Viajantes de foco restrito

De Paris, mais precisamente de um café na Praça da Bastilha, nosso correspondente britânico manifesta sua enorme tristeza com o atentado ao semanário Charlie Hebdo. "Inconsequências desastrosas como esta quase sempre exacerbam o ódio dos ignaros. Preciso advertir que o rio de sangue promovido pelos terroristas tende a desembocar em deltas de ódio contra as nacionalidades e crenças de milhões de pessoas que nasceram nas mesmas terras e creem no mesmo Deus, mas desaprovam a ação. Ninguém ganhou nada com isso. Exceto, I'm afraid, a damned xenofobia."

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2015 | 02h01

A seguir, a pergunta da semana:

Caro mr. Miles: pelo que entendi, o senhor sugere que viagem seja um modo de vida (e, de fato, nos deixa com vontade de viajar todas as semanas). Mas, afinal, qual é a definição de viajante?

Daniel Mello Filho, por e-mail

"Well, my friend: em teoria, viajantes são todos aqueles que viajam - e, I must say, gosto dessa definição. Por mais estranhos ou obtusos que sejam os motivos que nos levam a conhecer outros lugares, eis que, ao menos, quem viaja acaba se expondo às diferenças culturais, religiosas, gastronômicas, musicais, climáticas e corriqueiras que podem ter o condão de ampliar horizontes.

Existem, however, tipos peculiares de viajantes, que merecem uma ou duas linhas de meus comentários. Os de foco restrito, for instance. Pessoas que vão de um lado para o outro, mas estão sempre em busca do mesmo. Golfistas, alpinistas e mergulhadores fazem parte dessa legião. Com as exceções de sempre, eles serão capazes de mencionar, for sure, o par de cada hole, as rotas de cada montanha e os peixes de cada recife. Muitos deles, unfortunately, não têm a menor ideia sobre o lugar em que estão. Não sabem no que creem os caddies que carregam seus tacos, o que comem os sherpas que os ajudam na escalada dos Himalaias ou que sonhos embalam os condutores de suas lanchas.

Believe me: nenhuma viagem consegue incluir tudo. Mas, se ela já começar excludente, dificilmente poderá ser considerada uma viagem.

Piores são os missionários, aqueles que levam suas ideias e convicções para povos que sequer conhecem. São, as you say, os malas. Porque viajam com as malas repletas de certezas e não dão espaço para aprender com a dúvida.

Shame on them!

Os viajantes profissionais, entre os quais conto com muitos amigos pilotos e comissárias de bordo, estão, quase sempre, engaiolados em rotas permanentes ou pouco mutáveis. Mas esses, of course, são viajantes de fato e de direito. Não conheço um único aeronauta que, no embrião da escolha de seu trabalho, tenha feito projeções econômicas ou de qualquer outra ordem. Todos eles, no princípio, sonharam estar dentro de uma aeronave, avançar limites e fronteiras e, if possible, desfrutar do inegável glamour de estar um dia em cada hemisfério, um dia em cada estação do ano.

Eu aceito a realidade de que também sou um viajante exótico, um tipo raro entre os que vagueiam pelo mundo. E admito, oh, my God, que também sou ligeiramente prosélito - desde que tento, semana atrás de semana, oferecer argumentos para converter leitores às minhas convicções de vida. Defendo-me, porém, com a inequívoca verdade de que não aconselho ninguém a viver vagando pelo mundo com uma mascote desprovida de visão e um amplo catálogo de single malts e scotchs já provados (inclusive um whisky congolês responsável pela maior enxaqueca de minha vida).

Não, Daniel: viajar não precisa ser um modo de vida, como no meu caso. Mas viver tem seu modo viagem e é uma pena desperdiçá-lo."

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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