Fé, rafting no Ganges e bem-estar em Rishikesh

Fé, rafting no Ganges e bem-estar em Rishikesh

Mari Campos

13 de maio de 2019 | 08h33

Detalhe de um dos quartos do Ananda. Foto: Mari Campos

Rishikesh, a cidade banhada pelo Ganges aos pés do Himalaia, ficou famosa no ocidente quando os Beatles, no final da década de 60, se instalaram ali em um ashram e saíram dali meses depois com 48 novas músicas que, em boa parte, viraram o White Album no ano seguinte. 

Foi nessa época, e em boa parte graças ao quarteto fantástico, que inúmeros outros turistas estrangeiros começaram a colocar essa cidade às margens do rio Ganges em sua wish-list indiana. Hoje, Rishikesh tem farta estrutura turística e recebe gente do mundo inteiro, o ano todo – mas ainda conservando sua personalidade tão bem definida.  Vacas e moscas (muitas!) circulam sem stress nas apertadas ruas do centrinho, às margens do rio, por entre ashrams, sadhus e lojinhas que vendem lembrancinhas de todo tipo aos turistas.

A cidade foi também berço da yoga e até hoje não nega tais origens (recebendo, inclusive, conferências internacionais ligadas à prática anualmente). É  ali também que o Ganges recebe diariamente a cerimônia do Aarti, ao por-do-sol, em pontos diferentes à beira-rio – e em proporção incrivelmente menor que em Varanasi, mas também bastante emocionante.  O Ganges ali, aliás, é ainda bastante limpo, tanto que em boa parte do ano se pratica rafting diariamente em suas águas. Entrei neste passeio com tudo (o rio sagrado é considerado tão limpo ali que durante o passeio o guia pergunta quem quer descer do bote e nadar!) e após cinco corredeiras de nível “três e meio”, como insistia nosso guia, saí de corpo e alma incrivelmente lavados.

Detalhe de uma das cerimônias do Aarti em Rishikesh, à beira do Ganges. Foto: Mari Campos

E é no alto das montanhas de Rishikesh, a mais ou menos 40 minutos do centro da cidade, que fica o mais famoso resort de bem-estar da Índia: o Ananda in the Himalayas.  O resort tem a concessão de uma propriedade de 100 acres que pertence ao Marajá de Rishikesh, rodeada pelas florestas Sal, com vista para a cidade e o Ganges, e ali a filosofia principal é integrar os princípios da ayurveda, da yoga e do vedante com experiências internacionais de bem-estar e culinária orgânica para restaurar o equilíbrio e harmonizar a energia de seus hóspedes.

Não se trata exatamente de um hotel de luxo, mas a ideia ali é cuidar de corpo e mente de maneira confortável e prazerosa. Passei uma semana ali, em uma experiência geral bem diferente – principalmente após ter viajado por mais de 15 dias pela Índia, de norte a sul. O Ananda tem uma filosofia holística de saúde e bem-estar, mais ou menos ao exemplo do Rituaali (em Penedo, RJ) – mas menos radical, dando muito mais liberdade ao hóspede na hora de comer e organizar suas atividades diárias. Ou seja: cada hóspede recebe um menu de atividades e refeições (incluídas na diária, e com base na prática indiana da Ayurveda) personalizado; se você quiser seguir à risca, ótimo – mas se preferir simplesmente curtir o local e comer seus pratos favoritos, ninguém vai brigar com você.

Banheira com vista para Rishikesh e o Ganges nos quartos do 4o. ao 5o. andar. Foto: Mari Campos

São 78 quartos (vilas incluídas) confortáveis, todos com banheira de hidromassagem e uma pequena varanda ou pátio (o ideal é pedir quartos do quarto ao sexto andar para poder ver a cidade de Rishikesh, as montanhas e o Ganges da sua própria varanda ou banheira – o meu era no segundo andar e infelizmente não tinha vista).

O hotel conta com um imenso spa (com facilidades hidroterápicas, um antiga academia e diversas salas de tratamento diferentes), que é o grande coração da propriedade. Além disso, há quadras esportivas, pavilhão de yoga, campos de golfe, piscina, áreas de lazer e o antigo palácio do marajá do século XIX (que funciona também como recepção e onde é servido diariamente um chá da tarde também incluído nas diárias). Cada hóspede recebe no check in um “kurta pijama” branco para ser usado durante as atividades do resort – o uso é opcional, mas a adesão ao mesmo é impressionantemente grande (exceto à hora do jantar).

A prática indiana da Ayurveda acredita que todos nós somos compostos por três doshas (ou elementos): Vata, Pitta e Kapha e que tratamentos e mudanças na dieta nos ajudam a reencontrar o equilíbrio entre eles.  Além das refeições em sistema de pensão completa (e com pratos realmente muitíssimo saborosos, saudáveis e bem preparados), as diárias no Ananda também incluem pelo menos um tratamento individual por dia no spa (massagens aromaterápicas, ayurvédicas etc) e uma série de atividades comuns (de yoga a golf) para quem se hospedar por pelo menos 3 noites.

Hóspedes praticam yoga todas as manhãs no Ananda. Foto: Mari Campos

O panorama montanhoso lá do alto é incrível e há tanto silêncio e um ar tão puro que a gente se esquece na maior parte do tempo de que está na Índia (o que às vezes, confesso, me deixou bastante confusa durante minha estadia). Mas Rishikesh está a apenas 40 minutos de  carro e descer à cidade é um programão para os hóspedes, inclusive para fazer rafting (pago à parte) e comprinhas. Está também incluída na maior parte dos programas de mais de três noites no hotel uma ida a Rishikesh para participar do Aarti, a colorida cerimônia religiosa entre cantos e fogo à beira do Ganges – uma experiência imperdível.

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