Cena do filme
Cena do filme 'Sabrina'

Você já foi à Rodésia?

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2017 | 02h50

Nosso viajante foi a Budapeste para acompanhar as exéquias de Béla Bartók. Não, não se trata da segunda morte do célebre compositor e pianista de origem magiar, mas do passamento do inesquecível cão da raça kuvasz de seu amigo Arpad Molnar. Bartók, um pastor de bovinos das pradarias húngaras, foi um dos mais belos e amorosos cães que conheceu – da mesma estirpe de Trashie, a raposa das estepes siberianas, companheira de vida e viagem de Mr. Miles.

A seguir, a pergunta da semana: 

Querido Mr. Miles: sou uma grande fã de suas crônicas e elogio a sua coragem ao dizer (na semana passada) que viajar é uma causa mais do que suficiente para viajar. Um raciocínio a que só pessoas muito experientes podem chegar. Concorda?  Cylene de Moraes Eid, por e-mail

Well, my dear: estou em uma idade em que a experiência começa a ser um estorvo. Sobretudo para os mais jovens. O vocabulário que uso – and I’m not a native speaker – parece amplo demais. Tenho de aprender a falar em poucas palavras (200 ou 300 no máximo) ou a usar pictogramas para ser entendido. Minhas referências já não servem. Quando menciono lindas mulheres com quem viajei – Ava Gardner, Audrey Hepburn, Jeanne Simmons e outras – muitos leitores lamentam não ter ideia de quem se trata. Winston Churchill? Deve ser alguma marca de tabaco. 

  Don’t you agree? Lugares como Alto Volta, Birmânia, Rodésia, Indochina e tantos outros que visitei quando tinham esses nomes simplesmente foram apagados das memórias. Ou deletados, como mandam os novos tempos e costumes.

 As pessoas de hoje gostam de interjeições. Um ‘uhuu!’ vale mais do que um superb ou um marvelous

Lembranças e histórias tornam-se, unfortunately, maçantes. Todos os dias descubro, atônito, que textos com mais de duas linhas (ok, três!) são tidos como cansativos. Livros de mais de 200 páginas apodrecem nas prateleiras. Os instintos tendem a valer mais do que as informações. As águas rasas já afundam os que julgam-se nadadores.

Thank God, tenho muitos leitores que valorizam as experiências e sensações. Que viajam comigo para outros lugares e para outros tempos, quando o neopuritanismo ainda não tinha se arraigado à vida como uma nefasta bromélia. Tempos de mais humor, mais reflexão e – por que não dizer? – de um pouco mais de malícia e maldade, dois temperos absolutamente humanos. 

Tempos de cafés esfumaçados em Paris, com existencialistas e idealistas conquistando, com amor e romance, as doenças que os matariam. Hoje, I’m sad to say, as pessoas acham que não vão morrer ou vão morrer de coisa alguma. 

As belas mulheres com as quais vivi a alegria de descobrir pessoas e lugares jamais existiriam nowadays. Este humilde apaixonado britânico teria sido condenado por assédio ao menor flerte, de machista e devasso pelas palavras que disse com a mais honesta das doçuras. Teria sido preso por minha aversão ao nacionalismo. Teriam me trancafiado os fascistas e os comunistas, os ambientalistas e os ciclistas. Por que os ciclistas? Ora: por que não eles, em um tempo em que todos culpam todos?

Yes, my friends: a natureza me deu o dom de viver longamente, dádiva que uso explorando o imenso quintal que todos temos. O tempo, however, muda as coisas. Para o bem e para mal, indeed – mas quase sempre irrefletidamente, apenas porque fatos tornam-se truísmos, dogmas ou modismo. 

Olhar para trás e ver o planeta inteiro no retrovisor é a mais valiosa das conquistas resultantes da experiência. Olhar para a frente e ver que ainda há um mundo inteiro a ser descoberto e redescoberto é, on the other hand, a mais esplêndida perspectiva da juventude.” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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