Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Tire as mãos dessa criança

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2017 | 03h00

Eu estava em Norfolk, cidade na costa leste dos Estados Unidos que tem como “atrativo” o tour pela maior base naval do mundo. Um passeio de van que custa 10 dólares para adulto e 5 para criança e faz uma panorâmica de 45 minutos diante de couraçados, porta-aviões e navios-tanque. Não se pode descer da van nem para tirar aquela selfie da família com um destróier ao fundo. Nada de navio de guerra no Insta. 

Mas esta coluna não é sobre o estranhamento que me causa alguém achar que navio de guerra é atração turística. É sobre o estranhamento que a minha visão de mundo causou em outra pessoa. 

Superado o esquisito tour pela Base Naval de Norfolk, eu curtia o ócio antes do almoço dentro de uma loja de quinquilharias de design espertinho em Ghent, o bairro dos modernos. Distraída, até que vi um bebê grande e gorducho num carrinho. 

Brasileiramente, sorri para o pequeno, me encantei, fiz graça e peguei em sua mãozinha. Só depois fui me dar ao trabalho de reparar no incomodado pai do bebê. Imediatamente quis mostrar que eu não era uma doida sequestradora de crianças. Puxei conversa, perguntei quantos meses tinha o fofucho. O pai respondeu secamente, não sorriu, pagou sua compra e se retirou empurrando o carrinho. Fiquei ali entre sem graça e ofendida, achando-o antipático e exagerado. 

Precisou nascer meu filho, tempos depois daquele fim de manhã em Norfolk, para eu sentir na pele a irritação de ver estranhos colocando as mãos nele sem nem tomar conhecimento da minha presença. E entender aquele pai. É desconcertante até mesmo para a minha brasilidade habituada ao contato físico entre desconhecidos. Imagina, então, para um americano. 

Por mais fofas e sorridentes que sejam, crianças não são patrimônio público. Em viagens, a questão fica mais séria por causa das diferenças culturais. 

Alemães, por exemplo, encaram o contato físico de um desconhecido como uma atitude invasiva. Japoneses jamais tocam o corpo de alguém que acabam de encontrar pela primeira vez – para cumprimentar em situação formal, reclinam-se levemente para a frente. Nem pense em estender as mãos para as crianças deles.

Na Mongólia, os bebês nômades são criados de uma forma mais solta que os pequenos ocidentais, e chegam a engatinhar para longe da yurt, a tenda da família, além de interagirem bastante com os animais. Mas você será alvo de um olhar de reprovação caso saia correndo para “salvar” a criança pegando-a no colo. 

Em Omã e no Bahrein, pais que estejam com filhos podem permitir alegremente que sorriam para a câmera de um turista estrangeiro; mas se a criança estiver no colo da mãe, não clique sem pedir autorização ao homem, sabendo que ele provavelmente não dará. 

Voltando aos americanos, além da falta de hábito do toque entre estranhos, eles têm pavor de germes. Ao encostar em seus bebês como eu fiz em Norfolk, erra-se duplamente, portanto. Pode parecer tudo um pouco estranho para quem só quer brincar com uma criança fofa. Considerar navio de guerra como ponto turístico também é estranho. Mas há quem não ache. 

Onde dormem. Sobre crianças e modos de vida pelo mundo, o fotógrafo nascido no Quênia James Mollison publicou em 2010 o livro Where Children Sleep (Onde as Crianças Dormem), uma série de 56 dípticos compostos por retratos de crianças de várias partes do mundo e fotos de seus quartos. É um belo ensaio sobre desigualdade social, escassez e fartura, e sobre paradigmas culturais. 

Mollison também publicou, em 2015, o livro Playground, com 59 fotos de áreas de lazer de escolas infantis pelo mundo. Boa parte das imagens dos dois trabalhos está publicada no site do fotógrafo: jamesmollison.com.

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