Nossas viagens pós-coronavírus

Nossas viagens pós-coronavírus

Mari Campos

19 de abril de 2020 | 21h14

Uma coisa que ficou bem clara neste 2020 é que algo que acontece do outro lado do mundo pode, sim, afetar a todos nós. A pandemia da Covid-19 está mudando muita coisa no planeta, muito rapidamente – e consequentemente no mercado de turismo. E muitas novas ações deste mercado podem ficar em definitivo. Afinal, frente a um cenário mundial nunca visto antes na nossa história, nada mais natural que o modo como viajamos daqui pra frente seja também alterado.

Conversei com diversos hoteleiros brasileiros e vi que parte das mudanças na hotelaria que já estão em curso nas grandes redes em boa parte do mundo, de novos padrões de higiene a novos mecanismos de refeições e serviços em geral (serviços buffet, por exemplo, podem estar com seus dias realmente contados), finalmente começam a tomar forma aqui também. Dá para ler em detalhes sobre estas mudanças que já estão rolando na hotelaria nacional e internacional neste texto aqui.

Conversei também longamente sobre isso com Erik Sadao, um dos cérebros mais brilhantes da indústria turística do Brasil. Sadao tem mais de 20 anos de experiência no setor, dos quais onze à frente da diretoria da Teresa Perez, a maior operadora de viagens de luxo do Brasil. Hoje, Sadao mora em Amsterdã e lançou a Sapiens Travel. E são os insights dele sobre o que deve mudar no nosso jeito de viajar daqui pra frente que eu quero dividir com vocês na coluna de hoje.

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Erik Sadao, da Sapiens Travel (acervo pessoal)

“O viajante estará com o olhar atento à interconectividade do planeta. Como a solidariedade tende a sair fortalecida desta crise, a noção de que o turismo é capaz de construir ou de destruir uma comunidade estará mais viva – assim como o papel do visitante, que pode contribuir para a melhoria da situação por onde passar’, dispara Sadao. Afinal, nunca foi tão óbvia a relação de causa e efeito dos movimentos do turismo como na pandemia, certo? “O bem estar social e a transparência em relação ao processo de produção (e aos envolvidos no serviço) podem se tornar importantes fatores na hora da escolha de hotéis e de serviços de turismo em geral”, completa.

Do ponto de vista prático, muita coisa já começa a mudar. Algumas companhias aéreas já deixaram de vender os assentos do meio para garantir mais distanciamento social, outras implementaram o fogging (um processo de limpeza profundo) em todos os seus voos e semana passada a Emirates se tornou a primeira companhia aérea do mundo a aplicar testes de Covid19 em passageiros na sala de embarque, antes de voar. “Se não houver uma padronização nas medidas que garantam a segurança contra o vírus a bordo, é certo que os procedimentos adotados por cada companhia serão ainda mais decisivos para a escolha do que fatores como milhas acumuladas em programas de milhagem. Além da máscara a bordo, que deve se tornar tão necessária quanto o cinto de segurança, essas medidas apontam somente a ponta do iceberg”, diz Sadao.

Afinal, enquanto não houver uma vacina, devemos provavelmente adotar máscaras como parte da vida cotidiana em breve (algumas cidades brasileiras já adotaram a regra a partir desta semana, com multas para quem descumprir a norma, e diversos países europeus já sinalizaram que pretendem manter a obrigatoriedade do uso de máscaras nas ruas após a suspensão da quarentena). “Além disso, talvez tenhamos que reservar museus e atrações turísticas com horário marcado para garantir o fluxo apropriado de pessoas, e também presenciar a adequação dos espaços e áreas comuns em hotéis, como restaurantes e bares”, completa.

Acredita-se que, num primeiro momento, quando for possível viajar em segurança novamente, os destinos nacionais estejam em alta – até porque não se sabe quando fronteiras internacionais serão reabertas e nem em que termos o serão. É bem provável também que o primeiro impulso, após tanto tempo dentro de casa, seja buscar destinos e experiências de integração com a natureza, incluindo caminhadas, aventura e praias (eu mesma já estou doida por um banho de mar!). O setor de wellness, em tempos em que tudo que mais queremos é ter saúde, deve ficar ficar mais em alta do que nunca – e a maioria dos hotéis e propriedades da indústria da hospitalidade provavelmente intensificarão seus esforços nesta área também.

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Foto: Mari Campos

Mas é preciso lembrar que podemos ter ainda um outro agravante quando as fronteiras internacionais reabrirem: o Brasil tem sido visto negativamente no exterior pela maneira como está conduzindo sua reação diante da pandemia. E isso, pode, é claro, interferir no turismo de brasileiros no exterior e impactar também no turismo de estrangeiros por aqui. “Ficou claro que a definição do tabuleiro geopolítico, com a abertura das fronteiras, assim como após conflitos mundiais como as últimas guerras, aguarda os resultados de como cada nação respondeu a crise para ser definido. É muito possível que países que tardem a controlar a pandemia, ou que adotem uma postura ‘negacionista’ em relação às recomendações mundiais da ciência e dos protocolos estabelecidos pela OMS, não sejam bem-vindos ao ‘clube’ dos primeiros países que emergirão. E isso, é claro, impactará a reconstrução do turismo”, alerta Sadao. “O Brasil, no momento, tem despertado preocupação internacional já que adota posturas opostas a praticamente todo o mundo desde que os EUA passaram a cumprir e recomendar as orientações da OMS e da comunidade internacional”, completa.

Os países da União Europeia já anunciaram que, ao reabrirem suas fronteiras no futuro, devem criar mecanismos para restringir a entrada de visitantes em seu espaço, seja exigindo dos mesmos vacinas ou outros comprovantes similares – e muitos podem rever inclusive a concessão e necessidade de vistos para diferentes nacionalidades. Ultimamente, tem se falado muito na Europa sobre o tal “passaporte biológico”, que garantiria em tese que um viajante é saudável . “É muito provável que países como o Brasil, se não tiverem a situação controlada e dentro dos protocolos internacionais, sofram restrições em lugares que tiverem a situação normalizada”, concorda Sadao.

Mas, é claro, tenho esperanças de que na retomada do turismo – seja nacional ou internacional – a gente consiga tirar algo positivo de tudo que estamos enfrentando.  Acho que finalmente algumas pessoas estão entendendo como nossas escolhas e ações em viagens têm sempre consequências econômicas e sociais pelos destinos pelos quais passamos. Assim, também acredito que a sustentabilidade do turismo como um todo deva ganhar mais força no futuro próximo.  Sadao concorda: “a consciência ambiental e social e o impacto que o consumo da viagem têm sobre o desenvolvimento e a diminuição da desigualdade são possíveis ‘legados’ desta fase”. Por aqui estou cruzando todos os dedos!

 

 

P.s.: Enquanto isso, confira aqui como deixar a nossa casa com jeitinho de hotel nesta quarentena. Para saber mais sobre as mudanças que já começam a ser desenhadas para a indústria da hospitalidade, leia este texto aqui. E para saber mais sobre  o que deve mudar nas nossas viagens daqui pra frente, clique aqui.

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