Viagem

Um roteiro de quatro dias pelos vinhedos de Bento Gonçalves

Comer e beber (muito) bem são os principais programas para curtir a cidade e imediações. Confira

06/09/2016 | 00h04    

Cesar Cuninghant - Bento Gonçalves

Pinto Bandeira, distrito de Bento Gonçalves, tem as condições climáticas ideais para produção de espumantes. Uma das vinícolas que pode ser visitada ali é a Geisse

Pinto Bandeira, distrito de Bento Gonçalves, tem as condições climáticas ideais para produção de espumantes. Uma das vinícolas que pode ser visitada ali é a Geisse Foto: Cesar Cuninghant/Estadão

Bento Gonçalves é um parque de diversões para os apreciadores de vinhos. A variedade de vinícolas e uvas é enorme – só na Aprovale, a associação de produtores de vinhos finos da região, são 26 associados. A influência da imigração italiana, que chegou à região no século 18, está presente em toda parte – inclusive no divertido passeio de trem entre a cidade e a vizinha Garibaldi. 

 Ao longo de quatro dias na região, não foi possível conhecer tudo, mas deu para montar o roteiro abaixo. Se puder, encaixe também uma visita aos Caminhos de Pedra para conhecer as primeiras casas construídas pelos imigrantes – e provar embutidos e outras delícias.

 

Dia 1 - A chegada

Logo no primeiro dia, comece a provar os clássicos da cidade

Não são mais de duas horas de viagem entre Porto Alegre, onde aterrissamos, e Bento Gonçalves. Outra opção seria chegar via Caxias do Sul, a apenas 40 quilômetros de distância de nosso destino (voos operados por Gol e Azul). Mas, independentemente do aeroporto em questão, e dependendo da hora de sua chegada e de sua fome, dá para começar a viagem com um clássico: comer um galeto na Casa Di Paolo (Avenida Castello Benvenuti, km 22). 

O galeto al primo canto é uma receita tradicional da culinária gaúcha – o bichinho é criado ao ar livre, com alimentação orgânica e é abatido aos 28 dias de vida ou até dar o primeiro canto, o que vier primeiro. Curtidos em sálvia, cerveja e vinho branco por 12 horas, assados na brasa, ao ponto de fazer uma crosta macia na pele. O sistema é de rodízio (R$68) – coma sem culpa, sem desprezar acompanhamentos como polenta frita, salada de maionese e massas. Boas-vindas com os sabores trazidos pelos imigrantes italianos e conforto de comida de vó.

Os traços da colonização italiana estão presentes por toda a região. Se for época de vindima (entre janeiro e março, quando se colhe as uvas dos parreirais), dá para sentir o cheiro de uva impregnado nos muros da cidade. 

Dá para começar a maratona de degustações já na vinícola Aurora, que fica no centro da cidade. Fundada por uma associação de 16 famílias de imigrantes italianos em 1931, oferece um tour gratuito por caves centenárias – a visita vai te levar a um passado distante. O cheiro de vinho vai impregnar em seus pulmões e demorar uns três dias para sair. A melhor parte, claro, é a degustação, no fim do passeio. 

Dia 2 - Borbulhas pela vizinhança

Pinto Bandeira é o distrito dos espumantes

Brinde com espumante na vinícola Don Giovanni

Brinde com espumante na vinícola Don Giovanni Foto: Cesar Cuninghant/Estadão

Nas imediações de Bento Gonçalves, quem manda são os espumantes. O distrito de Pinto Bandeira tem se destacado pela qualidade das uvas para espumante, que encontra ali as condições ideais de cultivo – por isso, até 2018 os produtos da região devem ganhar denominação de origem. Com uma produção tradicional, a Cave Geisse é uma das poucas que não tem descendentes de italianos em sua produção, mas um chileno. Mario Geisse chegou ao Brasil em 1976 para dirigir a Moët & Chandon do Brasil. Ficou e, três anos depois, investiu na própria marca. 

