Turismo de conservação no Quênia

Turismo de conservação no Quênia

Mari Campos

10 de dezembro de 2019 | 09h37

Passei as últimas semanas em uma longa viagem entre safáris e vida selvagem na África Oriental (a convite da Sariri Terra e da South African Airways) organizada pela empresa africana Gamewatchers Safari, especializada em roteiros por países como Quênia, Tanzânia, Uganda e Ruanda. A maior parte deste período passei viajando por distintas regiões do Quênia, e me hospedando somente em safari camps 100% sustentáveis e focados em conservação de culturas e vida selvagem (ainda dá para ver detalhes da minha viagem toda nos destaques dos Stories do meu instagram @maricampos). 

Sou apaixonada por safáris africanos e quase todo ano retorno ao continente para explorar novos locais. Que bela surpresa foi me deparar este ano com tantas opções de estadia no Quênia totalmente comprometidas com sustentabilidade e conservação – e com diferentes budgets, facilmente adaptáveis a diferentes perfis de viajantes. O luxo desta vez foi estar 100% imersa em vida selvagem (nenhuma das propriedades tinha cercas ou qualquer tipo de barreira para os parques nacionais adjacentes) com bastante conforto.

Foto: Mari Campos

Fiquei hospedada na maioria dos meus dias no país em safari camps da Porini Camps, que são camps mais econômicos mas inteiramente voltados à conservação e preservação cultural e ambiental das reservas nas quais se encontram: Porini Rhino Camp, ao norte, na Ol Pejeta Conservancy; Porini Amboseli Camp, adjacente ao Parque Nacional Amboseli; e Porini Mara Camp, adjacente a Reserva Nacional Maasai Mara, o destino turístico mais procurado no Quênia. Os Porini Camps levaram mais uma vez neste 2019 o World Tourism Awards de turismo sustentável na África. A ideia comum em todos eles é preservar a vida selvagem única de cada região queniana, em um ecoturismo verdadeiramente sustentável que beneficie turistas, comunidades locais e meio ambiente, tudo ao mesmo tempo.

Os camps estão instalados em áreas de conservação gerenciadas em parceria com as comunidades maasai que são donas das terras, tendo como regra ter um máximo de apenas 12 tendas (alguns camps têm menos ainda), sendo no máximo uma tenda para cada 700 acres de terra. Em todos eles, os funcionários são homens maasai das comunidades locais nos quais os camps estão inseridos, as refeições são preparadas pelo chef de cada camp com ingredientes locais e sazonais, a energia é 100% solar, as tendas são espaçosas e confortáveis e todos os game drives são liderados por guias maasai experientes, com inglês fluente e conhecimento extremo da região. Mais ainda: por estarem instalados em áreas de conservação fora dos parques nacionais mas sem cerca nenhuma, os game drives são feitos sem quase nenhum outro carro de turistas à vista e com uma fartura impressionante de animais.

Foto: Mari Campos

No norte, em Ol Pejeta, leões, búfalos e hienas passaram a noite praticamente entre as tendas do camp – mas tudo com a maior segurança para os hóspedes, é claro.  As grandes vedetes da região são os dois últimos Northern White Rhinos (rinocerontes brancos do norte) existentes no mundo, duas fêmeas, mantidas em uma área enorme em um centro de conservação. Lembram do rinoceronte Sudan, que chegou até a ter perfil no Tinder e faleceu no ano passado? Cientistas e biólogos estão tentando fecundar o material colhido do Sudan com óvulos das fêmeas e implantar em uma fêmea Southern White Rhino no melhor esquema barriga de aluguel. O centro está aberto para visitas turísticas e aceita 24 pessoas por dia para chegarem bem pertinho dos dois últimos Northern White Rhino do mundo em excitantes safáris.

Ao sul, em Amboseli, os elefantes são a grande estrela. Tive ótimos avistamentos de vida selvagem, e em fartura (big four incluído, só faltou leopardo), mas o momento mais inesquecível foi ter o carro de safári rodeado por uma manada de elefantes que nos observava placidamente, o sol se pondo ao fundo e nosso motorista maasai quase que conversando com os animais. Foi também ali que fiz a mais interessante visita a uma comunidade maasai, assistindo a algumas exibições de seus costumes, seus saltos, seus cantos, visitando suas casas e conversando com alguns moradores. E Maasai Mara, é claro, é território por excelência dos felinos, e ali eles realmente estão em abundância. Vimos uma fartura impressionante de leões e cheetas, com filhotes de diferentes idades – só ficou mesmo faltando o leopardo que, tímido, só deu as caras na viagem todo no alto de uma árvore em Ol Pejeta.

Nos camps, serviço cálido e simpático, camas confortáveis, tendas bem cuidadas e despertar todos os dias com café, leite e cookies literalmente na cama.E ali está quase tudo incluído: transfers, refeições, bar aberto, walking safari com os maasai, visitas a comunidades maasai e, claro, dois game drives ao dia. Os únicos downsides? Não há serviço de wifi nos camps e os banhos são em sistema “bucket shower”, com quantidade limitada de água para tal ao dia.

Foto: Mari Campos

A chave de ouro para o fecho da viagem queniana veio com a estadia no incrível Mara Nyika, o novo luxury camp da Great Plains Conservation, empresa de camps também 100% sustentáveis e voltados à conservação, sobre a qual já falei aqui antes.  O novo Mara Nyika Camp fica localizado na área de conservação Naboisho, adjacente à reserva nacional Maasai Mara, e conta com apenas quatro luxuosas e exclusivas tendas, com capacidade máxima de apenas oito hóspedes. Construído de maneira ética, o Mara Nyika é um camp de luxo que opera 100% com energia solar, trata e reaproveita a água que consome e já nasceu totalmente plastic-free. E quase tudo o que se consome no camp é produzido ali mesmo, com ingredientes locais e sazonais.

A espetacular decoração de cada tenda e área comum – escolhida pessoalmente pelos proprietários Beverly e Dereck Joubert – fica ainda mais bonita com as tendas sendo interligadas por charmosas passarelas de madeira reaproveitada de antigas ferrovias e construções africanas. Cada tenda conta com quatro áreas bem definidas (varanda, living, quarto e imensos banheiros), decoradas com maestria e repletas dos confortos da hotelaria de luxo, da excelente roupa de cama aos delicados roupões de linho – e com excelente wifi.

Foto: Mari Campos

Ali também tudo está incluído (transfers, game drives, todas as refeições, bar aberto), inclusive impecáveis sundowners com bares completos em plena savana e imprescindível serviço de lavanderia gratuito. Mas o Mara Nyika vai além: de óculos de leitura a câmeras DSLR com lentes objetivas, há vários mimos emprestados sem custo para os hóspedes durante sua estadia.

Os hóspedes que ficam ali, além de explorarem a área de conservação e a reserva Maasai Mara com o mínimo impacto possível, também contribuem diretamente com o sustento das mais de 500 famílias Maasai parceiras da propriedade. Provando que o turismo, do mais acessível ao mais luxuoso, pode, sim, ter alta qualidade e ser verdadeiramente sustentável.