Viajantes inconvenientes

Ainda na Nova Zelândia, o homem mais viajado do mundo manda informar aos leitores inquietos que sobreviveu à caminhada pelos trilhos do trem que atravessa os precipícios de Taieri Gorge, nas cercanias de Dunedin.

O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2012 | 03h12

"Era uma questão de honra", relata-nos mr. Miles. "Eu não podia deixar de acompanhar o ritmo de minha velha amiga Felicity Hughes, ainda mais depois de ter sido tão bem recebido na festa de seu nonagésimo terceiro aniversário."

A seguir, a carta da semana:

Querido mr. Miles: sou uma de suas leitoras mais assíduas e adoro viajar. Infelizmente já passei um pouco dos 70 e não sei nenhuma palavra de qualquer outro idioma. Por isso prefiro viajar em excursões com guias que falam português. Acabo de voltar da Europa indignada (mais uma vez) com viajantes brasileiros que passam o tempo todo comparando os lugares que visitam com o Brasil e reclamam de tudo. Desta vez havia um engenheiro de primeira viagem que exagerou: reclamou da comida em Portugal, reclamou do calor na Espanha - disse que, no Brasil, pelo menos chovia, acredite! -, reclamou da "enganação que era Paris" (disse apostar que os subúrbios eram cheios de favelas e que nossa guia não queria mostrar a realidade) e muito mais. O pior foi quando ele reclamou que o sol se põe muito tarde e "ninguém consegue jantar nessa claridade". Desculpe-me pelo desabafo, mas o que o senhor acha a respeito?

Lourdes Senóbio Lima, por e-mail

"Dear Lourdes: como eterno motivador de viajantes sou obrigado, however, a concordar que algumas pessoas não estão preparadas para deixar seu próprio mundo. Um mundo que, by the way, é pequeno, tacanho e sem espaço para ampliações. Do you know what I mean?

Eu poderia apostar (a senhora sabe que nós, ingleses, adoramos apostar em tudo) que esse engenheiro bag without handle (N. da R.: mala sem alça, em tradução literal) colava na escola, não gostava de quem morava nas ruas vizinhas e considerava seu carro, suas roupas, seu time e suas convicções superiores e inquestionáveis. Oh, my God! Esse tipo de gente encaixa-se na categoria dos que não desejam aprender com os outros. E, as you know, cada viagem pode ser um curso de pós-graduação, que ensina hábitos, atitudes, crenças e ideais de outros povos que compartilham a Terra conosco.

Unfortunately, darling, eu os vejo por toda parte. Podem ter qualquer profissão, podem proceder das mais distintas nacionalidades e, of course, podem ter qualquer idade. O fato é que eles não pertencem ao nosso mundo. Pertencem apenas ao mundo deles, já pronto, apoiado em sólidas convicções e, se me permite dizer, totalitário e estulto. Levam apenas uma pequena vantagem sobre os missionários e catequistas que, de forma ainda pior, peregrinam para tentar impor a sua fé e seus valores, sem ouvir o que realmente interessa.

Viajar, dear Lourdes, tem mais a ver com os olhos e os ouvidos do que com a boca. Conversar é ótimo, of course. Mas mesmo quem não domina outros idiomas, como é o seu caso, sempre tem a chance de ver, ler ou perguntar a quem conhece. Viagens abrem as mentes, mas é preciso permitir que elas se abram, o que não é o caso de seu desagradável companheiro de excursão.

Anyway, achei divertido o comentário do cidadão sobre a claridade que 'atrapalha o jantar'. Se a excursão tivesse ido mais ao norte, para a Noruega ou a Finlândia, onde quase não há noite nessa época do ano, é possível que o poor man morresse de inanição. A não ser que alguém o convencesse que, com o sol alto, ele poderia trocar o jantar por um segundo almoço. Very easy, isn't it?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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