O que é Revenge Travel?

O que é Revenge Travel?

Mari Campos

06 de janeiro de 2021 | 00h30

A dois meses de completarmos um ano do mundo em pandemia, já fizemos zilhões de planos de viagem, dos mais diversos tipos, para quando tudo estiver finalmente sob controle, não é mesmo? Afinal, depois de tanto tempo privados de viajar para alguns de nossos destinos favoritos (ou mesmo privados de todo tipo de viagem, para muita gente), nada mais natural que, uma vez que seja realmente seguro e permitido voltarmos a viajar livremente por aí, a gente queira compensação – o clássico “viajar como nunca”. E é exatamente por isso que o termo revenge travel virou 2021 cheio de força no hemisfério norte. 

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O que é revenge travel?

Revenge travel” (algo que poderia ser traduzido como “viagem da desforra”) deriva de “revenge spending”, termo surgido na China nos anos 80 para se referir ao excesso de gastos (ou mesmo compulsão consumista) após longos períodos de privação de consumo. Diferentes especialistas em turismo, aqui e lá fora, prevêem comportamento semelhante com as nossas viagens no pós-pandemia: após tanto tempo com tanta gente privada de viajar livremente por aí, estão esperando um boom no setor a partir do segundo semestre deste ano – sobretudo no mercado das viagens de luxo.

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Private jet

Crédito: Tradewind Aviation

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Demanda reprimida

Pesquisas recentes relembram que a demanda presente por viagens e o desejo de viajar não são a mesma coisa. Estes estudos mostram que a pandemia não prejudicou em nada o desejo dos turistas de todo tipo de viajar por aí – ainda que o comportamento das reservas em geral tenha mudado bastante durante a pandemia, focando em maior flexibilidade das regras e ciclos menores de planejamento. Há pesquisas (como uma feita pela Harris Poll feita com norte-americanos ainda no final do primeiro semestre de 2020) que mostram inclusive que o desejo de viajar só aumentou à medida que a pandemia avançou. Seja para se conectar com os entes queridos que estão distantes ou mesmo para mudanças de ares e cenários, a demanda reprimida por viagens só aumenta com o passar dos meses.

A adoção do novo termo por tantas publicações internacionais, hoteleiros e agentes de viagem obviamente não quer pregar nenhum tipo de comportamento sinistro ou violento. Aqui, o uso do termo “revenge” (vingança) quer mais é enfatizar a intensidade do desejo reprimido de viajar e sua esperada compensação. Viagens mais de celebração que qualquer outra coisa.

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A cruel segunda onda da Covid-19 em muitos países (Brasil incluído!) tem tornado quase impossível fazer previsões de quando exatamente o mercado de turismo irá começar a se recuperar de fato. O “abre-e-fecha” de fronteiras e novas exigências de destinos mudam o tempo todo (vide o novo lockdown na Inglaterra neste começo de ano e a recém-anunciada quarentena obrigatória de duas semanas para qualquer turista ingressar em destinos como o Peru).

Mas, apesar de infelizmente não termos ainda nenhuma previsão de vacinação (nem sequer um plano, e nem seringas!) no Brasil, hoje, no momento em que escrevo essa coluna, mais de 50 países já iniciaram seus processos de vacinação pública, gerando perspectivas muito mais animadoras para o mercado do turismo todo. E a expectativa – do trade turístico e dos próprios viajantes – é de um segundo semestre com um cenário pandêmico (e de mobilidade em geral) bem diferente do que vemos hoje. 

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Four Seasons Orlando

Crédito: Four Seasons Orlando

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Hotéis começam a fazer campanhas de “revenge travel”

Por isso mesmo, o termo “revenge travel” vem sendo usado com insistência no hemisfério norte de um mês pra cá. Há diversos hotéis, em diferentes países, dos econômicos aos mais luxuosos, apostando na tal “viagem da desforra” em sua comunicação com os viajantes. Muitos deles estão criando, inclusive, pacotes especiais com essa terminologia como tentativa de atrair novos hóspedes.

