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Viagens para trocar de nariz

O que o homem mais viajado do mundo acha sobre o turismo da cirurgia plástica

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2018 | 03h00

Nosso solerte correspondente envia seus agradecimentos a leitores ilustrados como Marcello Borges, “um bom anglófilo, que não dispensa o bom humor, o guarda-chuva Brigg e as gravatas. Tenho algumas da Turnbull & Asser, a loja que fornece para o príncipe de Gales.” 

Já de malas prontas para uma nova e ainda não revelada aventura, Mr. Miles responde à pergunta da semana:

Dear Mr. Miles, vejo poucas imagens suas. A única que sai não mostra se os anos foram bons ou maus para suas feições. By the way, qual a sua opinião sobre o turismo da cirurgia plástica promovido na Malásia, no Brasil e em outros destinos exóticos? Parabéns pela coluna, adoro seus textos!

Vera Passos, por e-mail

“Vera, my darling: de fato não gosto muito de tirar fotografias. Sou um pouco envergonhado e tenho uma superstição ligada a um antigo acontecimento no bairro do Albaicin, em Granada, que já contei nessa coluna algumas vezes. 

Fui, in fact, ligeiramente assemelhado à foto que ilustra esta seção – a única, como se sabe, jamais divulgada de minha pessoa. Mas mesmo esse instantâneo, capturado longos anos atrás em Notto, na Sicília, não conta uma história fidedigna. Era comum, naquela época, a manipulação de fotografias por meio de retoques com pincel e tinta. E foi apenas ao ver o resultado final que pude perceber que o retocador em questão não era nenhum Tintoretto. Jamais fiz, therefore, nenhum tipo de soerguimento facial ou qualquer gambiarra do gênero.

Sobre a sua questão, I’m very sorry to say, mas tenho uma certa dificuldade em classificar este tipo de movimentação como turismo. Minha velha amiga Connie, de Sacramento, já esteve mais de dez vezes no Brasil, sempre no Rio de Janeiro, e jamais foi à praia, nunca ouviu falar do Corcovado e não conhece o sabor do tremoço de um ‘pé para fora’. Em compensação, seu antigo delicado sorriso é hoje uma permanente gargalhada (para não dize um esgar). Is she a tourist?

Considero ótimos os viajantes que partem abertos à mudanças – e quase sempre as encontram. Mas não é preciso ser tão literal, don’t you agree? 

Sei, of course, que os cirurgiões plásticos brasileiros são muito mais qualificados do que o retocador de que lhe falei há pouco. Tenho, however, enorme dificuldade de compreender as pessoas que reformam a si mesmas (exceto, é claro, em caso de deformidades acidentais). As orientais, que gastam fortunas para ocidentalizar seus olhos, for instance. Ou my dear Elza Soares, que hoje poderia chamar-se Mitiko Soares, tão nipônicos se tornaram seus olhos de sambista. 

Devo, indeed, ser um homem de outro tempo. Ouso pensar que quando as pessoas estão infelizes com o que são, o problema está por dentro, não por fora. De que vale buscar um funileiro (ou lanterneiro, as you say in Rio) se a avaria está por baixo da carenagem? Well, my dear: é só uma opinião, pela qual serei certamente execrado. E para que não me julguem um radical, proponho aos seguidores de Connie que sigam viajando para a Malásia, o Rio ou qualquer outro belo lugar onde exista um bom cirurgião plástico.

But do me a favor, please: antes da cirurgia, visitem o lugar com a alma aberta para descobertas. Se ainda assim não funcionar, então ponham seus narizes onde quiserem.”

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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