A odisseia do gim na Escócia

A odisseia do gim na Escócia

Mari Campos

27 Setembro 2017 | 11h27

A degustação cheia de experimentações da Eden Mill, em St Andrews. Crédito: Mari Campos

Não é raro a gente pensar imediatamente em uísque quando pensa na Escócia. Afinal, a tradição quase suprema do país na produção deste destilado ganhou fama internacional faz tempo. Sua chamada Whisky Trail (Rota do Uísque) movimenta boa parte do turismo nas Highlands (Terras Altas) há algum tempo, com estrutura e propriedades tão incríveis que encantam até o mais abstêmio dos viajantes.

Mas a verdade é que nos últimos anos  um outro destilado começa a dividir os holofotes quando se fala na produção alcoólica escocesa: o gim está virando uma verdadeira febre nacional. Dizem que tudo teria começado com algumas destilarias de uísque se dando conta de quão interessante financeiramente era produzir gin enquanto esperavam a maturação da produção do uísque; afinal, enquanto o uísque precisa de pelo menos três anos e um dia em barril para poder ser comercializado como tal, a produção do gim é quase instantânea, com comercialização imediata.

Com o boom e a volta da gin tonic como drink da moda em vários países atualmente, diversos bares se especializaram em servir e criar drinks à base do destilado. O negócio deu tão certo que diversas outras destilarias artesanais abriram suas portas recentemente no país, produzindo unicamente gim – e muitas delas estão se abrindo para visitas turísticas, com valores bastante acessíveis, entre 10 e 20 libras por pessoa (dependendo do tipo de tour). Alguns receptivos locais estão até se especializando em montar roteiros mais exclusivos pelo país, focados neste segmento do turismo de luxo, exclusivamente voltados para apreciadores da bebida.


Nesta última viagem à Escócia, em agosto passado, passei boa parte dos meus dias no país pesquisando justamente este tópico para algumas pautas do setor. Comecei por Edimburgo, visitando destilarias mais comerciais e conhecidas do público, como a Pickering’s Gin e a Edinburgh Gin, que têm várias visitas diárias abertas ao público turístico. Gostei bem mais da última,  com degustação super completa e instrutiva ao final da visita.

Alguns dos ingredientes utilizados no preparo do gim escocês. Crédito: Mari Campos

No idílico Kingdom of Fife, a minha preferida foi a destilaria Eden Mill, na pequena St Andrews, que produz não apenas gim e coquetéis engarrafados à base do destilado, como também uísque e cervejas artesanais na mesma propriedade. O tour de uma hora e meia é ótimo e termina com uma degustação bem completa no bar, incluindo diferentes tipos de gim com diferentes experimentações (com frutas, tônicas e outros ingredientes) sugeridas.

Mas é preciso deixar claro que é a incrível cidade de Glasgow a grande vedete na produção escocesa de gim na atualidade: diversas destilarias dos mais distintos tamanhos abriram suas portas por lá nos últimos três anos e há diferentes bares focados exclusivamente na bebida na cidade – como o Gin71, bem no centro da cidade, que tem (como seu nome sugere) 71 rótulos de gim diferentes e oferece a bebida tanto em doses individuais como flights (degustações com três ou quatro tipos) e coquetéis. Os bares dos restaurantes The Finnieston e Alston Bar and Beef também têm variedades impressionantes de rótulos e coquetéis à base de gim; o Alston, aliás, tem um menu incrível de gin & tonic, em que sugere as misturas mais aromáticas e você mesmo escolhe o gim (dentre mais de 100 opções diferentes) com a tônica que preferir (dentre mais de uma dúzia de opções distintas). O excelente Makar, produzido pela Glasgow Distillery (e encontrado também no duty free de Edimburgo e de Londres), é uma das ótimas opções da carta.

Meu próprio gin em franca produção no workshop da Crossbill Gin, em Glasgow. Crédito: Mari Campos

Mas dentre as diversas visitas que fiz a destilarias na cidade a melhor delas foi, sem dúvida, à minúscula Crossbill Gin. A diminuta destilaria local ocupa uma única sala num complexo que mescla lojas e galerias a dez minutos a pé do centrinho da cidade e já começa a ganhar os holofotes internacionais. É ali mesmo, no espaço tão compacto, que seu proprietário Jonathan Engels não apenas destila e engarrafa seu gim – um dos mais aromáticos que já provei na vida, feito com ingredientes 100% escoceses – como também ministra workshops em sua “Gin School” para que turistas possam produzir ali seu próprio gim. Participei de um deles e foi mesmo uma experiência deliciosa e divertida – a aula acontece com o próprio Jonathan servindo gim tonicas a seus “alunos” enquanto aprendemos sobre a bebida e vamos produzindo cada um nosso gim com os ingredientes que bem entendermos (dentre as inúmeras opções de ervas e ingredientes frescos que ele disponibiliza ali). Ao final da workshop (85 libras para duas pessoas), cada um leva para a casa a garrafa do gim que produziu  – e vou confessar que foi uma alegria tremenda provar o meu, já no Brasil, e constatar que tinha ficado mesmo bom. Que baita experiência de viagem.

Cheers!

 

 

 

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