baht ou R$ 90). Ali percebi que um pé amassando a coxa ou um cotovelo comprimindo a sua panturrilha podem não ser agradáveis, mas fazem parte de um todo muito relaxante. 

“Aceita que dói menos” é um bom lema diante de uma criatura cuja única missão é apertá-lo até o nirvana. Ou até você balbuciar “baobao”, o equivalente verbal aos três tapas no tatame para pedir arrego. 

Banquinhas de rua e lojas por todo país oferecem massagens nos pés, por cerca de 50 baht (R$ 5,60), 20 minutos. Só no pé, e só um pouquinho, já traz muita felicidade.

 Ah, não tenha medo de entrar por engano em um estabelecimento que ofereça algo além da massagem. Fique tranquilo: eles deixam isso bem claro. 

Gastronomia: onde experimentar comida de rua na Tailândia

Bons lugares para trocar a mesa formar pela tentadora comidinha de rua

CHIANG MAI - Os sabores, aromas e texturas tailandeses já me cercavam há alguns dias quando visitei o Warorot Market, o principal de Chiang Mai. Já havia provado noodle soup, tom yam goong e pad thai. Encantado com a paleta de cores dos temperos locais, fui garimpar alguns para levar para casa. Folhas de limão-kaffir, broto de capim-limão, pimenta branca, pasta de curry verde estavam na lista. 

O que eu não esperava era encontrar lichias imperiais, as maiores e mais saborosas que já comi. Também nao esperava provar larvas de bambu temperadas, que caem muito bem com uma cervejinha. Ou descobrir uma imensa variedade de cogumelos locais, como o het fang e o het hu nu, vendidos frescos ou desidratados. 

Nas barracas de frutas, descobri o durien, uma espécie de jaca absurdamente malcheirosa, a ponto de alguns hotéis proibirem seus hóspedes de trazê-las para dentro. Cremosa e com sabor, digamos, particular – se comer de nariz tampado. Não, não é jaca, também muito abundante no mercado. Pitaia, mangostão e rambutan completaram a lista de favoritos. 

Ainda em Chiang Mai, na Ramkhamhaeng Road, o restaurante Setta Silp serve uma comida sem adaptações – não tem essa de pedir um prato pouco apimentado. A egg noodle com curry custou 100 baht (R$ 11,30) e estava divina, e o satay, espetinho de frango com molho picante de amendoim (115 baht ou R$ 13) completou o menu de ótimo custo-benefício. 

Mas a verdade é que as melhores coisas que comi na Tailândia foram em banquinhas na rua. Não, não passei mal nenhuma vez sequer. A comida de rua tailandesa é diversa como ainda nem sonham em ser os nossos food trucks: frituras diversas, de caranguejinho a cenoura, de bolinho de arroz a trouxinhas de carne. Ah, sobre escorpiões e outros insetos, são mais raros, mais para turista ver, na Khao San Road, em Bangcoc. 

E tem ainda os frutos do mar. Camarões, mariscos e peixes que pareciam recém saídos do mar, fosse em Phuket ou em Chiang Mai. Lula na chapa, lembre-se disso. Chang, Leo e Singha (dizem “Sing”) são as boas marcas de cerveja local. Podem ser servidas com gelo no copo – para equilibrar a graduação alcoólica – e canudinho. Esse não tem explicação. 

Dicas de Phuket

Conheça as ilhas e a praia mais famosa da Tailândia

Praia de Maya Bay, em Kho Phi Phi, cenário do filme 'A Praia', com Leonardo DiCaprio

Praia de Maya Bay, em Kho Phi Phi, cenário do filme 'A Praia', com Leonardo DiCaprio Foto: Felipe Mortara|Estadão

PHUKET - As praias grandes e de areia branca e as paisagens marcadas por vegetação tropical lembram o litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro. Já o centro histórico, a Old Town, abriga um casario colonial que remete ao tempo em que Phuket, no sul da Tailândia, estava na rota comercial de especiarias entre China e Índia, muito frequentada por árabes, malaios e portugueses. O ar cosmopolita perdura até hoje, em cada bar, loja de souvenir, menu de restaurante ou agência de mergulho. 

A ilha de Phuket está a um voo com duração de 1h20 de distância de Bangcoc. Devastada pelo tsunami de 2004, está completamente reconstruída e pronta para deixar o visitante de queixo caído. Com 400 mil habitantes, recebeu mais de 26 milhões de turistas em 2015. 

