Safáris com propósito

Safáris com propósito

Mari Campos

26 de dezembro de 2018 | 07h47

Elefantes a perder de vista nos safáris na Botsuana e no Zimbábue. Foto: Mari Campos

Safáris estão entre minhas experiências de viagem preferidas da vida toda. E o continente africano, por essas e muitas outras, também há muito tempo se converteu no meu continente preferido para viajar – é geralmente por ali que tenho as viagens mais arrebatadoras, as experiências mais peculiares e o contato próximo com as pessoas mais interessantes (dá pra ler sobre todas elas lá no meu MariCampos.com).

Pois no finalzinho de novembro passado,  a convite da South African Airways (com ótimas e rápidas conexões em Joanesburgo tanto para Botsuana quanto para Zimbabue) e da Great Plains Conservation, rumei para dez intensos dias de safáris, com foco na vida selvagem, sustentabilidade e conservação. E com um adendo importante: ficando em “camps” (com tendas convertidas em quartos) ao invés dos clássicos lodges.

A África, provavelmente mais que qualquer outra região do planeta, vem abraçando a ideia do turismo sustentável há mais de uma década. A Great Plains Conservation é uma empresa familiar (o casal Beverly e Derek Joubert, famosos por seus livros, fotos e documentários da NatGeo) com foco em vida selvagem, sustentabilidade, conservação e apoio às comunidades locais que rodeiam suas propriedades, todas em sistema “camp”.

Assim, seus safáris têm muito mais propósito (são, inclusive, fundadores da ONG de proteção dos rinocerontes Rhinos without Borders) e as experiências de safári que tive ali foram absolutamente significativas e intensas, bem na linha do “transformative travel” de que o mercado de luxo vem falando tanto ultimamente. “Nosso modelo consiste em adotar meio ambientes ameaçados, rodea-los de proteção inteligente e gerência sustentável, e desenvolver ali um turismo sensível, com baixo volume e baixo impacto”, defende o casal Joubert, que garante que as comunidades locais de todos os seus lodges africanos são parte intrínseca de cada um deles, beneficiando-se diretamente deles. “Nossos hóspedes, ao pagarem para se hospedar em nossos camps, se convertem em parceiros nesta empreitada e, portanto, em agentes positivos de mudança também”, completam os Joubert.

Detalhe do adorável camp “budget” Selinda Explorers, na Botsuana. Foto: Mari Campos

Durante meus dez dias de viagem, me hospedei em quatro camps na Botsuana e um novinho em folha no Zimbabue. Os camps, dos econômicos aos de luxo (sim, há opções para diferentes tipos de turista, em diferentes regiões e países), são todos com confortáveis tendas convertidas em quarto, com direito a cama grande e macia, bons lençóis e toalhas, banheiro completo, game drives completíssimos, walking safaris e alimentação saudável incluídos (além de mimos charmosos em vários deles, como café da manhã completo servido literalmente no meio da savana em um dia) . Pelo fato de serem tendas ao invés de quartos propriamente, a gente tem muito mais contato com “o lado de fora”, dos sons constantes aos animais que podemos ver sem nem sair da cama. E os game drives que fiz em todas as propriedades da Great Plains foram os mais intensos e extensos que já fiz em qualquer experiência de safári anterior (chegamos a ficar 5h direto em um deles!).

As propriedades ficam em imensas concessões em diferentes áreas do país, como os impressionantes 77 mil acres no norte do Okavango Delta ocupados pelo irrepreensível camp de luxo Duba Plains, que leva até selo Relais&Chateaux. Nos cinco camps nos quais me hospedei ficou bem claro o tempo todo que ali não se trata de fazer “ecoturismo” mas, sim, usar o ecoturismo para financiar/sustentar/viabilizar programas de conservação, sem qualquer tipo de influência danosa para a terra, os animais ou as comunidades locais. Do adorável budget camp Selinda Explorers ao ultra luxuoso Zarafa Camp, todos se esmeram no conforto das instalações, na intensidade das experiências com vida selvagem, na calidez do serviço (sempre, com exceção dos cargos de gerência, com somente membros das comunidades locais de cada camp no staff) e na autosuficiência energética (o único dos camps que visitei que precisa tanto de refurbishment como de uma troca de gerência é o budget Duba Explorers).

Para ter uma ideia do papel que esses camps vêm desempenhando no país, o camp de luxo Zarafa – o mais luxuoso de todos que experimentei do grupo – foi o primeiro lodge totalmente mantido por energia solar na Botsuana. Hoje, o país todo vem se tornando um grande modelo internacional no setor, tendo tornado de fato ilegal construir e operar qualquer safári camp operado por gerador em seu território – sem falar no baita incentivo econômico de investir em energia solar na Botsuana, com o custo do watt tendo caído de 7 dólares para meros 70 cents em uma década.  O governo local incentiva, em geral, o turismo de baixo volume e alta renda no país para não apenas beneficiar as comunidades locais como medida básica também para impactar o mínimo possível a vida selvagem.

Remotos que só eles, todos os camps da Great Plains na Botsuana são acessíveis somente através de minúsculos aviões que pousam em rudimentares pistas no meio da savana. No cardápio do dia-a-dia, uma impressionante riqueza em vida selvagem, incluindo não apenas os Big Five em quase todos eles como o testemunho constante de embates, caças e acasalamentos em cada saída para game drives – e com guias excelentes! Aliás, curiosidade: como eles só utilizam staff local, transferiram as funções de tracker e ranger para os mesmos profissionais, chamados localmente apenas de “guides”.

Detalhe dos quartos do novo Mpala Jena, no Zimbabue. Foto: Mari Campos

A novidade do grupo fica por conta do adorável Mpala Jena, o primeiro camp de luxo da Great Plains Conservation no Zimbábue. Localizado às margens do mítico Rio Zambezi e a curta distância das Victoria Falls e do aeroporto homônimo, com capacidade máxima para apenas oito hóspedes divididos em exclusivíssimos quatro quartos-tenda. Em sistema tudo incluído (com até transfers, lavanderia e minibar nesse pacote), o novo camp ocupa uma concessão dentro do Zambezi National Park e oferece game drives privativos (com impressionante abundância de elefantes, búfalos e hipopótamos, e avistamentos constantes do raro impala albino), caminhadas guiadas, passeios de barco e diversas atividades sob medida sem custos extras, do passeio de meio período às Victoria Falls a happy hours à beira-rio.

Com excelente gerência – daquele tipo onipresente, que tudo vê e entende rapidinho a personalidade de cada hóspede – o novo camp já é considerado o mais ambientalmente inovador dentro parque, tendo utilizado somente madeira reciclada e canvas para a construção das luxuosas e enormes tendas (que incluem cada uma também uma piscina privativa com vista para o rio), e por ser auto-suficiente energeticamente, utilizando unicamente energia solar para se manter. Ah: e tem wifi de boa qualidade, ainda por cima.

Fiquem de olho. Ainda vou falar mais em detalhes sobre esses camps aqui.