Voltar ou não voltar? Eis a questão

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2016 | 02h30

Nosso solerte viajante, em mais uma jornada africana na companhia de Trashie, sua mascote cega que vê tudo com grande acurácia, encontrou em sua caixa de mensagens um libelo valente de uma de suas leitoras. 

Dizia o texto, em tom legislativo: “Todo cidadão do mundo deveria ter direito a conhecer pelo menos cinco países (à sua escolha). Subsidiado pelo governo de seu país ou com crédito consignado”. A poderosa frase é a parte mais relevante do e-mail que dona Deodora Pachicoski enviou para Mr. Miles.

O correspondente britânico respondeu de maneira lacônica: “ Indeed, milady!” E pediu para que a avisássemos de que, caso queira fazer um abaixo-assinado sobre o assunto, ele quer estar entre os primeiros signatários. A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: meu pai sempre diz que nunca devemos voltar a um lugar em que fomos muito felizes. Ele acredita que retornar pode quebrar o encanto. Gosto da frase, mas não sei se concordo. Qual é a sua opinião? 

Ingrid Folgher, por email

Well, my dear: diga a seu pai que considero sua declaração muito poética. E ouso imaginar que ele já passou por esse lugar (qual: Paris, Buenos Aires, Miami?) onde foi tão integralmente recompensado que ele prefere mantê-lo intacto em sua cabeça.

Considero uma verdade, portanto, que ele tenha sido muito feliz nesse lugar xis. Já a sua ilação de que nunca mais passará pela mesma alegria no mesmo destino é falsa e carece portanto da própria confirmação que, aparentemente, ele não fez.

Uma frase de Tahir Sha, jovem escritor inglês de origem asiática, com uma infinidade de fãs, explica melhor o que estou tentando dizer: ‘Não voltar significa autoexilar-se’, pontificou o novelista em outra frase de efeito poderosa.

Em outras palavras, a alegria de voltar para onde quer que seja representa liberdade absoluta e inquestionável para o viajante. Concordo, however, que a vida seja repleta de surpresas, mas a felicidade a que seu pai se refere pode estar na próxima esquina.

Toda viagem é uma confluência poderosa entre o lugar, a companhia e as circunstâncias. Qualquer pessoa que viaje com alguma frequência sabe disso.

Se você for a um lugar que a encanta e a companhia (pode ser um amigo, um parente or whatever) aborrecê-la, o prazer da viagem lhe parecerá menor. Se, porém, a companhia for ótima e as circunstâncias adversas – greve nos transportes, chuva intermitente, frio descabido ou calor congolês –, você poderá captar toda a felicidade possível de sua viagem, mas ainda assim ficará com uma dúvida.

E se eu voltar em um momento melhor? Sem chuva, greves, etc? Of course, darling: é assim que se faz! Se não dermos a chance para que uma viagem seja refeita – como seu pai supõe –, jamais saberemos se a experiência foi igual, pior... ou melhor! Pode ser qualquer das opções e um otimista certamente concordaria em correr o risco.

Quero dizer com isso, my dear, que até a alegria que a gente julga ser a maior possível pode ser superada se estivermos com o espírito preparado para que isso aconteça. Meu velho e bom amigo Rubinstein ( N. da R.: Arthur Rubinstein, pianista virtuose, morto em 1982) tinha uma frase quase tão linda como suas interpretações de Brahms e Chopin: ‘Se você ama a vida, ela vai amá-lo de volta’, disse-me o músico polonês, que virou cidadão americano e acabou morrendo em Genebra, na Suíça.

A citação, of course, dispensa comentários. Mas, de algum jeito, invade o raciocínio poético de seu pai. ‘Se você ama um lugar, ele vai amá-lo de volta’ é, a meu ver, a interpretação que o viajante deve dar à máxima de Rubinstein. In other words, se seu pai foi a um lugar e voltou apaixonado, o mais provável é que ele seja retribuído com o mesmo amor ao retornar. Porque a poesia que o raciocínio dele envolve significa que ele já ama o tal lugar – e foi correspondido. Tenho certeza de que seu pai entenderá seu raciocínio.” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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Arthur Rubinstein

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