Como é viajar durante a pandemia?

Como é viajar durante a pandemia?

Mari Campos

19 de março de 2021 | 10h07

Lá se foi um ano de pandemia e nossa relação com as viagens mudou completamente. Grande parte das pessoas, nacional e internacionalmente, ainda não retomou suas viagens desde o começo da pandemia de Covid-19. E quem já voltou a viajar também vem viajando de uma maneira bem diferente do que costumava fazer em outros tempos. Talvez o nosso jeito de viajar mude para sempre – embora isso seja algo que ainda não há como prever realmente. Mas, afinal, como é viajar na pandemia?

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Sabemos que nesse momento, com mais de dois mil mortos todos os dias no Brasil e o colapso geral do nosso sistema da saúde, a melhor coisa que podemos fazer por nós e pelas pessoas que amamos é ficar em casa sempre que possível.  E isso inclui adiar eventuais escapadas para cidades pequenas, que não podem arriscar ter seus sistemas de saúde sobrecarregados enquanto a saúde nacional colapsa. Hotéis e pousadas em vários destinos na fase roxa sequer estão abertos. Mas sonhar com as viagens que ainda queremos fazer, independentemente do destino, está felizmente liberado!

Enquanto não existirem restrições às movimentações, as pessoas seguirão viajando. E é aí que é preciso entrar em cartaz a responsabilidade do viajante. As viagens que fiz desde o começo da pandemia vocês acompanharam aqui na coluna e também pelo meu Instagram. Foram poucas escapadas, cheias de cuidados e restrições,  focando ou no turismo de isolamento real ou, pelo menos, no máximo distanciamento social possível. Afinal, a gente hoje sabe que é pelo ar que o vírus se transmite mais facilmente e nossas viagens precisam ser adaptadas a esse novo cenário urgentemente.

Bati um papo bem realista essa semana com alguns excelentes agentes de viagem brasileiros para saber como anda sendo, na prática, viajar em tempos de pandemia. O que quem decide viajar nesses tempos tem que estar preparado para encontrar, afinal? Além de organizar as viagens de diferentes clientes nestes últimos doze meses, a maioria deles fez também algumas viagens pessoais e até profissionais durante a pandemia. E têm trabalhado mais do que nunca. “Mas hoje em dia temos mais trabalhado para tentar apagar pequenos incêndios diariamente do que efetivamente vendendo”, desabafa Bruno Vilaça, da Superviagem, membro Virtuoso. 

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Foto: Mari Campos

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Nem todo mundo viaja para se isolar na pandemia

“Uma parcela muito grande dos meus clientes ainda não viajou, não saíram de casa desde o começo da pandemia”, me disse Bruno. “Mesmo quem já voltou a viajar, tem feito retomadas improvisadas, com planos B, C ou D”,  explica. E cautela virou mesmo palavra-chave indissociável do turismo, independentemente da decisão de voltar a viajar ou não. 

Estudo divulgado agora em março pela Travel Consul revelou que mais da metade das pessoas (60%) ainda está adiando a volta às viagens no mundo todo. Mas a gente sabe que muita gente já fez algum tipo de viagem nestes últimos doze meses para escapar um pouquinho de tantos meses em casa – eu incluída. Acredito que todos nós conhecemos casos dos mais diferentes tipos de viagens e com os mais distintos propósitos. E as redes sociais estão cheias de imagens, em diferentes destinos brasileiros, de gente que nem parece atravessar a pior pandemia dos últimos 100 anos, infelizmente.

“Durante a pandemia, os viajantes viajaram para fugir da pandemia. Todos. Mas cada um do seu jeito”, me disse Ricardo Freire, criador do Viaje na Viagem, em uma entrevista na semana passada. “Alguns viajaram para fazer turismo de isolamento, outros viajaram para lugares onde o distanciamento social era possível. Infelizmente, a maioria viajou para simplesmente fugir dos protocolos e passar uns dias fingindo que não existe pandemia no lugar para onde foram.  Em muitos destinos, a baixa temporada virou um Réveillon permanente”, lamenta. 

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Foto: Leading Hotels of the World (Divulgação)

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Ou seja: mesmo que tomemos todos os cuidados ao planejar a nossa viagem, é preciso ter plena ciência que nem todo viajante (ou morador do destino visitado) terá o mesmo cuidado. Eu mesma me surpreendi ao alugar uma casa durante uma semana em Ilhabela (SP) no ano passado e ver que muuuuuuita gente na cidade sequer usava máscara. E encontrei cenário semelhante em Campos do Jordão (SP), também no ano passado: cidade muito cheia, pouquíssima gente com máscara. 

E quem decide viajar para o exterior tem que ter ciência que, mesmo que seu destino final ou hotel sejam mais isolados ou teoricamente “anti-aglomeração”, você ainda poderá enfrentar grandes aglomerações (e alguns turistas negacionistas, independente do destino) em parte de seus deslocamentos – incluindo longas filas de imigração em alguns aeroportos internacionais, por exemplo. 

