Romance no Ponta dos Ganchos

Romance no Ponta dos Ganchos

Mari Campos

29 Agosto 2018 | 20h56

Um dos cantinhos pensados para que o casal tenha a impressão de que tem só ele ali. Foto: Mari Campos

Era um sábado ensolarado de inverno brasileiro, daquele tipo que dá pra gente ficar de vestido e bermuda tranquilamente sob o sol. O almoço, regado a frutos do mar fresquíssimos, me foi servido em uma mesinha cenograficamente instalada num bico do morro, com a praia, o mar e  ilhotas emoldurando o cenário lá embaixo e muita vegetação nativa me dando a impressão de que a minha mesa era a única por ali. Como se aquele bico do continente fosse só meu pelo dia.

Mês passado, escrevi na minha coluna Hotel Inspectors no Panrotas sobre hotéis que são o próprio destino. Hotéis que meio que se bastam por si mesmos e que talvez até pudessem estar em outro canto que seus hóspedes não se importariam. Aquele tipo de hotel para o qual o viajante ruma simplesmente para ficar ali mesmo, pelo hotel em si, sem se importar de fato com o lugar em que o hotel em questão está localizado.

Passei o último final de semana de agosto neste paraíso chamado Ponta dos Ganchos, em Governador Celso Ramos, Santa Catarina (50km do aeroporto de Florianópolis). O Ponta é provavelmente o melhor exemplo brasileiro deste tipo de hotel: quem vai pra lá vai pelo hotel e não pelo destino; e, estatisticamente comprovado pelos próprios funcionários, a maioria dos hóspedes sequer deixa a propriedade durante sua estadia.


Considerado o hotel mais romântico do Brasil e premiado algumas vezes por publicações internacionais como um dos 15 mais românticos do mundo, o Ponta dos Ganchos é mesmo um hotel pensado por e para casais. Tudo ali é milimetricamente planejado – mas sem perder a naturalidade nem o jeito extremamente relax que tem – para que cada casal pense por vários momentos que está mesmo sozinho naquele pedaço lindo do litoral brasileiro. Não há frescuras (nem durante as refeições) e cada casal é estimulado a ficar mesmo em seu mundinho, celebrando o amor, se assim quiser. O café-da-manhã, sempre incluído na diária e servido como menu degustação em diversos passos (com itens que mudam diariamente), não tem horário; pode ser literalmente servido a qualquer hora do dia, para que cada casal fique no seu ritmo e curta a propriedade do seu jeito. Quer perder a hora do domingo e tomar café às quatro da tarde? Sem problemas!

O deck do bangalô Esmeralda. Foto: Mari Campos

O hotel, todo composto por bangalôs, fica encravado no litoral montanhoso da Costa Esmeralda, com direito a areais branquinhas, vegetação densa e o dolce far niente que propõe à beira-mar.  São apenas 25 bangalôs que contam cada um com extrema privacidade (garantida inclusive pelo uso inteligente da vegetação nativa), com direito a chancela do luxuoso portfólio da The Leading Hotels of the World. E os bangalôs são mesmo pensados para que o casal passe muito tempo dentro deles.

De cor ocre – a maioria deles com adoráveis piscinas privativas aquecidas – , os bangalôs ficam “secretamente” espalhados aqui e ali pelos morros, em meio a oito hectares repletos de eucaliptos, bambus e palmeiras, de modo que um deles jamais atrapalhe a privacidade do vizinho. O meu bangalô, do tipo Esmeralda (são seis categorias diferentes no hotel), tinha amplo living room, quarto grande e um banheiro imenso, com direito a pia e chuveiro duplos e uma belíssima hidro com vista para o mar. Sauna e piscina privativas e um belo deck perfeitinho para acompanhar o por do sol todos os finais de tarde. Fui algumas vezes à praia e a outros cantos do hotel, é claro, mas a verdade é que só contemplar a vista arrebatadora da costa de dentro da piscina aquecida já estaria de bom tamanho.

Focado também em sustentabilidade, aboliu garrafas e utensilios plásticos, tem horta 100% orgânica para abastecer seu restaurante, prioriza fornecedores locais e regionais, trabalha ao longo do ano com reflorestamento e remanejamento da flora local, usa carrinhos elétricos de golfe dentro da propriedade, faz compostagem de todo o lixo orgânico (e reutiliza como adubo) e instalou placas de energia solar em todos os bangalôs.

A “ilha do sim” vista de um dos bangalôs. Foto: Mari Campos

Sua prainha em formato de gancho (é justamente daí que vem o nome do hotel) tem água gelada, daquele tipo impossível de entrar fora do verão – mas tem infra de mini beach club para quem quer caminhar  à beira d’agua, praticar esportes náuticos ou simplesmente passar a manhã descansando ou lendo na areia. Há duas trilhas curtinhas por entre a mata, fitness center, piscina aquecida e um pequeno spa com três tendas com vista para o mar.  Almoço e jantar (espere aí preços dos pratos compatíveis com restaurantes estrelados de São Paulo e Rio) são servidos ou no restaurante em si ou em charmosas mesas instaladas ao ar livre. Pratos caprichados, saborosos e com ótima apresentação, com destaque para os frutos do mar fresquíssimos (a salada de polvo é, na minha opinião, imperdível). E o restaurante ainda é famoso por suas cachaças e pelos drinks à base delas, como o Hot Passion, que combina cachaça envelhecida com maracujá e pimenta.

O hotel tem ainda a “ilha do sim”, uma ilhota ligada à sua prainha particular por uma passarela de madeira. Durante o dia, ela é aberta para uso de todos os hóspedes, como uma das muitas opções de “cantos de sossego” do resort. À noite, mediante custo extra, pode ser convertida em cenário de um jantar de seis passos para um único casal (ganhou o nome de “ilha do sim” pela enorme quantidade de pedidos de casamento que aconteceram ali).

Os cantinhos são todos românticos, os bangalôs são perfeitos, a gastronomia é de primeira. Mas, no fundo, acho que o que faz o Ponta dos Ganchos ser tudo isso que ele é (e o que ele cobra, porque sabemos que ele cobra BEM, sendo um dos mais caros hotéis do país), é seu altíssimo padrão de serviços. Funcionários extremamente bem treinados, delicados mas sem nenhuma afetação, daquele tipo que antecipa suas vontades mas te faz se sentir relaxado e em casa o tempo todo – e com um nível de inglês impressionantemente bom para lidar com os hóspedes gringos (o que, convenhamos, ainda é raridade em muitas propriedades de luxo do Brasil).

Se vale o quanto pesa? Vale. Tem mesmo um padrão de serviços com raríssimas similaridades no país – e consegue mesmo fazer cada casal se sentir meio que “em uma ilha deserta” por ali. Meu senão? Cobram R$6 reais por cada cápsula Nespresso no quarto – o que eu já considero inadmissível sob qualquer circunstância, ainda mais mediante as diárias polpudas do resort (leia mais sobre minha cruzada contra a cobrança de café no quarto no Brasil aqui).