Cristiano Dias/AE
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Um retrato da Tunísia depois da tormenta

No país que deu início à Primavera Árabe, a tempestade passou - mas os turistas ainda não voltaram. Ótimo momento para ver cenários incríveis, sem multidões e com preços lá embaixo

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2012 | 21h30

Na primavera de 218 a.C., Aníbal entrou na Gália com seu exército para derrubar Roma da maneira mais pirotécnica possível: eram 40 mil homens, 12 mil cavaleiros e 37 elefantes, que começavam uma extraordinária travessia dos Alpes em direção à planície do Rio Pó. A força do jovem general cartaginês e o tamanho de sua legião mostram a história que carrega a Tunísia, um pequeno território apertado entre gigantescos vizinhos, Líbia e Argélia.

O primeiro passo para entender a importância do país é recuperar o brilhantismo de Cartago. O último é saber que partiu dali, no ano passado, o trem expresso da Primavera Árabe, a maior onda revolucionária deste século, que varreu as ditaduras mais indecentes do planeta. 

Cartago e Tunísia são duas faces de uma moeda só. Segundo a versão mais verossímil, o nome Túnis foi corrompido de Tanit, ou Tunit, deusa fenícia e padroeira dos cartagineses, que eram os americanos do século 3.º a.C.. Cartago, potência hegemônica sustentada pela maior marinha do Mediterrâneo, era perseguida pelos gregos, em franca decadência, e por Roma, já em ascensão. 

A fantástica legião de Aníbal e seus elefantes guerreiros estiveram a um passo de aniquilar o exército romano. Se tivessem conseguido, talvez Cartago fosse hoje a Cidade Eterna e o mundo seria outro. Com a derrota, as cidades cartaginesas foram romanizadas e muitas venceram o tempo: o coliseu de El-Jem, os templos de Sbeitla, Dougga e Cartago, cujas ruínas convivem lado a lado com hotéis e restaurantes no subúrbio mais elegante de Túnis, a capital mais vanguardistas do mundo árabe. 

Embora conserve o passado otomano e colonial, Túnis é a parte mais ocidentalizada do país. À noite, os tunisinos se divertem como se estivessem em Paris. Nos restaurantes La Closerie e Le Boef Sur Le Toit, ambos em La Soukra, e no bar do hotel Villa Didon, em Cartago, as mulheres desfilam sem véu e os homens esvaziam suas garrafinhas de Celtia, a cerveja local.

Apesar do rastro europeu, é impossível não perceber os traços islâmicos e os últimos 55 anos de autoritarismo. Desde a independência, em 1956, as coisas na Tunísia foram ditadas por dois homens: Habib Bourguiba e Zine el-Abidine Ben Ali.

Bourguiba está no panteão dos heróis africanos que lutaram pela descolonização. Fiador da secularização, ele dá nome a praças, avenidas, aeroporto e ganhou um mausoléu em Monastir. Seu legado foi a liberdade religiosa e uma Constituição que preservou alguns direitos da mulher. O patriarca dos tunisianos, no entanto, foi um ditador que governou por 30 anos sem mover uma palha pela democracia. 

Em 1987, foi deposto por Ben Ali, seu primeiro-ministro. O novo ditador manteve a linha moderada, mas não economizou na repressão, até que a paciência dos tunisianos se esgotou. A revolta do ano passado foi catalisada pelo desespero do jovem Mohamed Bouazizi, que ateou fogo ao próprio corpo depois que sua mercadoria foi apreendida por agentes do governo. Em menos de dez dias, o mundo tinha um autocrata a menos.

A Revolução de Jasmim mostrou a porta de saída para outros chefões do Magreb e do Oriente Médio, encheu o país de esperança, mas fez o turista sumir. Mais de 2 milhões de pessoas deixaram de ir à Tunísia no ano passado, um recuo de 30% em um setor que representa 7% do PIB. 

No entanto, o pior já passou. Quem perceber isso bem rápido pode experimentar a sensação de estar em lugares atraentes sem a horda de caçadores de fotografias e ficar em hotéis classudos a preços de banana - pelo menos por enquanto. 

* Viagem a convite da Embaixada da Tunísia, Tunísia Tur (tunisiatur.com.br) e Alitalia (alitalia.com).

O que levar

Kit contra insolação

Filtro solar, óculos escuros, chapéu, boné, viseira ou qualquer proteção para a cabeça e um bom protetor labial

Roupas de frio

A noite do deserto é fria. Além disso, um cachecol pode ser útil em dias de vento forte

Câmera

Se puder, leve dois cartões, para não precisar de um substituto no meio do deserto. A areia do Saara é fina e pode danificar seu equipamento. Por isso, leve algum tipo de proteção

Repelentes

Pernilongos e muriçocas são uma praga, especialmente no verão e na regiões litorâneas 

O que trazer

Tapetes

Em Kairouan, eles são classificados segundo tipo, material e número de nós

Cerâmicas

Vasos, pratos e potes de cores vibrantes. Os mais famosos são de Djerba

Vinhos e azeites

Vale a pena voltar para casa com um tinto. A influência mediterrânea produz ainda bons azeites e especiarias

Peças de roupa 

Os souks estão cheios de keffiehs, véus e camisas falsificadas de Lionel Messi. O bom senso manda restringir-se à moda tunisiana

Chechias

O melhor lugar para achar os chapeuzinhos vermelhos, símbolos dos tunisianos, é o souk de Túnis

Passagem aérea: 

O trecho São Paulo - Túnis - São Pauo custa a partir de R$ 2.007,42 na Alitalia (alitalia.com), R$ 2.490 na Lufthansa (lufthansa.com) e R$ 2.551 na Air France (airfrance.com.br). Voos com uma conexão.

Visto: não é exigido dos brasileiros em viagem de turismo. É preciso apresentar certificado de vacina contra febre amarela.

Moeda: R$ 1 vale 0,80 dinares tunisianos.

Pacotes: confira opções em blogs.estadao.com.br/viagem

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