Baía de Fundy e a maior variação de maré do mundo

Baía de Fundy e a maior variação de maré do mundo

Bay of Fundy tem uma das maiores marés do mundo. A baía no leste do Canadá pode ser vista na baixa e na alta num passeio de um dia. Aproveite para contornar Hopewell Rocks, em New Brunswick, como fez Cesar Cielo antes da Olimpíada de Inverno de 2010

Nathalia Molina

25 Agosto 2017 | 15h58

A flutuação de marés na Baía de Fundy prometia lindas imagens, o que o Canadá costuma entregar aos seus visitantes. Mas confesso que subestimei o poder de me surpreender que teria o litoral do país, quando visitei a província de New Brunswick. A variação entre alta e baixa maré justifica ser esse um dos principais pontos turísticos do Canadá ao leste: ela é considerada a maior variação de maré do mundo.


Criada com viagens frequentes ao Nordeste do Brasil, onde a diferença de maré muda completamente a paisagem, cresci achando muito natural esperar observar os caprichos da natureza se manifestarem de acordo com a hora e a lua do dia. Então levantei animada às 4 horas da manhã para estar pronta cedo para ver a vazante em Hopewell Rocks, parque no litoral da província canadense de New Brunswick. Mas, por puro desconhecimento meu, não tanto com a expectativa de ver algo completamente novo, como diversos dos meus colegas naquela viagem, jornalistas e blogueiros de várias partes do mundo — eu era a única brasileira do grupo, convidada a explorar o leste do Canadá de trem pelo Como Viaja, meu site com dicas de viagem.

Prefere Bay of Fundy na maré alta?

Ou a baía do Canadá na maré baixa?

Que ingenuidade a minha. Não seria à toa que Bay of Fundy estaria na lista de Canadian Signature Experiences, experiências listadas como únicas pelo Destination Canada, órgão responsável por promover o turismo no país. Todo dia 100 bilhões de toneladas de água enchem e esvaziam a baía, declarada Maravilha do Mundo Marítimo e Reserva da Biosfera pela Unesco, que ao sul banha também o litoral da Nova Scotia.

Hopewell Rocks, em Bay of Fundy, na maré baixa – Fotos: Nathalia Molina

Eu não sabia disso na época e não perdia por esperar. E foi gostoso esperar, acordando os sentidos com o despertar da manhã. Na van, o amanhecer aquecia o rosto enquanto o sol ia subindo devagar, iluminando o amplo horizonte que nos acompanhava à esquerda ao longo do caminho.

Amanhecer no caminho a partir de Moncton

Partimos de Moncton, simpática cidadezinha, capital de New Brunswick, onde nosso grupo ficou hospedado. Para você se localizar no mapa do Canadá, essa província fica na ponta leste do país, voltada para o Oceano Atlântico, e forma as chamadas Maritimes (Províncias Marítimas) com outras duas (Nova Scotia e Prince Edward Island). O período do ano indicado para este passeio vai do fim de maio até início de outubro, quando o tempo esquenta e os parques e as atrações funcionam plenamente. Até Hopewell Rocks vai uma hora de carro mais ou menos.

A visita a Hopewell Rocks, é claro, depende da maré. Por isso, o horário indicado para o passeio muda a cada dia. Nós saímos cedo de Moncton, perto das 6 horas da manhã. Era maio e fazia um frio danado. Me paramentei com casaco impermeável de capuz, luvas e meias térmicas sob a calça de malha. Ao longo do dia, sofri o processo cebola, que quem mora em São Paulo já está de certa forma acostumado a viver (com menos agasalho, obviamente). Vale avisar que seu sapato vai ficar bem sujo de lama, por isso, muitos recomendam o uso de galochas. Eu fui de tênis de corrida, com a sola mais alta.

Praia da Baía de Fundy na maré vazante

Anna-Marie, da Roads to Sea, nos conduziu durante todo o dia. Com a tranquilidade de quem mudou de vida para abrir sua empresa e trabalhar apresentando a viajantes do país e do exterior as belezas do litoral da sua New Brunswick, a canadense se mostrou muito prestativa para tirar dúvidas e empolgada para exibir tanto as paisagens e suas mudanças segundo a natureza quanto as delícias que aquele mar proporciona à mesa.

