Hotéis e ventilação de ambientes: hora de acertar essa equação

Hotéis e ventilação de ambientes: hora de acertar essa equação

Mari Campos

22 de julho de 2021 | 13h56

Recentemente, desci para tomar o café da manhã em uma pousada no interior de São Paulo e encontrei não apenas o buffet tradicional espremido em duas bancadas americanas entre restaurante e cozinha (prática condenada pela OMS durante a pandemia), como absolutamente todas as (muitas!) janelas do ambiente fechadas. A porta de correr da entrada estava apenas entreaberta para passagem de uma pessoa por vez, um tubo de álcool em gel logo ao lado. Isso tudo depois de quase um ano e meio do “novo” coronavírus. Hotéis e ventilação dos ambientes: hora de acertar essa equação, não?

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O local não oferecia nenhuma possibilidade de café no quarto ou em outras áreas da propriedade. Manifestei minha surpresa com tal conduta e o proprietário da pousada imediatamente abriu algumas das janelas do local, gentil e solícito. Abriu também a porta de entrada do restaurante, que dava para um delicioso jardim. Quando questionei porque mantinham o restaurante sem ventilação quando já sabemos há tanto tempo que o vírus da Covid-19 se transmite majoritariamente pelo ar, ele afirmou que “seguiam todos os protocolos sanitários”, mas que não havia nenhuma menção à necessidade de ventilação dos ambientes no programa de segurança pelo qual optaram no começo da pandemia.

Ora, ora. Os protocolos que a maioria dos hotéis e pousadas brasileiros segue até hoje foram feitos em geral em maio do ano passado, quando ainda conhecíamos pouco sobre o vírus e vivíamos à base de álcool em gel. Passado quase um ano e meio desses novos tempos, e com tanta informação disseminada nacional e internacionalmente sobre a necessidade crucial da boa ventilação dos ambientes, será que já não passou da hora da hotelaria brasileira ajusta-los formalmente? Se há hoteleiros se prendendo exclusivamente aos aspectos literais de tais protocolos para zelar pela segurança de funcionários e hóspedes, mesmo com os avanços da ciência e do conhecimento nesse meio tempo, urge que entidades e associações do setor os atualizem o mais rápido possível.

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Ventilação dos ambientes é crucial

Desde o ano passado, tenho visto propriedades trabalhando de maneira excelente para se ajustar aos novos tempos de maneira exemplar. É um prazer imenso compartilhar com outros viajantes, seja aqui, em outras publicações ou no meu Instagram @maricampos, essas iniciativas realmente louváveis de profissionais que têm sido capazes de garantir real segurança para hóspedes e staff, sem perder a calidez e a qualidade dos serviços prestados.

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Por isso me causou tanta surpresa o caso da referida pousada (instalada, veja só!, em uma propriedade imensa, com belos jardins e enormes gramados que poderiam inclusive receber deliciosas mesas e cadeiras para o desjejum ao ar livre), insistir em confinar os hóspedes em um restaurante com janelas fechadas até que um hóspede (oi!) reclamasse.

Em 2020, no começo da pandemia, o mundo ainda não conhecia exatamente o modus operandi do vírus e nos focávamos todos em despejar álcool 70 em tudo, das mãos aos objetos e superfícies de contato. Mas, já no segundo semestre do ano passado, inúmeros estudos comprovaram que a tríade ventilação, distanciamento social e uso de máscaras é a melhor forma de combater a pandemia, mesmo com avanços da vacinação.

O Palácio Tangará, em São Paulo, membro da Oetker Collection, é um excelente exemplo de hotel que soube agir rapidamente para que a ventilação agisse em prol da segurança de staff e hóspede. Desde a reabertura no ano passado, as portas para entrada, pátios e piscina estão agora em sua maioria bem abertas, garantindo fluxo contínuo de ar renovado no lobby e demais espaços públicos.  Substituíram o bar interno por um adorável restaurante e bar ao ar livre, rodeado de verde, que faz sucesso dia e noite. O restaurante estrelado da casa passou a ter suas portas internas e externas sempre abertas, mantendo a boa ventilação cruzada o tempo todo. Leia aqui a review completa sobre o Palácio Tangará.

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Hotelaria e ventilação: outros bons exemplos brasileiros

Tenho tentando ser extremamente cuidadosa ao selecionar hotéis e pousadas para minhas hospedagens desde o começo da pandemia. Estudos recentes mostraram mesmo que a hospitalidade nunca esteve tão em evidência quanto hoje. Pesquiso muito, converso com quem já se hospedou no local, tiro dúvidas com meu agente de viagens. E, exceto pelo caso específico que menciono no começo do texto, tive hospedagens excelentes no período, me sentindo segura todo o tempo.

A Casa Turquesa, em Paraty/RJ, que revisitei no mês passado, sempre privilegiou a ventilação por sua própria arquitetura (que inclui um belíssimo pátio bem no centro da propriedade e ventilação cruzada em todos os ambientes comuns) e hoje orienta hóspedes a fazerem também bom uso dos bons sistemas de ventilação dos quartos.  A adorável L.A.H Hostellerie, em Campos do Jordão/SP, não apenas deixa as áreas comuns extremamente ventiladas o dia todo, como passou a servir o café da manhã também ao ar livre, no delicioso deck da piscina, para os hóspedes que assim o desejarem.

Da mesma maneira, diversos outros hotéis e pousadas de diferentes nichos, e em diferentes cantos do país, têm não apenas feito excelentes esforços para zelar pela boa ventilação nos ambientes internos como também criado cantinhos ao ar livre e novas opções de atividades externas, sempre que possível, como medida de segurança. Não à toa, piqueniques passaram a entrar no cardápio de inúmeras propriedades no último ano (seja para consumir in loco, quando há espaço externo disponível, ou para os hóspedes levarem para parques e praças do destino, quando não há), e têm sido um enorme sucesso.

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Hotelaria e ventilação dos ambientes: é hora de acertar essa equação

O pesquisador da na Universidade de Vermont (EUA) e membro do Observatório COVID-19BR Vitor Mori, por exemplo, é um dos que há meses insiste publicamente que a ventilação adequada dos ambientes é das ferramentas mais importantes no combate à pandemia. Mais do que o uso do álcool em gel, inclusive.

Acho mesmo preocupante que, avançando já na segunda metade de 2021, com tantos alertas de cientistas do Brasil e do mundo todo sobre a necessidade de ventilar bem ambientes, algumas propriedades ainda não tomem isso como regra básica simplesmente porque a orientação não figura explicitamente no protocolo sanitário que adotaram no ano passado.

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Precisamos TODOS zelar por isso, para que possamos sair da pandemia o quanto antes. Viajantes: pesquisem bastante sobre os hotéis e pousadas nos quais pretendem se hospedar durante a pandemia. Apostem na curadoria do bom agente de viagem, questionem sempre. Ajudem a zelar também para que todos os ambientes da hospedagem onde estão sejam muito bem ventilados, e não tenham vergonha de questionar gerentes e proprietários quando não se sentirem realmente seguros.

Hoteleiros: sabemos do trabalho hercúleo que vocês estão fazendo para se adaptar aos novos tempos. E muitos são mesmo dignos de aplauso! Mas, por favor, ZELEM TAMBÉM PELA BOA VENTILAÇÃO de todos os ambientes públicos de suas propriedades. Principalmente em seus restaurantes, que são justamente o ambiente em que todos os hóspedes estarão obviamente sem máscaras. Abram todas as janelas, procurem mecanismos de estabelecer ventilação cruzada, aproveitem ao máximo os espaços ao ar livre quando possível. Pela segurança de todos, hóspedes e equipe.

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