Acredita-se que as “revenge travels” podem trazer de volta de forma consistente o turismo de lazer, conforme as vacinações avancem no mundo todo. Mas muitos hotéis do mercado de luxo já estão apelando para o termo para atrair também de maneira mais imediata hóspedes interessados em estadias mais longas, mesclando lazer com home office e ensino à distância, como rezam as tendências de viagem para 2021.  Ou como oportunidade para atrair mais hóspedes para hotéis localizados em destinos que sempre estiveram no imaginário viajante coletivo, como as Maldivas

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Caso, por exemplo, do Four Seasons Resort Orlando, no Walt Disney World Resort, que anunciou pacotes de “revenge travel” com 20% de desconto para compras antecipadas de estadias, além de diversas vantagens, como, por exemplo, “kids camp” diário para crianças, refeições grátis para menores de cinco anos e acesso gratuito ao spa e ao parque aquático de dois hectares exclusivo do hotel (além de infra-estrutura específica para home office e home schooling). 

Outro hotel da mesma rede, o Four Seasons Resort and Residences Anguilla, na ilha homônima no Caribe, está promovendo “revenge travels” de pelo menos um mês inteiro em acomodações de três quartos, piscina privativa, assistente pessoal, duas sessões semanais com personal trainer, planejamento customizado de refeições e atividades de bem-estar, e apoio de TI para fazer home office e ensino à distância sem perrengues. Como a campanha é focada nos EUA, o pacote inclui até os voos privativos ida e volta em jatinho entre San Juan e Anguilla…

Com a necessidade de continuarmos a manter distanciamento social mesmo após a vacinação (afinal, a gente sabe que a pandemia não acabará como mágica de uma hora para outra), muitas agências de viagens estrangeiras dizem que as campanhas de “revenge travel” já estão fazendo sucesso sobretudo para propriedades com acomodações tipo villas,  ilhas, destinos remotos, ou mesmo veleiros e barcos privados. E grandes agências brasileiras já começam a ver movimento semelhante por aqui também. 

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Four Seasons Anguilla

Crédito: Four Seasons Anguilla

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“Poupança” de viagem

Pesquisas realizadas no final do segundo semestre de 2020, tanto no Brasil quanto no exterior, mostraram o aumento do gasto médio por dia de viagem para boa parte dos turistas. Não que os produtos de viagem já estejam mais caros neste momento; pelo contrário. Há expectativa de aumento de preços no pós-pandemia, mas, por enquanto, muitos hotéis e companhias aéreas têm feito promoções constantemente. E há políticas de cancelamento cada vez mais flexíveis em geral.  Seja para “caprichar” na escapada depois de tanto tempo em casa ou para garantir um certo padrão de segurança sanitária, é fato que muitos viajantes elevaram o seu padrão de gastos nas viagens da pandemia.

Vale lembrar que no Brasil, além da crise financeira que vivemos, a imensa desvalorização da nossa moeda frente ao dólar e ao euro nos últimos tempos é empecilho bastante considerável. Por outro lado, muita gente que estava de fato acostumada a destinar parte significativa de seus salários para viajar frequentemente (e comer fora regularmente) tem aproveitado esse “intervalo” obrigatório gerado pela pandemia também como certa forma de “economizar” para viagens futuras.

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Muitos hoteleiros americanos estão observando atentamente os gastos do consumidor chinês desde que o turismo começou a ser retomado por lá para se preparar para as mudanças do mercado. Em maio de 2020 um relatório da McKinsey & Company já constatava aumento de 60% nas viagens domésticas na China, geralmente para destinos razoavelmente próximos de casa, com deslocamentos de carro – comportamento que depois se repetiu em boa parte do planeta, inclusive por aqui.

Embora o termo “revenge travel” esteja ainda muito timidamente sendo usado por agentes de viagem e hoteleiros por aqui, muitos acreditam que vai acabar “pegando” de maneira mais generalizada em breve, assim como aconteceu com o termo turismo de isolamento. Provavelmente traduzido, é claro. E que, ao menos para o mercado de turismo de luxo, o orçamento de viagem que não foi gasto durante a pandemia deve ser de fato investido em viagens mais “polpudas” a partir do segundo semestre deste ano. Mas o comportamento pode se estender, guardadas as proporções, também para nichos mais econômicos do turismo. 

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Por aqui, a minha lista de destinos para minhas “revenge travels” – quando pudermos realmente transitar livremente e em segurança por toda parte – só aumenta. Aumenta tanto que já estou quase me juntando a um dos grupos de amigos que estão planejando uma bela volta ao mundo quando tudo isso passar. Sonhar não custa nada. E não seria mesmo nada mal “se vingar” da pandemia fazendo uma viagem dessas, não é?

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