Viagem

Viajar sozinha: na companhia de si mesma

Para as mulheres, viajar sozinha não deve ser um tabu - informar-se sobre o destino antes de embarcar é o primeiro passo para evitar roubadas

28/10/2014 | 02h07    

Mônica Nobrega - O Estado de S.Paulo

Acostumar-se a estar sozinha não é sinônimo de solidão. Vale ser sua melhor companhia.

Acostumar-se a estar sozinha não é sinônimo de solidão. Vale ser sua melhor companhia. Foto: Arquivo Pessoal Adriana Rossatti

Passava de meia-noite em Nova York. Saindo de uma casa de shows no bairro do Chelsea e caminhando com um acompanhante em direção à Union Square para pegar o metrô, fiquei encantada pela quantidade de mulheres que andavam sozinhas pelas ruas da cidade. Várias delas estavam produzidas para a balada e eram claramente moradoras.

Bom seria se o mundo inteiro inspirasse tanta segurança e despreocupação para moças que viajam desacompanhadas ou com as amigas, a mãe, a irmã - sem nenhum homem por perto, enfim. Não é assim, mas nada de paranoia, nem de desistir da viagem. Alguns cuidados bastam para garantir a segurança - e estar bem informada é o mais importante deles.

"Minha regra principal é estudar o destino", conta a escritora Adriana Rossatti, de 38 anos. "Pesquiso a cultura, os costumes, converso com quem já foi, procuro comunidades de viajantes online, tento saber como é a relação dos moradores com mulheres que viajam sozinhas."

Apaixonada por mergulho, a escritora conta que "venceu o medo e criou o hábito" de cair na estrada desacompanhada. "No começo era estranho, mas fui descobrindo os macetes." Respeitar os hábitos do local - inclusive quanto a horários para estar na rua e vestimenta -, ser discreta e aprender palavras-chave do idioma são posturas que Adriana incorporou ao dia a dia viajante. "Documentos e cartão de crédito estão sempre comigo", acrescenta. "Com eles, na pior das hipóteses, pode ficar caro, mas as coisas se ajeitam."

A editora de livros Caren Inoue, de 43 anos, afirma estar "sempre em estado de atenção". "Mas sem estresse", diz. "É um tipo de estado de alerta tranquilo, apenas para ler as informações ao redor."

Viajante frequente, Caren afirma que a principal dificuldade é o assédio incisivo. "Em Sydney, por ser descendente de japoneses e ter a pele escura, creio que pensavam que eu era tailandesa. Recebia muitos convites para ser prostituta, dançarina, atriz pornô", lembra.

Nessas ocasiões, a editora conta que a reação depende do autor e da intensidade do assédio: vai de tentar conquistar a empatia a acionar uma postura de mulher dura e repelir o interlocutor. "Ou simplesmente minto que sou bem casada."

Manter alguém da família informado sobre todo o itinerário é também uma forma de se sentir e estar segura viajando desacompanhada. A dica é da jornalista Mari Campos, autora do livro Sozinha Mundo Afora, de 2011, boa referência no assunto. "Não precisa viajar engessado, mas dar uma noção geral de onde pretende estar a cada semana", sugere.

Sem ostentação. Misturar-se à multidão, passar despercebida tanto quanto possível. Ainda que você, livre e descomprometida, queira paquerar e se sentir bonita e desejada durante as férias - e não há nada de errado nisso -, vale a pena reservar os looks incríveis para momentos específicos. No dia a dia, é boa estratégia usar roupas simples e o mais parecidas possível com os hábitos de vestimenta locais, sem cair na caricatura, claro.

"Aquela bolsa Chanel, a mala Louis Vuitton vão atrair atenção demais desde o aeroporto", lembra a psicanalista Cleo Franco, criadora do projeto Mulheres Pelo Mundo, que, desde 2009, organiza viagens apenas para o público feminino. "A ideia é não ostentar", sugere.

O Mulheres Pelo Mundo (mulherespelomundo.com.br) nasceu quando a própria Cleo, então divorciada há pouco tempo, começou a viajar desacompanhada. "Era ótimo, mas pensei que também seria legal fazer novas amizades, trocar experiências com outras mulheres." Para moças cheias de vontade de cair na estrada, mas ainda inseguras de fazer isso sozinhas, pode ser um ótimo começo. / MÔNICA NOBREGA

DEPOIMENTO
'Por ser mulher, podia pedir ajuda às muçulmanas' 
Adriana Rossatti, Escritora 

"Sigo muito meus instintos quando viajo: se algo não me parece seguro, não arrisco. E sempre tenho um plano B. No Marrocos, um país que sempre falam que não é para mulheres viajando sozinhas, ao chegar a Fez em um fim de tarde, o riad que tinha reservado não me inspirou confiança. Tinha pesquisado muito, então abri meu guia e fui atrás de outro.

Entrei pela medina e logo alguns garotos se ofereceram para me guiar. Por ter lido antes, eu sabia que isso era comum, que eles fazem em troca de alguns dirhams. Não aceitei, mas, adiante, outro grupo, de meninos mais velhos, se juntou às tentativas. Comecei a ficar preocupada: por mais que eu tentasse ser discreta, era uma gringa com um mochilão nas costas. Ainda houve um terceiro grupo, de marmanjos, que tentou me guiar - quando vi, estava no meio de uma disputa entre uns 15 meninos. 

Comecei a ficar assustada e meu alerta de perigo disparou. Então lembrei que, de acordo com minhas pesquisas, por ser mulher eu poderia abordar as marroquinas, puxar conversa - um viajante homem não pode se dirigir às muçulmanas. Apertei o passo, ignorando os garotos e pedindo informações às mulheres sobre a direção do riad que procurava. Eles ficaram bravos, mas segui sem fazer contato visual. Lembro até hoje da cara do dono do estabelecimento ao abrir a porta e ver a balbúrdia de rapazes atrás de mim, brigando por alguns dirhams."