O futuro do turismo de luxo no Brasil

O futuro do turismo de luxo no Brasil

Mari Campos

02 de novembro de 2020 | 14h21

O turismo mudou definitivamente no mundo todo neste 2020. Estimativas da McKinsey&Company calculam que a recuperação do setor vá ser bastante lenta e só volte aos níveis de 2019 a partir de 2024.  Para dar uma ideia do que a indústria turística representava na economia mundial, no ano passado a receita global do setor chegou a US$ 5,9 trilhões – com curva ascendente no nicho de luxo, que movimentou sozinho US$ 831 bilhões em 2019.

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Com tudo parado por meses no primeiro semestre de 2020 e a lenta retomada em muitos destinos neste final de ano, já ficou claro que as empresas que se adaptarem mais rapidamente ao novo jeito de viajar e às novas preferências do turista em geral são as que se recuperarão de maneira mais consistente. Neste texto aqui, da para ver como alguns hotéis foram criativos e pró-ativos na crise sem precedentes deste ano e desenvolveram novos produtos e novos serviços (e até novos empregos!) neste segundo semestre.

Anavilhanas Jungle Lodge. Foto: Mari Campos

No caso do turismo de luxo no Brasil, há um agravante importante: grande parte deste nicho sempre foi focado no turista estrangeiro que, mesmo com todas as nossas fronteiras abertas absolutamente sem restrições ou exigências, e nosso Real cada vez mais desvalorizado frente a outras moedas, ainda demorará muito para voltar. Em grande parte por conta da imagem negativa que o país ganhou lá fora pela forma como enfrentou a pandemia, além de outras mazelas, como violência urbana e crise política generalizada. “Não contem com o visitante estrangeiro”, disse claramente Eduardo Sanovicz, ex-presidente da Embratur, no primeiro dia do BLTA Forum 2020, um importante evento da indústria turística focado no mercado de luxo que acontece até 11 de novembro.

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A BLTA é uma associação de viagens de luxo no Brasil que reúne 46 membros, entre operadoras, hotéis e pousadas independentes. No ano passado, seus associados espalhados por 34 destinos brasileiros movimentaram US$ 1,2 bilhão em hospedagem. Após meses de propriedades fechadas pela pandemia, o mercado doméstico passou enfim a focar no turista brasileiro neste processo de retomada – e os hotéis associados à BLTA já alcançaram a ocupação média de 55% nestes últimos meses, um nível comparativamente superior ao mesmo período de 2019.

O BLTA Forum tem debatido com especialistas e membros do chamado trade turístico os caminhos do turismo de luxo no Brasil, incluindo treinamentos, debates e mesas de discussão. Estou participando ativamente do evento, e algumas importantes tendências do turismo de luxo já foram apontadas. Dentre elas, a valorização das experiências com a comunidade local (e das chamadas “viagens com propósito”), a busca cada vez maior por hospedagens realmente sustentáveis (que cuidem do meio ambiente, do destino e das suas comunidades, como venho insistindo há muito tempo também aqui), a humanização dos serviços (com anfitrião e hóspede cada vez mais conectados, uma grande vantagem das pequenas propriedades), a valorização da autenticidade na hospedagem (busca por conforto com cada vez menos ostentação e bling-bling) e um foco crescente no bem-estar e na saúde nas decisões de viagem.

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Campos do Jordão. Foto: Mari Campos

Apesar do desaparecimento do turista estrangeiro (que não deve voltar tão cedo), o mercado do turismo de luxo brasileiro encontra sua grande chance com a sede de “redescoberta do Brasil” de muitos viajantes. Muitos de nós estamos fazendo agora nossas primeiras viagens da pandemia e preferindo viajar de carro, para destinos próximos de casa, em hospedagens muito cuidadosamente selecionadas. Eu mesma acabei de fazer minha primeira escapada desde o comecinho de março, em uma road trip envolvendo dois destinos da Serra da Mantiqueira, bem nessa tendência (inclusive escolhendo com muito cuidado e pesquisa minhas hospedagens).  E seguramente minhas próximas viagens na pandemia também serão pelo Brasil.

O turismo de luxo nacional pode se beneficiar – e muito! – das reservas poupadas pelos cerca de três milhões de brasileiros que, impedidos de viajar a outros países como estavam acostumados, já estão viajando mais – e gastando mais – no Brasil. Inclusive na Amazônia, em lodges antes tão acostumados ao turista estrangeiro e que estão, enfim, focando pela primeira vez na vida no potencial do turista doméstico.

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Ainda assim, mesmo que promissor, vale lembrar que o turismo de lazer (que é o que está garantindo a sobrevivência de hotéis e pousadas neste segundo semestre) não substitui de maneira nenhuma os gastos que costumavam vir do turismo corporativo – um nicho que será provavelmente o último a se reerguer nessa indústria. Por isso mesmo, muitos hotéis já começam a focar mais nos brasileiros em home office, que podem viajar em qualquer período e, muitas vezes, levar consigo a família toda, incluindo as crianças que estão em homeschooling.

Como eu já contei aqui, tem cada vez mais gente transformando o home office em road office. São as chamadas “viagens sem rótulo”, nas quais a família inteira viaja junta para um determinado hotel ou destino, mas com propósitos bem diferentes para cada indivíduo. São viagens que devem ser cada vez mais importantes neste período de sobrevivência da hotelaria, tanto que muitos resorts de categoria turística já começam discretamente a se beneficiar desta tendência também. Como a dra. Mariana Aldrigui, da FecomercioSP, defendeu no evento, o setor de viagens de luxo pode, sim, ajudar o setor turístico em geral a se reinventar daqui pra frente. Eu também acredito muito nisso.

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P.s.: o BLTA Forum continua até dia 11/11 e deve trazer ainda mais novidades importantes.

 

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