Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Um fartão de viajar. Será possível?

Viajar é uma única palavra, mas cada viagem é um ato distinto, uma experiência diferente, um novo alento

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

27 Março 2018 | 03h00

O início da primavera no Hemisfério Norte bafejou de alegria nosso correspondente inglês, que, neste ano, tem 27 compromissos sociais (casamentos, noivados e bar mitzvás) em diversos países do mundo.

A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles: quase todas as coisas na vida terminam em um fartão. Mulheres, empregos, amigos. Só encontro, no meu caso, uma exceção: o futebol. Sou um apaixonado e não me farto de torcer para o meu time, não importa se ele ganhe ou perca. Minha pergunta: o senhor nunca teve um fartão de tanto viajar?                 

Moraes Tulio Cancella, por e-mail

Well, my friend: o seu raciocínio é, unfortunately, assaz verdadeiro. As pessoas costumam mesmo fartar-se de tudo. Gostam de sorvete até que um dia se saturam. Gostam de autores, mas, de repente, deles se enfastiam. Somos, indeed, almas volúveis. Olhando por outro lado, however, o que seria de nós se não nos empachássemos once in a while? Pessoas que nunca mudam tendem a não sair de suas posições. Entregam-se a dogmas, não se importam com a mentira. Sobretudo, não experimentam outros caminhos e possibilidades que, é claro, também podem lhes provocar novo fartão – embora, nesse caso, seus horizontes tenham ficado mais amplos, o que já é um ganho substancial.

As you see, ainda não falei de minhas viagens, embora o assunto que me domina a vida permeie cada linha desse artigo.

Meu guloso amigo polonês Tadeusz Polanowski foi ao Brasil pela primeira vez e apaixonou-se pelo pão de queijo. Nos quarenta dias em que esteve em seu país, representando os interesses de Malopolska – sua provincial natal –, comeu, confessadamente, cerca de mil desses salgadinhos (25 a day!). Um dia, teve um fartão. Ficou enjoado, teve de ser internado. Eu o encontrei recentemente em um café da Universidade Jaguelônica, em Cracóvia. Perguntei-lhe sobre o antigo incidente e ele me confessou que nunca mais pôde sequer sentir o aroma de um queijo – qualquer que ele fosse. Poor guy!

Há, however – se me permite dizer – um erro filosófico em sua pergunta. In fact, é possível fartar-se de uma mulher. Mas haverá outra, e outra e sempre mais. Se o fastio for completo, recomendo um médico ou uma análise mais profunda de suas preferências. O mesmo acontece com empregos – as you mentioned. O trabalho que o satisfazia torna-se boring, atazana seus dias e você acorda sem disposição. Mas há outras ocupações e, com uma dose de sorte, você voltará a encontrar alegria. Nem preciso dizer que o mesmo acontece com amigos. Em minha longa experiência, preciso admitir que o tempo provoca, em cada um deles, mudanças inexoráveis, assim como faz conosco. 

Meu bom amigo Lungberg foi um companheiro à toda prova. Realmente imaginei que iríamos viver sempre por perto e compartilhar, a cada momento, os avanços e recuos de nossas vidas. A vida, anyway, fê-lo fechar-se como uma ostra. E os excessos etílicos de minha mascote Trashie e de mim mesmo – alguns deles intoleráveis, I agree – produziram em Lungberg um fartão, a meu ver, desproporcional. É claro que hoje ele tem outros amigos. De minha parte, não costumo perdê-los.

Concordo, fully, que o futebol pertença a outra categoria, de prazeres místicos, metafísicos e incontroláveis. Como escreveu meu amigo João Bosco em “Tá lá um corpo estendido no chão” (De Frente pro Crime) , em determinado trecho, “pensando numa mulher ou no time”, o artigo definido no “time” mostra que de time não se muda. Já o “numa” mulher revela que, well, com elas não precisa ser bem assim. Com mil perdões às queridas leitoras.

Por fim, dear Moraes: não, não me farto de viajar. Viajar é uma única palavra, mas cada viagem é um ato distinto, uma experiência diferente, um novo alento. É como amanhecer: haverá passarinhos? O dia estará escuro e ventoso? Um Ícaro passará voando pelo céu? Quem se farta de amanhecer, my friend – assim como de viajar –, empazina-se mesmo é da vida. 

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.  

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