Cristiano Dias/Estadão
Cristiano Dias/Estadão

Um giro pelos parques

Dead Horse Point - Rodeado por abismos O parque estadual é uma das joias mais bem guardadas de Utah. Dead Horse Point tem uma geografia curiosa. Trata-se de uma meseta de 21 quilômetros quadrados a 1.800 metros de altitude, cercada de desfiladeiros por todos os lados, e ainda ligada ao platô principal por uma estreita garganta de míseros 27 metros, por onde passa a estrada.

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2012 | 02h11

No século 19, o local era usado pelos moradores da região como estrebaria para cavalos. Bastava fechar a apertada passagem com uma cerca para manter os animais presos entre os penhascos. Por alguma razão, o estábulo natural foi abandonado, mas muitos cavalos foram esquecidos e morreram de sede. Muito embora haja pequenas variações da mesma história, todas as versões narradas pela região guardam em comum a estranha mortandade de cavalos, que acabou dando nome ao lugar.

Lá do alto, de uma série de mirantes que circundam abismos de 600 metros de altitude, vê-se as curvas sinuosas do Rio Colorado e o Parque Nacional de Canyonlands. A paisagem é tão devastadora que o diretor Ridley Scott escolheu Dead Horse Point como locação para a emblemática cena final do filme Thelma & Louise, quando as personagens vividas por Susan Sarandon e Geena Davis lançam um velho Ford Thunderbird despenhadeiro abaixo.

 

Monument Valley - Cultura pop no horizonte A região localizada na fronteira entre Utah e Arizona sempre foi o cenário perfeito para filmes de bangue-bangue. No Tempo das Diligências, clássico do faroeste que transformou John Wayne em astro de Hollywood, em 1939, marcou tanto a história do lugar que o set de filmagem e um dos mais conhecidos panoramas de Monument Valley foi batizado de John Ford's Point, em homenagem ao diretor.   A paisagem é tão incomum que se fixou profundamente na cultura popular americana. Serviu de locação para a abertura de Sem Destino (Easy Rider, de 1969) e foi escolhido para mostrar Forrest Gump interrompendo sua interminável corrida e voltando para casa. Monument Valley foi inspiração até para os desenhos do Papa-Léguas, nos anos 50. Seus platôs avermelhados já foram capa de disco do Led Zeppelin e cenário de videoclipe do Metallica, de videogames e viraram papel de parede do Windows Vista. A marca do lugar são o conjunto de pequenas mesetas desgastadas pela erosão, ou "buttes". Monument Valley fica na reserva dos índios navajos e é comum encontrar alguns montados a cavalo ou vestidos com trajes típicos só para satisfação dos turistas. O nascer e o pôr do sol acentuam o vermelho da paisagem e são um privilégio de quem se hospeda no hotel The View (monumentvalleyview.com), que faz justiça ao nome.

 

Zion - Jardim do Éden

Para os mórmons, Zion (ou Sião) é uma espécie de paraíso, onde Cristo reinará pessoalmente sobre a terra. A comparação é justa. O parque nacional tem mesmo aspectos de Jardim do Éden: são quase 300 espécies de pássaros, mais uma centena de variedades de animais e 900 tipos de plantas.

Os passeios são frequentemente acompanhados por esquilos, lebres e cervos. Vale a pena preparar uma câmera fotográfica antes de começar a fazer as curvas da Zion-Mount-Carmel Highway, estrada que corta o parque, especialmente na passagem do túnel escavado nas pedras.

Zion é um lugar sagrado para o canyoning, longas caminhadas de exploração de rios e penhascos. O ponto de partida é Zion Canyon, com 15 quilômetros e até 800 metros de profundidade, que corta os paredões de arenito avermelhado. Pelo menos três trilhas valem o esforço. A mais fácil é a de Emerald Pools, que passa por cachoeiras e piscinas esverdeadas. A mais fotogênica é a de Narrows, em que o aventureiro caminha contra a corrente do Rio Virgin, com a água até os joelhos, atravessando a garganta apertada de um cânion. E, por último, a mais desafiadora é a Angel's Landing, em que o sujeito tem de vencer a acrofobia para testemunhar a vista mais espetacular de todo o parque.

 

Canyonlands - Deserto em cores

O ambientalista e escritor americano Edward Abbey descrevia Canyonlands como o "lugar mais estranho e maravilhoso do mundo". Hoje, é impossível falar do parque sem citar a história do alpinista Aron Ralston, que em maio de 2003 ficou preso em um cânion e teve de amputar o próprio braço para sobreviver - incidente que virou tema do filme 127 Horas.

