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Tem que ser rico sim para viajar

amandanoventa

16 de novembro de 2020 | 16h07

Uns anos atrás, em 2014, eu escrevi um texto aqui no Estadão dizendo que você não precisa ser rico para viajar. Primeiro eu gostaria de pedir desculpas porque talvez na época não entendesse os meus privilégios. Segundo que estamos em 2020, o câmbio está quebrando recordes e a cotação, na data em que escrevo este texto, é de R$5,64 para o dólar turismo (fiz uma pesquisa rapidão aqui e em 2014 estava R$2,23 #sdds)

Vamos esquecer a pandemia um pouco e fingir que podemos entrar em qualquer país com segurança porque uma hora vamos poder e viajar vai continuar sendo para os mais ricos. Quer ver?

Mantenha em mente que segundo a FGV e o IBGE, somente 14% dos brasileiros pertencem a classe A ou B – famílias nas quais a soma total dos salários é acima de R$20900 e R$10450 respectivamente. Fazendo uma conta rápida, usando alguns valores médios somando voo (R$4000), gastos diários (R$2500) e hospedagem (R$2300) uma viagem para a Europa, Estados Unidos ou vários outros países vai custar pelo menos R$9000 por pessoa. Ou seja, mesmo a classe B vai tem que escolher se vai pagar as contas do mês ou se vai viajar (principalmente se for a família toda). Haja guardar e investir dinheiro para as férias!

E o nosso ministro da economia argumentou uns meses atrás que é melhor a gente viajar pelo Brasil mesmo. E viajar pelo Brasil é legal. Mas mais legal ainda é poder escolher viajar para onde quiser porque você tem condições financeiras para isso. Não vou nem entrar na questão de que o preço do dólar influencia diretamente nas passagens aéreas mesmo que nacionais já que o valor do combustível também é em dólar.

Nesse texto de 2014 eu argumento que para conseguir viajar você precisa mudar seu estilo de vida, economizar no happy hour, andar mais de transporte público, fazer uns bicos ganhando dinheiro extra e blá blá blá. Que saudades de quando tudo era tão simples (contém ironia porque hoje, mais madura, sei que nunca foi para a maioria dos brasileiros. Tem várias verdades aí, mas nada tão fácil assim).

Justifico que viajar tem que ser prioridade – o que em 2020 soa completamente fora da realidade pois além do dólar, estamos felizes se chegarmos vivos ao fim do ano.

Também argumento que viajar não precisa ser luxuoso. E pois é, Amanda de 2014, é esse o ponto que eu quero chegar em 2020. Porque viajar realmente não precisa ser luxuoso, mas está sendo mesmo sem a gente querer.

Bom, pelo menos a gente ainda pode sonhar, né? Quer dizer, também não. Lembrei da pandemia.

Amanda Noventa é engajada em ajudar mulheres a viajarem e serem independentes. Também é podcaster no Por Trás da Selfie e fundadora da Fuga. Siga @amandanoventa no instagram.

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