Turismo de luxo cresce no Brasil durante a pandemia

Turismo de luxo cresce no Brasil durante a pandemia

Mari Campos

06 de outubro de 2021 | 22h26

O turismo de luxo cresceu no Brasil durante a pandemia – e as mudanças de comportamento do viajante de luxo brasileiro têm relação direta com isso. Algumas das mudanças são obviamente passageiras, face às restrições necessárias à nossa segurança nestes tempos pandêmicos; mas parte delas deve se manter no curto e no médio prazo. E, no mercado de luxo, seja em viagens nacionais ou internacionais, em plena crise econômica nacional, o brasileiro paradoxalmente gastou mais com turismo.

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Julho de 2021 foi o melhor mês da série histórica para a hospitalidade de luxo no país, com os melhores índices de ocupação em muitos anos. Para alguns hotéis e pousadas brasileiros, julho foi o melhor mês de TODA sua história, com demanda sem precedentes para algumas propriedades e destinos. No cenário internacional, em julho passado 54 milhões de turistas atravessaram fronteiras internacionais.

Os números referentes ao turismo de luxo de estrangeiros no país anda inexpressivo; mas o turista de luxo brasileiro tem viajado por aqui como nunca. Muita gente finalmente “se encontrou” com as viagens pelo Brasil: não apenas a demanda para propriedades e serviços já existentes cresceu como também estimulou a abertura de novos negócios focados neste nicho em plena pandemia.

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Mas o crescimento das viagens de luxo em plena pandemia aconteceu globalmente. Em pesquisa recente da ILTM (International Luxury Travel Market), responsável pelos principais eventos de turismo de luxo do mundo, 62% dos agentes e consultores de viagens entrevistados (em parceria com o portal Travel Weekly) revelaram que seus clientes estão gastando hoje com turismo muito mais do que gastavam antes da pandemia. No Brasil, agentes e hoteleiros confirmam essa mesma tendência comportamental.

Segundo o estudo promovido pela ILTM, as viagens de luxo representaram mais de 50% do total de vendas de viagens durante a pandemia; e estima-se que pelo menos 55% dos agentes vendam neste 2021 quantidade de viagens igual ou ainda maior à que vendiam no pré-pandemia.

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Crescimento do turismo de luxo é tendência global

Hoje, aqui e lá fora, a maioria dos viajantes de luxo busca viagens ainda mais personalizadas e com o máximo de inclusões possível – além de optar por estadias mais longas e mais passeios privados que antes. Afinal, segurança tornou-se aspecto incontornável em qualquer viagem – e impulsionou incontestavelmente o volume de gastos deste nicho do turismo.

É claro que muitas pessoas, inclusive do mercado de luxo, ainda estão adiando a volta às viagens em razão da pandemia e dos avanços da variante Delta no mundo todo. Mas o aumento generalizado no volume de gastos de quem já voltou a viajar tem mantido a balança favorável para boa parte do setor.

Simon Mayle, diretor de eventos da ILTM, afirmou recentemente que não tem dúvidas de que o quarto trimestre de 2021 será o período de reservas mais movimentado dos últimos tempos para as vendas do turismo de luxo. E é bastante possível que tal tendência se amplie também para outros nichos do turismo, mesmo em países em profunda crise econômica, como o Brasil.

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Turismo de luxo enfrenta crise de mão-de-obra qualificada

Mas é claro que nem tudo são flores no turismo; muito pelo contrário. A indústria turística foi sem sombra de dúvidas uma das mais afetadas do período. Mesmo no turismo de luxo, que vem tendo recuperação muito mais rápida, há diversos entraves que, muito além dos protocolos sanitários, ainda interferem enormemente no desempenho do setor.

Segundo Simon Mayle, o impacto da pandemia ainda deve se estender por vários meses na indústria da hospitalidade, até que o padrão de serviço seja realmente restabelecido. E destacou, durante a realização da ILTM North America, no mês passado, a importância dos agentes e consultores de viagens alinharem as expectativas de seus clientes com a realidade das viagens neste momento da pandemia. Ou seja: o turista que deseja viajar agora precisa estar ciente de tais limitações e entraves.

