“Obrigada” por lembrar que posso sofrer assédio sexual enquanto viajo
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“Obrigada” por lembrar que posso sofrer assédio sexual enquanto viajo

amandanoventa

23 Maio 2016 | 09h36

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Quem gosta de viajar pela América do Sul sabe da famosa travessia do deserto do Atacama para o Salar de Uyuni. A viagem é basicamente conhecida pelo perrengue de ficar durante quatro dias num jeep com pessoas que talvez você não conheça, não tomar banho por um ou dois dias, ficar sem comunicação por quatro dias, dormir com frio numa altitude de 4300m e a comida oferecida que pode não cair bem. Mas quando finalmente você chega ao Salar de Uyuni, acha que compensa tudo o que passou para ver aquela maravilha.

Eu fiz a viagem na semana passada e, mesmo tendo passado mal com a comida, confesso que estava esperando mais perrengue do que falam por aí. Fui sozinha, mas me dei muito bem com o meu grupo todo, fiz amigos. Valeu a pena, foi lindo e tenho belas histórias para contar. Mas hoje gostaria de falar sobre um episódio em particular que me deixou pensando…

Na última noite, fomos levados ao refúgio onde dormiríamos. O lugar era tão quieto, esquisito e no meio do nada do deserto boliviano que o apelidamos de “sinistrão”. Até aí, sem novidades. A maior surpresa do sinistrão ficou por conta da plaquinha que encontramos na porta do banheiro:


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Assusta mais do que a altitude. Ameaça mais do que o frio. É mais nojento do que ficar dias sem banho.

É importante você saber que para chegar ali através desse tour pela Bolívia contrata-se uma agência responsável por todo o tour. Paga-se caro por transporte, guia, alimentação e hospedagem. Não é algo que as pessoas fazem sozinhas, se enfiando entre montanhas e lagunas sem saber o que estão fazendo (há essa opção também, mas não é o que a maioria das pessoas fazem). E por mais fuleiros que os tais refúgios sejam, nada me incomodou mais do que a plaquinha.

Nessa viagem conheci tantas mulheres viajando. Algumas em grupo, casais e muitas fazendo uma solo trip pela primeira vez. Todas dispostas a ficar sem banho, escalar montanhas, encarar o frio, poeira, a altitude que não deixa respirar, a falta de comunicação… Nada disso espantou essas mulheres.

Mas quando uma placa dessa aparece, funciona como um lembrete de que toda a alegria e conquista da viagem são ameaçadas pela violência e abuso que ali, segundo o que a placa indica, é permitido, aprovado, legal. Funciona como um lembrete de que por mais que você se liberte dos seus medos, a ameaça e o risco ainda existem.

Eu fico igual uma louca incentivando as mulheres a viajarem, principalmente aquelas que não têm companhia e ficam na dúvida sobre ir sozinha. Eu sei que o maior medo de todas ainda é o abuso e violência sexual (o meu também é). Portanto, não dá para aceitar um sinal como esse numa hospedagem turística. Vai contra a nossa segurança e tudo o que temos discutido e conquistado até hoje.

Eu já enviei um e-mail para a agência responsável, mas ainda não obtive resposta. De qualquer forma, sei que ela não é a única a levar hóspedes para esse refúgio.

Nós, sul-americanos, passamos semanas no início do ano lendo e debatendo sobre as duas meninas argentinas que foram violentadas e mortas enquanto viajavam pela América do Sul. Com essa história da plaquinha, eu só queria lembrar vocês de que o problema ainda não foi resolvido. A briga só está começando e nós não vamos ceder.

Atualização: Após o contato com a agência, eles compreenderam o problema e solicitaram a retirada da placa do refúgio.

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