Em Hopewell Rocks à la Cesar Cielo

A primeira parada foi logo o trecho da Baía de Fundy que deixa enormes rochas aparentes quando a maré está baixa. Elas parecem vasos de planta, pois têm vegetação no topo. Talvez você se lembre dessa paisagem se tiver visto nosso nadador Cesar Cielo carregar a tocha da Olimpíada de Inverno de 2010, realizada no Canadá. Ele contornou a pedra atravessando seu vão segurando a tocha. Claro que eu fiz foto naquele vão também.

Alô, Cesar!

No passeio guiado pela Baía de Fundy, é possível escolher a visita apenas na vazante ou também na volta, com maré cheia. Eu recomendo ver os dois momentos do dia. Seria uma pena ir até lá e não ver na prática por que a variação de maré na Baía de Fundy é considerada uma das maiores do mundo.

Se você for por conta própria, programe-se para estar nas pedras no horário da maré mais baixa, para poder descer até a areia. Quem vai de carro pode seguir pela route 114, estrada em New Brunswick — o site do parque explica como nesta página. Lembre-se de respeitar a sinalização. Uma placa informa o horário que você deve subir da praia para evitar ficar preso lá embaixo na maré alta. Ah, e não é permitido nadar ou subir nas rochas.

Com hora marcada para voltar

O parque tem um centro de visitantes que explica o funcionamento das marés e conta com lugar para alimentação. O passeio que fizemos com a Anne-Marie teve outras paradas, ao longo do Hopewell Rocks & Bay of Fundy Coastal Tour, como mirantes, faróis e a Sawmill Creek Bridge, ponte coberta de 1905.

Farol em New Brunswick, província marítima do Canadá, no Atlântico

Entre os faróis visitamos também o de Cape Enrage, do século 19, localizado no alto de um penhasco. Vá de casaco porque o vento é muito lá em cima, de onde se tem uma vista maravilhosa da baía. O passeio todo dura de oito a nove horas e custa 173 dólares canadenses por pessoa.

Venta pouco?

Vale subir até o farol de Cape Enrage

Lagosta para comer e para vestir

Também visitamos um entreposto de comércio de lagosta. Na lojinha, você pode comprar de batata frita chips com sabor do crustáceo até um de pelúcia (não resisti e trouxe um para meu filhote, apelidado em casa de A Lagostinha) ou meias com desenhos de lagosta (eu adoro meias e trouxe uma). A pesca dos saborosos crustáceos é uma importante atividade econômica nas Províncias Marítimas.

Olha a Anne-Marie aí à direita, mostrando o tamanho das bichinhas

Produtos temáticos

Para esperar a maré encher, preenchemos o vazio do estômago, numa cidade de nome poético, Alma. Os barquinhos atracados no pequeno porto compõem um belo panorama com o vai-e-vem da maré, no trecho próximo à placa do Fundy National Park, parque nacional que preserva essa riqueza natural do Canadá. Naquele pedaço também dá para caminhar pelo litoral, todo pedregoso.

Pausa antes do almoço

Antes de nos sentarmos à mesa, passamos por ali e os barcos estavam fincados na areia. Na hora da digestão, já balançavam flutuando.

Maré baixa

Nos restaurante, tivemos uma aula com Anna-Marie sobre como desfrutar de toda a carne que a lagosta nos dá. Como carioca, que adora lagosta, eu pensei que soubesse comer o crustáceo. Vi o quanto ainda me falta praticar para não desperdiçar. Delícia de desculpa para seguir tentando explorar cada tantinho de carne dentro da casca.

Cardápio? Uma lagosta inteira

Apesar de o cardápio ser lagosta, o almoço é no estilo caseiro, com mesa farta, sem nenhuma onda gourmet. Para acompanhar, tomamos a cerveja local Alpine, lager produzida desde 1937 pela Moosehead Breweries, de New Brunswick.

Bagunça e fartura à mesa

Vestimos aventais para evitar sujar a roupa durante a aula-degustação. Depois dos sapatos enlameados à beira da praia em Hopewell Rocks, já era suficiente ter as mãos e a boca lambuzadas pela manteiga e pela carne de lagosta. Tipo de sujeira muito bem-vinda, aliás.

Saca só o babador! Mas que papinha…


* Nathalia Molina é jornalista de viagem e especialista em Canadá. Também escreve o Como Viaja, com dicas e experiências no Brasil e no exterior. Acompanhe pelo instagram @ComoViaja, pelo facebook ComoViaja e pelo canal do Como Viaja no YouTube