Acervo Estadão
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Voos curtos? Ora, vá de pé

Oh my God: Há um projeto para passageiros viajarem em pé na classe econômica

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2018 | 03h30

De volta do sertão verdejante do Nordeste brasileiro, nosso correspondente britânico esteve em São Paulo para conversar com a família Klink (sobre seu projeto de navegar com Trashie em um veleiro alugado), comprou flores para o aniversário da Rainha Elizabeth II e respondeu à correspondência da semana:

Querido Mr. Miles: li, em algum lugar, que existe uma companhia aérea italiana projetando fazer os pessoas viajarem de pé. Pode uma coisa dessas? 

Plinio Morentsen, por e-mail

“Well, my friend, eu não duvidava de que caminhássemos para isso. E tenho a impressão de que o próximo passo, em termos de desconforto aeronáutico, será levar passageiros pendurados como ternos ou cortes de carne bovina em trilhos que vão percorrer, sinuosamente, a cabine dos aviões. It’s absolutely disgusting!

Fui pesquisar e, indeed, verifiquei que trata-se de uma ‘inovação’ da empresa Aviointeriors. In fact, com os tais encostos, as pessoas viajam apoiadas como se estivessem esperando o metrô nos apoios hoje existentes em estações around the world. O raciocínio dos fabricantes é de que não há nada de mal em colocar passageiros nessa situação vexatória, sobretudo em voos curtos (imaginem se a moda pega e, em breve, é adotada para voos intercontinentais, my God!). 

A compensação para as eternamente deficitárias empresas aéreas é que cada uma delas poderá acomodar 20% mais unidades – um bom nome para os passageiros em sua nova versão, don’t you agree? – em cada avião. 

Recomenda-se, claro, uma redução no custo das passagens aéreas que, for sure, será absorvida pelos aumentos que vão ocorrer nos meses seguintes. 

Eu não sei se você sabe, my friend, mas a questão básica é que grande parte das companhias aéreas têm capital aberto e ações à venda no mercado de capitais. Com prejuízo, os investidores desistem e, unfortunately, as empresas têm de fechar. O jeito de tornar a atividade minimamente rentável é inventar novas maneiras de faturar. 

Conforme eu mesmo preconizei, não tardam os dias em que, além de pagar por suas bagagens (o que antes não ocorria), os viajantes terão de arcar com custos inesperados em suas jornadas pelos céus. Presumo que haverá um valor que será preciso pagar para reclinar a poltrona; outro para quem desejar acender a luz de leitura; um terceiro para as pessoas horrivelmente exigentes que quiserem usar fones (descartáveis) de ouvido. Leitura de bordo? Só em troco do vil metal. Cobertores e travesseiros em voos longos? Ah, esses vão custar uma fortuna! Você quer chamar a comissária? Pelo menos 5 dólares a cada vez que apertar o botão a isso destinado. E não haverá perdão aos que pressionarem o interruptor por engano. 

Comidas e bebidas? Cobradas a preço das mais caras baladas. E, I’m sorry to say, com a qualidade de sempre: frangos de borracha ou látex, cenouras com sabor de chuchu, pães que precisam de potentes despertadores para amanhecer. Ah, você precisa usar o banheiro? Don’t worry: uma espécie de taxímetro na porta contará, em moeda forte, cada minuto de sua estada íntima. 

That’s it, my friend: quem há de se lembrar do tempo em que os assentos eram espaçosos, as aeromoças eram realmente moças e era possível ver um chef uniformizado flambando crepes suzette para os passageiros da primeira classe?

O pior, in my opinion, é que não se faz o contrário. A limitada criatividade dos burocratas leva sempre à economia; nunca a opções diferentes, que possam render mais, como voos com massagens, tratamentos dentários, líderes espirituais a bordo ou mesmo voos para fumantes – desde que eles paguem por esse privilégio. 

É claro que estou exagerando, mas das melhores cabeças costumam vir as melhores ideias; das piores, não se pode esperar nada além de passageiros que voam de pé. Desconfio que, no futuro, para evitar despesas de pouso e de espaço nos aeroportos, os viajantes poderão puxar uma cordinha ou apertar um botão – como no transporte publico terrestre – pedindo ao piloto que abra a porta da aeronave. No momento indicado, cada um deles poderá saltar sobre o seu destino. Haverá, of course, em cada aeronave, uma grande quantidade de paraquedas. À venda, é claro, por preços nada atraentes.”

 

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