O que é turismo regenerativo?

O que é turismo regenerativo?

Mari Campos

11 de março de 2021 | 13h09

Dentre os muitos termos do turismo que se popularizaram ao longo deste um ano de pandemia – turismo de isolamento, extended stays, buyout, staycation, workcation, revenge travel – , finalmente um dos termos mais importantes ligados à sustentabilidade no turismo começa muito timidamente a ganhar força por aqui: turismo regenerativo. Mas o que é turismo regenerativo, afinal?

LEIA MAIS sobre termos do turismo popularizados durante a pandemia 

Já falei brevemente sobre isso em uma das primeiras colunas deste ano, justamente sobre como podemos tornar nossas viagens mais sustentáveis (de verdade) de 2021 em diante.  O conceito de turismo regenerativo não é exatamente novo. O regenerative travel (ou regenerative tourism) na gringa teve sua raiz nas discussões e projetos em desenvolvimento regenerativo, economia circular, edifícios sustentáveis etc.

Mas, também lá fora, nos últimos dois anos ele ganhou corpo nas discussões turísticas, abocanhou o turismo de conservação, se popularizou durante pandemia (ganhando as páginas inclusive de grandes veículos como New York Times) e é hoje uma das principais bandeiras de quem luta por uma indústria turística realmente sustentável (ou, ao menos, o mais sustentável possível). Então está mais do que na hora de começarmos a discuti-lo seriamente aqui no Brasil também.

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Crédito: Mari Campos

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O que é turismo regenerativo?

Vivemos hoje, provavelmente, o período mais duro da pandemia no Brasil (e olha que não foi por falta de aviso da ciência, não é mesmo?). Não é momento de viajar, mas é sempre momento de repensarmos nosso modo de viajar e nossos planos e sonhos para viagens futuras.

O turismo regenerativo prevê todas as boas práticas de sustentabilidade no turismo, com amplo envolvimento social, econômico e cultural, visando impactos positivos diversos. De maneira bem simples e resumida, é sermos capazes de, através de nossa própria atividade turística, promover melhorias em uma área, local ou destino. E isso se refere a todos os players do turismo, do viajante ao empreendedor.

O conceito de turismo regenerativo não é substituto de turismo sustentável e sim parte do próprio conceito de sustentabilidade e responsabilidade no turismo. Nesse sentido, concordo demais com alguns ambientalistas que condenam o aposto “além do sustentável” para falar de turismo regenerativo. É senso comum associar a expressão “turismo sustentável” a medidas de eficiência, como economia energética, reciclagem, reuso de água etc. Mas vale lembrar que todos esses efeitos e ações – ambientais, sociais, econômicos – estão enormemente interligados e não são de nenhuma forma excludentes. É tudo parte do mesmo “guarda-chuva”.

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Empresas como a Porini Camps, que trabalham pela preservação do meio ambiente e bem-estar das comunidades locais, merecem nossa atenção na hora de planejar a viagem. Foto: Mari Campos

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Bons exemplos de turismo regenerativo

Muitos hotéis têm praticado o turismo regenerativo há anos, se não décadas, mesmo que não usássemos esse termo ainda. Já trouxe aqui para a coluna diferentes exemplos de hotéis e empreendimentos que realmente levam isso a sério, que utilizam a atividade turística para promover melhorias ambientais, sociais e econômicas em destinos e comunidades locais.

Caso, por exemplo, do irretocável The Brando, na Polinésia Francesa, que continuamente inspira tecnologias e processos regenerativos em diversas outras propriedades hoteleiras mundo afora. Ou dos hotéis explora, presentes em diferentes destinos do Chile (e que agora chegou também a El Chaltén, na Argentina).

Há grandes exemplos na África nesse sentido, como os sempre excelentes Great Plains Conservation e Porini Camps. Duas empresas com lodges em diferentes destinos africanos que, através de suas propriedades, projetos e ações sociais, promoveram melhorias realmente louváveis nos destinos em que atuam – de recuperação ambiental e de vida selvagem à infraestrutura e economia das comunidades que empregam e auxiliam. Têm feito um trabalho primoroso inclusive durante toda a crise gerada pela pandemia.