Além das questões incontornáveis de segurança sanitária e aumento geral de custos, a dificuldade de manutenção de mão de obra de qualidade tem sido constante no mercado de luxo nesta fase da retomada. “Com a abertura das fronteiras de países relevantes no turismo de luxo, é fundamental que os viajantes estejam cientes de que podem haver pequenas diferenças do pré-pandemia. É passageiro e não arruinará a experiência turística; mas é preciso alinhar expectativas”, recomenda Mayle.

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Mudança de comportamento no turista de luxo brasileiro

O recente avanço da vacinação no Brasil tem contribuído para que muitos turistas brasileiros façam ou programem agora suas primeiras viagens da pandemia. E ainda com foco no turismo doméstico para muita gente.

Pesquisa recente da Booking afirma que 80% dos entrevistados brasileiros esperam poder fazer ao menos uma viagem ainda em 2021. E o turista de luxo brasileiro finalmente tem mais olhos para os produtos brasileiros. Não à toa, diversas novas propriedades e novos serviços turísticos foram inaugurados no Brasil desde o ano passado.

Muita gente descobriu agora o prazer das estadias prolongadas e do slow travel, privilegiando mais contato com o destino visitado. E disso derivam ocupação maior e mais constante para os hotéis e envolvimento muito maior de comunidades e produtos locais nas experiências e serviços oferecidas ao viajante.

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De acordo com a BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), principal associação de hospitalidade de luxo no Brasil e parte da iniciativa Unidos pela Vacina, a pandemia fez com que o brasileiro, em boa parte por ter estado tanto tempo impedido de viajar para o exterior, reconhecesse no próprio país um novo – e bom – destino para suas viagens.

Seus associados não apenas receberam em 2020 e 2021 muito mais turistas nacionais que antes (64% dos associados relatam que o perfil do cliente mudou completamente com a pandemia), como também investiram bastante na melhoria do seu produto (72%) e em ações de marketing voltadas para o brasileiro (49%). Tudo para atrair – e tentar manter – este novo cliente que exigiu a criação de novas experiências personalizadas.

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“Isso tudo não são apenas números; isso reflete o quanto o Brasil tem um potencial incrível para se tornar um destino desejado também no mercado global de turismo. Agora precisamos trabalhar muito com foco estratégico na imagem do Brasil lá fora”, diz Simone Scorsato, CEO da BLTA.

É com isso em mente que a BLTA promove agora em outubro mais uma edição de seu BLTA FÓRUM (gratuito, virtual e inclusivo): com o tema “Brasil Incomparável”, o evento discutirá diferentes atributos do luxo, como autenticidade, diversidade, sustentabilidade, bem-estar e design. A ideia principal é potencializar o país no mercado global de turismo e ampliar o debate e o conhecimento sobre este mercado tão singular. “Acreditamos que, ao contribuir para um debate mais amplo sobre o turismo de luxo no país, ressaltamos sua importância para o desenvolvimento socioeconômico brasileiro”, diz Alex Da Riva, presidente da entidade.

As inscrições para o BLTA FORUM 2021 são gratuitas, mas incentivam a contribuição de uma taxa solidária em apoio ao projeto Massaria Social / O Pão do Povo da Rua.

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Poder público e iniciativa privada precisam trabalhar juntos

Os cenários internacional e (sobretudo) nacional ainda são extremamente incertos. Todos aprendemos bem a lição no ano passado de que literalmente tudo pode mudar de uma hora para outra. Ainda assim, a expectativa para 2022 é que o turismo de luxo continue crescendo – em volume de gastos e em taxas de ocupação na hotelaria –  no Brasil e também globalmente.

Segundo Simone Scorsato, da BLTA, as viagens internas ainda estão aquecidas no Brasil e a oferta disponível hoje no mercado turístico brasileiro está apta a receber qualquer tipo de viajante, com ampla variedade de experiências. Mas faz um alerta importante:  “Para que o fortalecimento do mercado interno não perca fôlego, é fundamental que poder público e iniciativa privada se unam na modernização dos marcos regulatórios trabalhistas, políticas afirmativas e nas questões sobre diversidade e inclusão”, diz. “Isso contribuirá não apenas para qualificar o setor, mas também para a promoção do turismo de luxo do Brasil no âmbito internacional”.

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