A paisagem é desértica, mas não padece da ausência de cores. As rochas, que alternam tons de branco, rosa, laranja e marrom, se misturam às matizes dos Rios Colorado e Green, azulados nas manhãs de outono, esverdeados nas tardes de verão. Estendido entre as mais procuradas corredeiras do país, Canyonlands é um desafio para botes e caiaques. No fim do verão e início do outono, porém, o nível das águas pode estar baixo demais para o rafting.

Canyonlands é dividido em quatro regiões. A de acesso mais fácil é Island in the Sky, com impressionante visão geral de pináculos, mesetas e cânions - as outras áreas são Needles, Maze e Rivers. Outra atividade popular é montar a cavalo e vagar pelos cânions, tal como o bando de Butch Cassidy. Para os mais urbanos, as distâncias do parque podem ser vencidas em veículos 4X4.

 

Bryce Canyon - Com sol ou à noite

A grande estrela de Bryce Canyon são as chaminés de fada, uma incrível floresta de colunas de pedra formada pelo processo moroso de erosão, que desenhou formas e criou diferentes vãos nos platôs. O cenário está disposto em um vale em forma de anfiteatro. Na parte mais alta, o parque tem 13 mirantes panorâmicos. Ao todo, são oito trilhas sinalizadas. Algumas moderadas, como a Navajo Loop, de 2 horas de caminhada. Outras mais pesadas, como a Fairyland Loop, que pode levar 5 horas.

O dia é especial em dois momentos específicos: ao nascer e ao pôr do sol, quando a luz explode o calcário de laranja. Outra particularidade do lugar é a claridade do ar, que proporciona uma visibilidade de 250 quilômetros. Em dias extremamente claros, é possível ver o norte dos Estados do Arizona e Novo México. O céu de Bryce Canyon atinge 7,5 graus na escala Bortle - o máximo é 8 -, que mede a quantidade de luz e a intensidade da escuridão. Traduzindo, é possível ver 7,5 mil estrelas a olho nu em noite de lua nova.

Essa combinação faz de Bryce Canyon um dos raros locais talhados para caminhadas noturnas. Três vezes por mês, os guardas-florestais organizam a Moon Hike, uma caminhada de 2 horas pelo parque em noites de lua cheia (é necessário reservar pessoalmente o passeio no Centro de Visitantes). Outra possibilidade é o Night Sky Program, que reúne guias e voluntários para noções de astronomia e observações com telescópios - a frequência varia de uma vez por semana, no inverno, a até três vezes, no verão.

 

Arches - Esculturas de pedra

A especialidade do parque são os arcos de pedra. São mais de 2 mil. O mais famoso é o Delicate Arch, curiosa formação de 20 metros de altura que é símbolo de Utah - sua silhueta está estampada em selos e nas placas dos carros de todo o Estado.

A caminhada até o arco é uma subida de 2,4 quilômetros que passa por desfiladeiros e dura cerca de 45 minutos. Ele só aparece na última curva da trilha. Os arcos de pedra são formados pela rara combinação da movimentação de uma camada de sal, sedimentação e erosão do arenito, processo que começou há 300 milhões de anos e ainda não terminou. A fragilidade da paisagem é tão grande que pelo menos 43 arcos de pedra desabaram nos últimos 40 anos.

Outros pontos procurados são a Balanced Rock, gigantesca rocha que desafia a gravidade a quase 40 metros de altura, e locais com nomes sugestivos, como a Fiery Furnace (fornalha ardente), acessível apenas com a ajuda de guardas-florestais, e o Devil's Garden (jardim do diabo), caminhada de 12 quilômetros, ida e volta, que passa pelos arcos mais fotografados.

A base para uma viagem ao Arches - e também a Canyonlands - é a cidade de Moab, uma atração em si. Segundo os habitués, a única coisa que não se pode fazer ao livre em Moab é surfar. Agências especializadas organizam escaladas, raftings, caminhadas, ralis, passeios de bicicleta e esqui.

 

Capitol Reef - Andanças tranquilas

O mais novo e um dos mais desconhecidos entre os parques naturais de Utah é uma dobra geológica da crosta terrestre de cerca de 120 quilômetros de extensão, chamada de Waterpocket Front. Capitol Reef também é conhecido por guardar uma série de petróglifos, imagens geométricas gravadas nas rochas por tribos que viveram no local entre os anos 700 e 1300.

As caminhadas pelas trilhas do parque são relativamente fáceis. Os caminhos para Capitol Gorge e Hickman Bridge, respectivamente um cânion e uma ponte de pedra, levam cerca de 2 horas (ida e volta).

Alguns percursos podem ser feitos de carro, pelo menos parcialmente - desde que sejam veículos 4X4 e em boas as condições climáticas. Como o parque é longo (160 quilômetros) e estreito (em alguns pontos, cerca de 5 quilômetros), é possível usar como base de entrada cidades diferentes, como Boulder ou Torrey.

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