“Na minha opinião, viajar desde que a pandemia começou tem sido extremamente desafiador e até assustador”, resume Talita Furtado, sócia da agência Atelier de Viagem. “Estamos vivendo tempos muito difíceis e viajar com cuidados tem sido uma forma de se desconectar um pouco dos problemas e passar momentos agradáveis em isolamento em outro lugar. Mas, além do risco da contaminação, há também o risco de inúmeros imprevistos, riscos de aglomeração (dependendo do destino) e risco muito elevado de transtornos com a parte aérea”, conclui. E relembra: “A maior responsabilidade do viajante no momento é viajar com consciência coletiva. Viajar sem aglomerar e sem contribuir para que o vírus continue a se disseminar”. 

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Foto: Mari Campos

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Ciência dos riscos e planejamento financeiro

O simples ato de pegar o carro e fugir no final de semana deixou de ter a simplicidade que essas escapadas tinham no pré-pandemia. Seja qual for o tipo de viagem que você anda considerando fazer durante a pandemia, antes de mais nada é necessário ter flexibilidade. “As palavras de ordem no turismo agora são plasticidade, flexibilidade e tolerância”, afirma Jacque Dallal, proprietária da Be Happy Viagens. 

Jacque, acostumada a preparar viagens românticas impecáveis para seus clientes (premiada repetidas vezes como uma das melhores agências de viagem do país para viagens de lua-de-mel, por exemplo),  alerta que o momento atual é muito mais delicado que ano passado. “O que a gente está vendo agora é uma situação piorada e mais restrições a brasileiros, como vimos recentemente acontecer com Turquia e Dubai. Então viajar em meio à pandemia exige muita resiliência. É fundamental pensar sempre nos riscos e ter um bom planejamento financeiro”, avisa. 

Isso é mais essencial ainda para quem decidir viajar para o exterior durante a pandemia. Pois, além dos custos muito mais altos de serviços como seguro viagem e da gigante desvalorização do real, há também que se considerar os custos relativos a diferentes exames obrigatórios de PCR (pré, durante – em alguns destinos – e na volta da viagem) e a necessidade de ter caixa suficiente para bancar sua eventual quarentena no destino.

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Foto: Mari Campos

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Estejam os destinos incrivelmente mais vazios que antes (como o Egito, por exemplo) ou impressionantemente cheios (como algumas cidades brasileiras citadas anteriormente), é inegável que diversas transformações aconteceram em todos os lugares neste ano que passou. E um destino pode ter regras locais incrivelmente diferentes do vizinho. “Viajar na pandemia tem que ser uma decisão muito bem ponderada. E é importante também viajar já esperando que os destinos certamente não estarão do mesmo jeito que eram”, diz Marcelo Alabarce, diretor da M. Alabarce Curadoria de Viagens.  “O viajante tem que estar ciente 100% que há sim riscos, embora seja inerente ao ser humano achar que nunca vai acontecer nada com ele”, explica. 

Os agentes de viagem com os quais conversei nas últimas semanas foram todos unânimes em afirmar que responsabilidade é pressuposto essencial de quem escolhe viajar a lazer na pandemia. Marcelo teve recentemente que lidar com o caso de uma família cliente em viagem pelo Caribe em que um dos membros testou positivo bem na véspera de voltar para o Brasil. Como o embarque para a volta só é permitida com o teste negativo e existem diferentes burocracias envolvidas dependendo do país visitado, a família brasileira acabou tendo que estender sua viagem por outros impressionantes 21 dias até que todos testassem negativo e pudessem voltar para casa – pagando tudo do próprio bolso, é claro.

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Foto: Mari Campos

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Confie no bom agente de viagem

Marcelo, que sempre foi também um viajante de carteirinha, fez algumas viagens pessoais cheias de cuidados durante a pandemia. Mas conta que ele próprio acabou de adiar uma viagem que faria nesta semana para um bangalô isolado na Praia do Espelho pelo fato do sistema de saúde nacional, como um todo, estar atualmente colapsado. “Foi o mais prudente”, contou. Do lado de cá, eu também adiei a viagem que faria para Paraty nesta semana, pelo mesmo motivo.

Ao viajarmos em tempos pandêmicos, além dos nossos cuidados cotidianos de saúde que já assimilamos (como uso de máscaras, higiene constante das mãos e distanciamento social), é preciso estarmos preparados para enfrentar mais imprevistos em geral que antes. Afinal, fronteiras abrem e fecham o tempo todo, destinos entram em lockdown, companhias aéreas cancelam voos de última hora etc.

E é por isso que, como já comentei em coluna anterior, é recomendável fazer uso da curadoria do bom agente de viagens. “A responsabilidade do agente é incentivar viagens para lugares com distanciamento social possível nesse momento. Na minha agência, eu optei por não vender viagens para lugares nos quais não se consegue fugir de aglomerações. Também não vendo nenhuma viagem internacional sem que esteja 100% segura de que o destino em questão é realmente seguro para meu cliente”, conta Talita Furtado, da Atelier de Viagem.

Porque o bom agente de viagem vai não apenas prestar assistência diante de imprevistos mas também recomendar apenas viagens sanitária e eticamente viáveis nestes tempos.  É responsável o suficiente inclusive para nos dizer quando não devemos viajar. Por isso que a gente confia nele. 

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