Um dos segredos do sucesso de uma visita a Phuket é escolher a região de hospedagem de acordo com suas preferências, porque há trânsito. Patong concentra os resorts; a área de Laguna tem as hospedagens mais luxuosas (ou pretensiosas); Kata tem atmosfera relaxada e a vibe do surfe; pelo centro, você terá comércio à disposição, além de mercados noturnos. 

Uma imersão na mata fechada da Reserva de Khao Phra Thaew dará a oportunidade de se refrescar nas cachoeiras de Ton Sai e Bang Pae e de conhecer o ponto mais alto da ilha de Phuket, o Monte Khao Phara, com 442 metros. No fim do dia, mate a fome com frutos do mar fresquíssimos preparados em barraquinhas no Banzaan Fresh Market, em Patong.

 

Além do horizonte. Mas não se cruza oceanos para ficar só nas paisagens que poderiam ser vistas aqui mesmo pela rodovia Rio-Santos; é no arquipélago de Ko Phi Phi (diga Kô-Pí-Pí) que você vai encontrar praias realmente diferentes, aquelas que povoam os sonhos dos turistas quando pensam na Tailândia. 

Embarquei em um tour que partia direto de Phuket, por 1.600 baht ou R$ 182, em phiphi.com/tours. Uma ideia não tão boa assim. Ainda que de lancha rápida, o deslocamento de 1h30 para ir e o mesmo para voltar ficou desgastante para um dia de mar agitado e com chuva. Tudo para chegar a Maya Bay, “a praia de Leonardo di Caprio” no filme que fez a fama do lugar, junto com outros mil turistas em 45 lanchas.

Como estratégia, hospede-se na vila de Ton Sai, na ilha de Ko Phi Phi Don, central e destino dos ferryboats regulares que saem de Phuket (2 horas; 350 baht ou R$ 40). Há opções para bolsos diversos. Dali será possível fazer passeios com mais calma – e saindo mais cedo. 

Mas voltando à praia: sim, é belíssima, cercada por impressionantes penhascos verdes. No caminho de volta a Phuket, a lancha encostou em Monkey Beach, onde não se pode desembarcar e nem alimentar os macacos, detalhe que os barqueiros ignoram sem muita cerimônia. Por 700 baht ou R$ 80 você combina com um barqueiro um tour desde Ton Sai e, assim, chega mais cedo. Pergunte também por tours noturnos para Maya Bay, para nadar com plânctons bioluminescentes. 

Qualquer equipamento básico de snorkeling já é suficiente para fazer você feliz observando a impressionante vida subaquática. Mergulhadores certificados se esbaldam em dezenas de excelentes pontos para mergulho (2.500 baht ou R$ 285 por duas descidas).

Hospedagem: saiba onde ficar na Tailândia

Conheça os lugares onde nossa reportagem se hospedou

Ramada Plaza Bangkok 

O cinco-estrelas de 525 apartamentos ocupa um imenso terreno de frente para o Rio Chao Phraya com vista desobstruída do skyline e do vizinho Asiatique, shopping ao ar livre com uma roda-gigante. O grande benefício é o barco gratuito a cada 20 minutos que deixa na estação de metrô Saphan Taksin. Diárias a partir de 8 mil baht ou R$ 911. 

Dhara Devi 

Se você dormir no táxi entre o aeroporto de Chiang Mai e este lugar, não acreditará que chegou a um hotel, mas num templo imenso e espalhado. Poucos hóspedes caminham, há bicicletas à vontade ou basta pedir um carrinho de golfe na recepção. Com apenas 12 anos, tem ares de propriedade secular, com suas estruturas em estilo lanna, inclusive as vilas. Aqui você não tem um apartamento, mas um sobrado exclusivo, cercado por uma vegetação tropical incrível, com árvores que parecem estar ali há décadas. Templos, spa, área para crianças e o restaurante Le Lanna fazem do hotel um destino também para não hóspedes. Diárias desde 15.375 baht ou R$ 1.572.

Mövenpick Bangtao 

Diante da praia de Bangtao, tem o selo suíço de hotelaria Mövenpick e ótima gastronomia. Destaque para o jantar típico preparado por um chef dentro da cozinha do seu apartamento, apresentando um a um os ingredientes e receitas. Desde 5.950 baht ou R$ 678.

CURIOSIDADES

Os mais atentos logo perceberão que diante de toda residência na Tailândia há uma casinha com frutas e  bebidas. O povo acredita que é importante alimentar os espíritos que ali viveram para que o lar fique protegido.