Uma dúvida de ano-novo

Nosso longevo e solerte viajante anuncia que, infelizmente, não virá ao Brasil para as festas de fim de ano de 2017

Mr. Miles*, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2017 | 00h10

Convidado por seu amigo Don Gerardo Bórquez Purcell, também chamado de “o príncipe do Rio Manihuales”, na Patagônia chilena, Don Bórquez prepara a maior festa já vista na imediação de Puerto Chacabuco, um dos lindos fiordes dessa parte do mundo. 

Consta que vai assar 50 cordeiros para seus visitantes, mas terá um grande estoque de paltas (abacates) e batatas para os vegetarianos. Os salmões virão do rio que possui em sua Casa Chinón, agora aberta para fly fishing

A seguir, a pergunta da semana:

Boa noite, Mr. Miles. Meu nome é Vitor e gostaria de lhe fazer uma pergunta. Estive em um programa de intercâmbio em Nova York, onde conheci alguns franceses. Agora eles me convidaram para ir para a França a passeio e ficar hospedado em suas casas. Devo levar a sério o convite ou foi só por educação? Muito obrigado. 

Vitor Beltrame, por e-mail

“Well, my friend, a sua pergunta parece adequada a estes dias de reflexão, angústia ou expectativa que antecedem a entrada de um novo ano – ainda que apenas em uma pequena parte dos calendários do mundo. Ela pressupõe, as I see, alguns dos dilemas que todos, viajantes ou não, temos passado nesse tempo de contatos cada vez mais numerosos e, on the other hand, cada vez mais rasos. 

Quando eu era jovem, um convite como esses era tão seguro quanto a luz do sol ou o retorno da noite. Eu teria aproveitado para conversar com eles, conhecê-los um pouco melhor e acertar detalhes – até porque, naquele tempo, só havia a lenta facilidade dos correios para contatos posteriores. Só não levaria a sério uma proposta feita do alto de muitos copos de aguardente ou convites menos intensos, como os que se fazia no Brasil no passado.

‘Passa lá em casa a qualquer hora!’, invitava o gentil amigo conhecido na mesa de um botequim, ao redor de tremoços e cervejas aguadas. Unfortunately, eu mesmo levei a sério dois ou três desses convites, até dar com os burros n’água e perceber o constrangimento do presumível, mas nada verdadeiro anfitrião.

Quanto aos bebuns, tenho um amigo, muito inglês e fiel a seus princípios, que deu sua motoneta de estimação a um conhecido durante uma orgia etílica. Cobrado no dia seguinte, lembrou-se vagamente da bobagem que havia cometido, mas não teve dúvidas em entregar o veículo ao bebum mais esperto.

Well, Vitor: quero dizer, com isso, que não compreendo como você vem perguntar a esse velho peregrino sobre a seriedade do convite. Oh, my God! Como poderia alguém reconhecer as intenções de outrem nos dias de hoje? O convite teria sido feito ao vivo? Ou por um desses aplicativos de relacionamento? Teria sido feito em inglês, francês ou através de pictogramas? Haveria como confirmá-lo ou ele simplesmente desapareceria com o passar dos minutos?

Anyway, não costumo fugir às perguntas de meus leitores. E, ainda que o mundo tenha mudado para além de minha modesta compreensão, a resposta só poderia ser um positivíssimo sim. Não sei, however, do que você teria de abrir mão para aceitar essa oportunidade de viajar (que, a meu ver, quase sempre deveria prevalecer às demais). Mas, mesmo sendo a França, nossa eterna vizinha de canal, aposto que seria uma ótima experiência, nem que fosse apenas para você poder aprender a responder questões como essas sem a participação de um velho boring como eu. Don’t you agree?

Aproveito a oportunidade, dear Vitor, para desejar-lhe um ano de muito conhecimento e saúde. É da mistura dessas duas qualidades que resulta a força e a curiosidade para viajar pela vida.”

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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Patagônia Chile [América do Sul]

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