Escapada a Tiradentes

Escapada a Tiradentes

Mari Campos

17 de julho de 2019 | 19h50

Nostalgia em toda parte da cidade. Foto: Mari Campos

Tiradentes foi uma paixão de infância, daquelas à primeira vista. Com o passar dos anos, percebi que a cidade ia só melhorando: ganhava mais infra, mais opções para ficar, comer, beber, comprar e passear, mas felizmente sem nunca perder seu jeitinho de parada no tempo. Dei um intervalo enorme entre a última visita, há muitos anos, e a última, neste final de junho/comecinho de julho. E a paixão pelo destino virou coisa ainda mais séria.

Localizada a menos de sete horas de carro desde São Paulo, cinco e meia do Rio e duas e meia desde Belo Horizonte, Tiradentes cabe bem mesmo em uma agenda de viagem com poucos dias disponíveis. Apesar de ter crescido, e muito, e em ritmo constante, nesta última década, Tiradentes soube guardar direitinho, das ruas em pé-de-moleque às igrejas (são oito tombadas pelo Iphan!) e fachadas coloniais, a história de seus maiores encantos.  A vista arrebatadora da Serra de São José também está todinha ali, o tempo todo, emoldurando a cidade. A redescoberta da cidade pelo turismo nos anos 80 ganhou ainda mais intensidade na última década, com novas pousadas de charme, novas lojas, novas atividades e novos restaurantes (vários excelentes, por sinal!) abrindo todo ano aqui e ali. Do ponto de vista turístico, o que era bom só melhorou.

Para começo de conversa, fiquei hospedada na ótima Pousada Solar da Serra, já quase na estrada para Bichinho, que tem de longe a vista mais bonita da hotelaria de toda Tiradentes (fucei várias, acredite, e não achei mesmo vista mais arrebatadora que a deles, com a cidade e a Serra de São José se esparramando no horizonte). Além disso, os quartos são bem confortáveis e café da manhã e chá da tarde, ambos incluídos nas diárias, são bem caprichados. Dá pra ler minha review completinha sobre a pousada Solar da Serra aqui.

A piscina com vista para a Serra de São José da Pousada Solar da Serra. Foto: Mari Campos.

Explorando a cidade, impossível não se deixar seduzir pelas ruelas e becos, pelas fachadas de estilo barroco-rococó nas igrejas, casas setecentistas coloridas que vivem virando cenário de novela. A vibe é tão nostálgica que charretes levam turistas pra lá e pra cá o tempo todo (os táxis têm preços tabelados e não há transporte por aplicativo na cidade). Boa ideia é começar a viagem com a caminhada curtinha ao morro de São Francisco. Dali do alto, vistas panorâmicas deslumbrantes da cidade toda e das montanhas, perfeitinhas para nos localizarmos bem na cidade. Se puder ir na hora do por do sol, melhor ainda: a luz do final da tarde deixa fachadas e montanhas com tons dourados. Ali no alto fica a Igrejinha que já serviu de locação para diversas produções, inclusive a bela cena de Ana Paula Arósio beijando Rodrigo Santoro pela primeira vez em Hilda Furacão.

As igrejas da cidade são prato cheio para as visitas turísticas, sempre adornadas com muito ouro – da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos dos escravos à Igreja Matriz de Santo Antonio, a mais antiga da cidade. Dos muitos museus de Tiradentes, recomendo fortemente dois. Primeiro, na Praça das Mercês, o imperdível Instituto Mário Mendonça, numa propriedade particular do artista, que oferece gratuitamente uma mostra permanente não apenas de suas próprias obras (com destaque absoluto para temas sacros) como também um acervo pessoal impressionante de cerca de 1400 obras entre Dalís, Picassos, Degas e Portinaris. A visita gratuita e guiada precisa ser necessariamente agendada. Gostei muito também do pequeno Museu de Sant’Ana, instalado com maestria no prédio da antiga cadeia pública, do século 18. Ali estão reunidas quase 300 esculturas diferentes de Santa Ana, a mãe de Maria, da coleção doada ao Patrimônio Público pela empresária Angela Gutierrez. A curadoria ficou excelente, leve e muito didática, inclusive para quem visita com crianças.

O café da tarde incrivelmente fotogênico – e delicioso! – da Jane’s Apple. Foto: Mari Campos

Com áreas de reserva de biosfera e preservação no seu entorno, Tiradentes nos dá também a possibilidade de fazer trilhas para conhecer algumas das cachoeiras da região, incluindo trilhas longas de dia inteiro pela Serra de São José.  A trilha das cachoeiras, que liga Tiradentes a São José del Rey, parte do marco zero da Estrada Real. Abra os olhos também para as libélulas, que são muitas, e de muitas espécies, por lá: Tiradentes tem das maiores concentrações e diversidades de libélulas do mundo.

Refeições incríveis, fiz muitas por lá. Muitas mesmo. Comer bem em Tiradentes é quase uma redundância – principalmente se topar fugir do estereótipo da clássica comida mineira também. A cidade está tomada por grandes chefs de diferentes repertórios, com refeições surpreendentes em ambientes deliciosos.  Minhas preferidas foram nos restaurantes UaiThai (imperdível fusão tailandesa e mineira), Tragaluz (alta gastronomia, de serviço irretocável, para um jantar caprichado) e Cultivo (um vegano descoladíssimo, que serve também excelentes drinks). Tem até bela comida mexicana no descoladíssimo Casazul.

Os melhores cafés da tarde da vida toda aconteceram nas também imperdíveis lojas Jane’s Apple e Marcas Mineiras – recomendo os dois, e muito; mas vá com apetite (do pão de queijo aos bolos, tudo é divino em ambos). A Marcas Mineiras ainda tem peças lindas para a casa. Para botecagem noturna ou de final de tarde, imbatíveis os quitutes e bebidinhas do deliciosos e super sem frescura Biroska Santo Reis; e vale conhecer também os caldinhos e pasteis de angu do Templario. Fechar a noite com um drink no Entrepôt du Vin também é um programão. Para degustar, comprar e aprender muito sobre queijos, recomendo muito a loja Ouro Canastra, bem no centrinho (eles têm workshops bem completos, mas também dá pra provar tudo por lá antes de comprar).

Fachada do restaurante Cultivo. Foto: Mari Campos

Para comprar coisinhas lindas e fora do óbvio, as lindezas artesanais da Daniela Karam, as cerâmicas mil e as peças de decoração em marcenaria da Joelma Marques. Para comprar queijos incríveis, vale o desvio de carro até o sítio da Lúcia, que produz o queijo mais premiado da região (inclusive internacionalmente) – é só perguntar ali pelo “queijo da Lúcia”.  E para quem quer conhecer os famosos alambiques mineiros, uma bela opção é visitar a Cachaçaria Mazuma, já no distrito vizinho de Bichinho, que produz diferentes tipos de cachaça de maneira susentável e recebe para visita com degustação de diferentes cachaças por apenas 10 reais por pessoa. A visita é interessante e a propriedade onde fica a cachaçaria é linda, com belíssimas vistas panorâmicas.

Esperta, Tiradentes criou uma intensa agenda de eventos anuais, de encontros de motociclistas a festivais gastronômicos, que garantem movimento ao destino o ano todo – mas para aproveitar o melhor da cidade com tranquilidade, vale fugir destas datas.

Fiz os meus passeios pela cidade e arredores com a empresa Tiradentes Estrada Real. Mais detalhes de Tiradentes em breve lá no MariCampos.com.

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