Movimento do slow travel retorna ainda mais forte

Movimento do slow travel retorna ainda mais forte

Mari Campos

31 de agosto de 2021 | 15h38

Depois de ficarmos privados das viagens por tanto tempo, o começo da chamada “retomada do turismo”, nacional e internacionalmente, tem sido marcada pela sede intensa pelas novas experiências turísticas. Ao mesmo tempo, o que muitos hoteleiros e operadores têm testemunhado do ano passado pra cá tem sido a prática do slow travel retornar ainda mais forte do que antes – e com mais adeptos.

ACOMPANHE A @MARICAMPOS TAMBÉM NO INSTAGRAM

O movimento do “slow travel” vinha mesmo se tornando mais popular ao longo dos últimos anos. Mas, em tempos de Covid-19, muita gente se tornou adepta desse tipo de viagem “mais lenta” sem nem perceber. O slow tourism continuou aumentando sua popularidade em diferentes nichos do mercado turístico durante a pandemia – e agora estudos do setor estimam seu crescimento constante em índices de 10% ao ano.

.

.

Safári na África do Sul

Foto: Mari Campos

.

O que é slow travel?

A ideia das viagens super corridas, visitando o máximo possível de lugares de uma só vez, tem menos adeptos a cada ano. Muita gente ainda faz esse tipo de viagem, é claro. Mas, mesmo que muito mais lentamente do que gostaríamos, cada vez mais turistas estão percebendo como essa prática das viagens tudo-ao-mesmo-tempo-agora é também pouco sustentável.

Originalmente, o movimento do slow travel ou slow tourism remonta ao surgimento do Slow Food, criado por Carlo Petrini nos anos 80 em Roma – inicialmente para defender tradições gastronômicas locais e o prazer através da alimentação, e posteriormente tornando-se profundamente associado à sustentabilidade e à qualidade de vida. O que pode (e deve) se aplicar muito bem ao turismo também.

O chamado slow travel não apenas prioriza viagens por definição executadas de maneira menos corrida, independentemente de sua duração. O movimento enfatiza também a importância das conexões estabelecidas ao longo do passeio com moradores locais, atividades culturais, gastronomia.

Defende a ideia de que viagens são experiências não apenas de descanso e lazer, mas também educativas e com profundos impactos emocionais – mesmo que aparentemente imperceptíveis. Por isso mesmo, o modelo das slow travels é também mais sustentável e regenerativo.

LEIA TAMBÉM: O que é turismo regenerativo?

.

.

Amazônia

Foto: Mari Campos

.

Como viajar de maneira “mais lenta”?

O propósito principal do slow travel é fazer turismo com foco em experiências e não apenas meras visitas. E “experiências de viagem” podem significar coisas diferentes para viajantes diferentes, desde conectar-se com a comunidade local a consumir produtos locais – e sempre procurando decisões de viagem responsáveis e fazendo escolhas conscientes.

Não se trata necessariamente de fazer viagens mais longas e menos corridas, e sim de tentar se conectar ao máximo com o destino através de cada atividade realizada. Há inclusive agências de viagem que se especializaram no slow travel e propõem a seus clientes itinerários que migram do simples ato de visitar/ticar/dar “check” em lugares e atrações à busca por atividades realmente locais que dêem também uma outra finalidade além do lazer para essas experiências.

LEIA TAMBÉM: Aquecimento global ameaça também o turismo

.

.

Slow travel é também mais sustentável

O slow travel propõe, ao invés de uma agenda repleta apenas de pontos turísticos a visitar,  a prática de atividades que se relacionem de maneira mais profunda com o destino e moradores locais, para serem realizadas com calma,  “saboreando” verdadeiramente cada uma delas. E, de preferência, contribuindo de maneira direta com destino e moradores através da nossa visita.

Relaxar, reconectar, descobrir, aprender e se engajar de fato com o destino no final de tudo. É por isso que hoje o slow tourism está profundamente atrelado à ideia de sustentabilidade e práticas regenerativas – nas esferas ambiental, cultural, econômica e social.

Agências de viagem especializadas nesse tipo de turismo têm buscado propor inclusive menos deslocamentos de seus clientes durante a viagem (ou, ao menos, deslocamentos mais sustentáveis) para que os mesmos reduzam rastro de carbono e sejam mais conscientes ambientalmente.

LEIA TAMBÉM: Veneza quer ser mais sustentável

.

.

Ilha de Páscoa

Foto: Mari Campos.

.

Há reflexos do slow travel também na hotelaria

As limitações trazidas pela pandemia motivaram muita gente a não apenas buscar destinos e regiões menos visitados como também a deslocar-se menos e hospedar-se por mais tempo em um mesmo local.

Boa parte dos hoteleiros brasileiros tem celebrado publicamente que, do ano passado pra cá, estadias que antes giravam em uma média de 2-3 noites, hoje viram a taxa de permanência quase dobrar e ficam em 4-5 noites por quarto.

E, graças a isso, diversos hotéis e pousadas de variados tipos e nichos aprenderam a criar menus mais abrangentes de serviços e experiências (ainda que com mínimo contato) para seus hóspedes que “esticaram” a duração média das estadias (a flexibilidade de muita gente que está em “home office“/”hotel office” também tem ajudado sobremaneira nisso).

LEIA TAMBÉM: Como a pandemia fortaleceu o nomadismo digital

Muitos restaurantes finalmente incorporaram mais pratos regionais e produtos locais e sazonais em seus cardápios, ampliando não apenas a conexão do cliente com o destino como também o entendimento importante de que quanto mais natural nossa nutrição, melhor para nós e para o meio ambiente. E, do mesmo jeitinho, muito mais spas estão passando a oferecer terapias mais holísticas, rituais locais e ingredientes mais naturais e orgânicos aos clientes.

Acompanhamos também nesse período o crescimento significativo das opções de passeios mais imersivos e sustentáveis, mesmo que simples tours à pé ou em bicicletas, hoje fartos por toda parte. Na Europa, tem havido inclusive estímulo explícito a fazer mais viagens em trem ao invés de aviões, com direito a campanhas grandes de marketing que envolveram, pasmem, a adesão de até mesmo grandes companhias aéreas como a KLM.

LEIA TAMBÉM: Sete hotéis e pousadas sustentáveis no Brasil

.

.

Maneira mais cautelosa de viajar também

O crescimento do slow travel tem sido tão significativo nos últimos 18 meses que impulsionou também a disseminação das “off-grid travels“, que defendem os principais conceitos do slow travel agregados a viagens mais “desconectadas” do cotidiano (literalmente), incluindo experiências “full detox”.

Ainda não me animo para as experiências de detox total, confesso; a pandemia me fez querer ainda mais ter a possibilidade de me comunicar a qualquer momento com as pessoas que amo, saber que estão bem, poder tomar decisões rapidamente.

Mas eu, que já era praticante do slow travel há muito, muito tempo nas minhas viagens pessoais, fiquei ainda mais fã – e sonho em um dia levar isso para as viagens a trabalho também, quando voltar a fazê-las. Acho que é uma maneira mais proveitosa, mais cautelosa e também mais segura para retomarmos o turismo enquanto ainda tateamos esse novo mundo no qual passamos a viver.

ACOMPANHE A @MARICAMPOS TAMBÉM NO INSTAGRAM!

.

.

.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.