Matthew Farrell
Matthew Farrell

Vida a bordo

Conforto, aulas e clima de expedição no navio

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 04h30

Bastam algumas horas de vento forte e mar bravio na travessia do Mar de Drake para entender porque muitos consideram essa atividade não um ‘cruzeiro’, mas uma ‘expedição’. Mas as condições extremas lá de fora não significam perrengue dentro do navio Hebridean Sky. Operado pela Polar Latitudes, empresa norte-americana fundada em 2010, a embarcação de 90 metros de comprimento e capacidade para até 114 passageiros e 75 tripulantes dá conta de ser um hotel cinco-estrelas flutuando por águas congelantes. 

Confortáveis, porém sem extravagâncias, todas as cabines têm janela (algumas até varanda). Mesmo com a água dessalinizada, o chuveiro é bom. A comida se destaca, com farto café da manhã e bufê no almoço – com salada de folhas até quase o fim da viagem. À noite, pratos clássicos e ingredientes de primeira, além de uma respeitosa seleção de vinhos à vontade. Divertido e carismático, o time de garçons filipinos é uma atração à parte.

Aliás, numa viagem em que o tempo e a sorte podem influenciar diretamente o resultado, o diferencial humano do serviço e do conhecimento se sobressai. Os 18 membros da expedição fazem muito mais do que pilotar botes. Cada um na sua especialidade e paixão, apresentam elaboradas palestras sobre temas como ornitologia, biologia marinha e geologia. Além disso, têm um nível notável de comprometimento, paciência e gentileza. 

Talvez essa seja o cerne de uma operação complexa que envolve usar botes, desembarcar em segurança e garantir a harmonia entre dezenas de turistas tão heterogêneos. É um navio pequeno, éramos 81 passageiros a bordo, com idades entre 31 e 89 anos. Havia uma alta concentração de viajantes acima dos 60 anos, principalmente americanos, canadenses, chineses e ingleses. Em comum, o interesse em visitar um dos cantos mais exclusivos da Terra e a disposição de pagar valores a partir de US$ 16.995, sem passagem aérea. 

Dia a dia. A rotina no navio se divide em dias de desembarque e dias de navegação. Em comum, o despertar cedo, no máximo às 7h30, sempre com a voz leve do chefe da expedição pelo alto-falante da cabine, repassando as atividades previstas. 

Achei que me entediaria com a paisagem em algum momento, mas a coisa parecia só melhorar a cada dia. “Como o tempo é imprevisível, só na véspera defino o plano A. Os passageiros são uma folha em branco e têm uma história que eu quero contar. Esse é o meu storytelling”, explica Brandon Harvey, diretor de operações da Polar Latitudes e há mais de 15 anos nos mares do sul.

A bordo, tecnologia via satélite e até internet (cara e lenta, é verdade) para os mais conectados. Conhecimento não falta. Além de paredes com dezenas de mapas, ilustrações e aquarelas da fauna antártica, cada andar homenageia um explorador com fotos e relatos. Tudo é inspiração e, na bem servida biblioteca, entre ensaios e romances, uma vasta sessão se dedica a explicar o que os olhos veem ao redor. 

Há uma retrospectiva no fim de cada dia com curiosidades extras sobre os pontos visitados – o nome daquela ave diferente ou por que tal nuvem tinha tal formato – e uma preleção para o dia seguinte. Calmarias ou encrencas climáticas são igualmente debatidas. O ambiente é leve e quase todos fazem perguntas. Uma família eclética e multinacional vai se construindo. Para se despedir, emocionada, em Ushuaia

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