Viagem

Viajantes não precisam de causas

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24/10/2017 | 02h50    

Mr. Miles - O Estado de S. Paulo

Viajar para conhecer outros lugares e pessoas já é uma causa nobre, diz Mr. Miles

Viajar para conhecer outros lugares e pessoas já é uma causa nobre, diz Mr. Miles Foto: Jim Young/Reuters

Nosso intrépido viajante está passeando de automóvel pela Escócia, em sua tradicional “colheita” de single malts. O propósito é deixar sua despensa cheia. Trashie, a raposa das estepes siberianas, está com Mr. Miles, dando seus palpites sempre pertinentes. A seguir, a pergunta da semana.

Querido Mr. Miles: tenho pensado em tornar-me uma viajante com causa e ajudar pessoas que precisam mundo afora. Qual é a sua opinião?  Tainá Moreno, por e-mail 

Well, my dear: viajar já é uma causa. Uma causa sempre boa porque da viagem se aprende, dos povos se conhece, às crenças se respeita e as diferenças é possível entender – ainda que nem sempre concordando.

Viajar, darling, é uma causa de primeira qualidade quando se pensa em causa como motivo. Tenho gostado cada vez menos, however, das causas que são justificativas para viajar; das causas que valorizam quem delas usufrui e tenta se engrandecer e das pessoas que causam – do you know what I mean

Em minha humilde opinião, causas e viagens não têm a menor necessidade de andar juntas. Há causas por toda parte: na sua esquina, na praça de seu bairro, nos pobres e injustiçados de todos os países, nas espécies que correm o risco de extinguir-se, nas vozes que não têm força para levantar-se e impor-se. 

Quem realmente se importa com alguma causa não precisa ir longe. Se todos cuidássemos de causas próximas, by the way, talvez fosse mais fácil aliviá-las. Vejo, unfortunately, que muitas vezes as causas são como pastos: mais verdes as dos vizinhos, as dos outros. Minha amiga Joana teve de procurar uma causa da qual participar na Etiópia. E a razão não era a causa (nem a causa era a razão). O motivo era a Etiópia – e não há causa mais bela para um lugar do que ser visitado pelo que é e não pelas mazelas que tem. Don’t you agree?

Acho bonito ver tanta gente ao redor do mundo buscando um sentido para suas vidas. E considero ainda melhor quando esse motivo é aprender sempre, modestamente, desde cedo com a certeza de que cada novo conhecimento levará à necessidade de aprender de novo. E de que, por consequência, novas causas sempre haverão de surgir.

Tenho muitos amigos que viajam pelas baleias, pelo resfriamento global, pela menopausa das taturanas, pelos refugiados. Poucos desses viajam pelo prazer de viajar – que é o que realmente vale a pena.

E, in fact, a coisa fica ainda pior quando quem viaja leva suas próprias causas para influenciar os outros, com a serenidade dos prepotentes. Muitos anos atrás disse a Ernesto ( N. da R.: Ernesto Che Guevara, líder revolucionário) que levar ideais a outros povos, impingi-los – com carinho ou na marra – era uma audácia sem nexo. 

Disse-lhe que, ao pregar o que acreditava, ele se tornava igual aos padres jesuítas, aos nacionalistas, fascistas e demais conquistadores de almas. ‘Mas a causa que defendo é justa, Miles’, respondeu-me, com o olhar perdido no além. O que é quase um cacoete dos profetas. Respondi-lhe que todas parecem ser, conforme o ponto de vista – e fomos tomar um vinho com empanadas para falar de futebol.

Sinto se, sometimes, pareço um velho cético – e não duvido de que o seja, porque, durante décadas e décadas percorrendo o planeta fui deixando minhas causas nos hotéis, nas ruas e nos aeroportos. Aprendi a respeitar os que as aceitam, gente que não se encanta com a beleza dos horizontes, mas quer aprisioná-los em regras, normas e dogmas. A vida é mais fácil com causas, I presume. Mas acho que talvez se torne também muito mais sem graça. Don’t you agree?

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.