CONHEÇA MAIS sobre a Great Plains Conservations aqui.

CONHEÇA MAIS sobre a Porini Camps aqui.

Tem até marca nova na hotelaria internacional focada em turismo regenerativo. No final do ano passado, a Preferred Hotels & Resorts lançou a marca Beyond Green, que promete manter em seu portfólio apenas hotéis, resorts e lodges que contribuam ativamente para o bem-estar social e econômico de comunidades locais, que colaborem com a preservação do patrimônio natural e cultural, e que respeitem os ODSs (Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável) das Nações Unidas.

VEJA TAMBÉM outros exemplos de sustentabilidade no turismo.

Das práticas de turismo regenerativo no Brasil, gosto muito do exemplo do Anavilhanas Lodge, sobre o qual também já falei aqui. Um lodge exemplar, que também é craque, desde sua construção, em usar sua própria atividade turística para promover melhorias ambientais, sociais e econômicas na região amazônica e em suas comunidades locais. Em um trabalho significativo e constante, inclusive nos duros tempos da pandemia, com respostas rápidas e certeiras.

Outro proposta interessante de turismo regenerativo no Brasil é a Comuna do Ibitipoca, um incrível projeto experimental, sócio-ambiental e turístico em Minas Gerais que hoje abrange mais de 5,000 hectares de uma área que  já foi anteriormente degradada (com 99% em processo de recuperação da flora e fauna nativas da Mata Atlântica).

VEJA TAMBÉM: Os desafios da hotelaria amazônica durante a pandemia

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É hora de praticar o turismo regenerativo

turismo regenerativo não trata simplesmente de medidas gerais de preservação e conservação ambiental e cultural, mas também de promover inclusão social e econômica, educação, saúde.  Promover responsabilidade de fato em toda a cadeia turística. Como turistas, não podemos jamais colocar destinos ou comunidades em risco. Empreendedores do turismo também não.

Nesta semana, muitos de vocês estão provavelmente acompanhando vários moradores e negócios turísticos de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, contrariarem o recuo da prefeitura local e decretarem lockdown voluntário de todas as suas atividades como forma de protegerem sua própria comunidade dos avanços da Covid-19 na região (potencializados pelo fluxo grande e constante de turistas nos últimos meses). Você pode ler mais detalhes sobre esse caso inspirador em minha matéria para o UOL desta semana.

LEIA MAIS sobre o lockdown voluntário para o turismo na Chapada dos Veadeiros.

A pandemia e o gap criado por ela em nossas viagens nos deu a chance de refletir sobre como e por que viajamos. E nos dá a chance de mudar, de viajarmos de maneira definitivamente melhor – e mais responsável – daqui pra frente. A própria indústria do turismo internacional vem discutindo com seriedade a possibilidade de promover novas e inéditas alianças para promover uma retomada das viagens pós-pandemia mais inteligente, consciente, responsável e sustentável.  Agentes e consultores de viagem, como abordei na última coluna, podem ser incríveis curadores nesse sentido.

LEIA TAMBÉM: A curadoria fundamental dos agentes de viagem na pandemia.

Diversos destinos internacionais estão não apenas incluindo o conceito de turismo regenerativo em seus planos de recuperação econômica local e nacional como também cogitando rever a própria estrutura da sua indústria turística em geral.

turismo regenerativo nos permite escolher e priorizar nas nossas viagens daqui pra frente os destinos, hotéis e prestadores de serviços turísticos que realmente se dediquem a gerar impactos sociais, econômicos e ambientais positivos. É preciso que nós, viajantes, assumamos a RESPONSABILIDADE de cada uma das nossas escolhas e decisões de viagem no pós-pandemia. Eu estou disposta; e você?

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