Para saber os detalhes da produção e conhecer os quase 85 hectares de vinhedos, é preciso fazer agendamento prévio. Há três opções de degustação, a partir de  R$ 30 (revertidos em compras). Se apenas degustar não for suficiente para você, o Geisse Experience inclui um tour de triciclo pela propriedade e custa R$ 100. 

Ali pertinho, a vinícola Don Giovanni produz espumantes pelo método tradicional e também funciona como pousada. A propriedade, construída em meados dos anos 1930, ainda mantém os móveis antigos e a cantina funciona como restaurante – faça reserva. A diária para dois custa a partir de R$ 400 em setembro, com café. 

Se der tempo, aproveite a segunda parte do dia para conhecer a centenária Peterlongo, em Garibaldi, a apenas 14km de Bento Gonçalves. A vinícola é famosa por ter produzido o primeiro espumante brasileiro utilizando o método champenoise. A visita à cave subterrânea, construção centenária que segue os padrões da região de Champagne, na França, é um dos atrativos da vinícola. O passeio custa R$ 30 com degustação no final. Agende antes de ir. 

Dia 3 - Dois clássicos

Miolo e Valduga podem ser conhecidas no mesmo dia

Visita à vinícola Miolo em Bento Gonçalves

Visita à vinícola Miolo em Bento Gonçalves Foto: Cesar Cuninghant/Estadão

Miolo e Valduga estão bem próximas, mas têm estilos totalmente diferentes. Uma das maiores vinícolas do País, a Miolo (miolo.com. br) tem um aspecto mais industrial, com visita e degustação a R$ 20. Atualmente, o local é referência também em cursos. Para os turistas que querem ter apenas uma noção básica, o minicurso acompanha a elaboração de um vinho e fecha o dia com um almoço (R$ 60 reais). Em fins de semana e feriados, o Wine Garden oferece piquenique nos vinhedos, com degustação, a preços variáveis.

A Casa Valduga (casavalduga.com.br), por sua vez, oferece um estilo mais intimista, com cinco pousadas e um total de 24 quartos. Mesmo para não hóspedes, há visitas às caves e degustação (R$ 40). De brinde uma taça de cristal com a marca da vinícola. 

Dia 4 - Degustação às cegas

Para sentir as nuances do vinho em sua plenitude

Degustação às cegas na vinícola Dal Pizzol, em Bento Gonçalves

Degustação às cegas na vinícola Dal Pizzol, em Bento Gonçalves Foto: Cesar Cuninghant/Estadão

Respiro fundo, recupero as forças e levanto a taça mais uma vez naquele dia. Aromática e frutada, uma brisa de verão na boca com amora. Sabor de madeira, defumado e baunilha. Degustação às cegas é realmente revelador. O paladar se abre e você consegue reconhecer as diferentes nuances do paladar, pequenos detalhes delicados que podem mudar sua percepção sobre beber vinho para sempre. 

Distante 11 km do centro de Bento Gonçalves, na região das cantinas históricas, a Dal Pizzol realiza a degustação às cegas por R$ 70 – agende antes de ir. Além de provar, é possível ter contato com a história da enocultura na região no Ecomuseu da Cultura do Vinho. Além disso, o parreiral Vinhedos do Mundo reúne mais de 400 variedades de uvas de 30 países, uma das três maiores coleções privadas de uvas no mundo. Aproveite ainda para conhecer a enoteca, instalada em um antigo forno de olaria. 

Caso ainda sobre fôlego, aproveite para dar uma passada na Salton, ali pertinho. A vinícola, que começou com a produção artesanal do italiano Antonio Domenico Salton ainda no século 19, se tornou uma das maiores do país. Quem visita a casa acompanha todo o processo de elaboração das bebidas e conhece as caves subterrâneas, que remetem às adegas de castelos medievais. É ali que você enfrentará mais uma bateria de degustação – aguente firme e aproveite. Há dois tipos de visita, a partir de R$ 20 (com R$ 10 de bônus na compra de bebidas).