Vem aí o Promad Traveller

Vem aí o Promad Traveller

Mari Campos

29 de abril de 2021 | 16h36

Promover o turismo como uma atividade verdadeiramente sustentável tem sido uma batalha pessoal minha há muitos anos, tanto como jornalista como nas minhas próprias escolhas como viajante. Venho falando muito nas últimas colunas aqui sobre turismo sustentável, turismo consciente e turismo regenerativo, que vejo como fundamentais para a própria manutenção da atividade turística. Afinal, temos urgência nisso. Mas você já ouviu falar do Promad Traveller?

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Bordeaux

Foto: Mari Campos

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Quem é o Promad Traveller?

Ainda que bem lentamente, cada vez mais turistas estão compreendendo (enfim!) que cada escolha que fazemos ao viajar tem impactos sociais, econômicos, culturais e ambientais nos destinos que visitamos, direta ou indiretamente. Por isso mesmo, é preciso que tomemos cada decisão de viagem de maneira extremamente responsável. 

O tema do turismo sustentável está em alta desde o ano passado também na maioria das publicações internacionais do setor, nos mais diferentes estilos de conteúdo. E agora algumas dessas publicações começam a falar no Promad Traveller (ou promadic traveller), uma corruptela para “progressive nomad” criada durante a pandemia – porque gringo adora mesmo rotular tudo, a gente sabe. 

Dentre tantos termos do turismo que ganharam força na pandemia, o novo termo Promad (uma espécie de nômade progressista rs) começa a ser usado para descrever um tipo de turista com maior flexibilidade para viajar (alô home office!) e, principalmente, mais consciência sobre os impactos (ambientais, sociais, culturais, econômicos) de suas viagens.

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Crédito: OneandOnly Mandarina

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Turismo com propósito

O novo rótulo criado na indústria turística – que poderia muito bem ser “turista regenerativo“, já que se refere justamente aos princípios do turismo regenerativo – enfatiza esse novo modo de encarar e se responsabilizar pelos impactos incontornáveis gerados por cada uma de nossas viagens.

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A Traveller Made, primeira rede internacional de networking para travel designers exclusivamente dedicada ao turismo de luxo, já enfatiza em seus encontros anuais (batizados de EOL – Essence of Luxury) há vários anos o quanto a conexão de viajantes com marcas e empresas que reflitam seus valores é cada vez mais fundamental para o sucesso do setor.  A rede defende também que sustentabilidade, saúde e engrandecimento pessoal vêm se tornando cada vez mais parte indissociável do ato de viajar. 

Hoje, muito mais importante que falar sobre “impacto ambiental zero” é saber deixar claro para o turista e consumidor em geral quais impactos positivos (seja ambiental, social, cultural ou economicamente) uma empresa, produto ou serviço promove através de seus produtos e ações.

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Four Seasons

Crédito: Four Seasons

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Como viajam os Promad Travellers

A busca por lugares remotos e mais vazios, ou mesmo por viagens na vibe “visitar antes que acabe” ou “conhecer enquanto existe”, já vinha crescendo de maneira considerável em diferentes nichos do turismo desde antes da pandemia. 

A demanda cada vez maior por autenticidade, antes mais restrita ao turismo de luxo, agora se ampliou definitivamente para outros nichos do setor. Os chamados Promad Travellers se preocupam em contribuir com comunidades e economias locais durante suas viagens (de novo: exatamente como prega o turismo regenerativo). Esperam ser não apenas consumidores mas também de certa forma produtores e agentes de mudança (de forma pessoal e comunitária) através de suas viagens. 

Preocupados com o overtourism, esses viajantes pregam o turismo consciente e buscam cada vez mais visitar destinos e contratar propriedades e prestadores de serviços que também promovam soluções sustentáveis de longo prazo, inclusive para o próprio fomento do turismo local. 

urgência no turismo sustentável. Estão de olho também em destinos que estão colocando a sustentabilidade como fator chave para seu desenvolvimento. Não à toa, Singapura criou recentemente seu “Green Plan 2030” e já afirmou que almeja se tornar um destino escolhido por viajantes daqui pra frente (independentemente da origem dos mesmos) sobretudo pela questão da sustentabilidade. 

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Soneva Fushi

Crédito: Soneva Fushi

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Home office criou novo perfil de hóspede para a hotelaria

Com a pandemia e home office/trabalho remoto se tornando uma realidade constante para muitos profissionais de diferentes áreas e faixas etárias, a intersecção entre casa, trabalho e indústria da hospitalidade está mudando muito rapidamente.

Com maior flexibilidade de trabalho para diferentes profissionais, o endereço do home office pode mudar de uma hora para outra, momentaneamente, com fronteiras cada vez mais tênues entre trabalho e lazer nas viagens. Talvez este cenário esteja mudando de maneira incontornável, já que diversas grandes empresas internacionais afirmaram nos últimos meses que pretendem manter o trabalho remoto, ao menos parcialmente, também após o esperado fim da pandemia. 

Estudos recentes demostraram que o turista brasileiro dá cada vez mais importância para a hotelaria. E, internacionalmente, os tais promad travellers já esperam que hotéis, pousadas e imóveis de temporada sejam de fato capazes de gerar impactos positivos nos destinos nos quais estão inseridos. E esperam também que a indústria da hospitalidade ofereça design (muito além da simples questão estética) e serviço capaz de atender suas necessidades pessoais (com cada vez menos contato físico, mas cada vez mais conexão humana), sem deixar de lado as necessidades dos destinos nos quais se encontram.

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Singapura

Foto: Mari Campos

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O que vem por aí

Infelizmente sabemos que muita gente tem viajado de maneira bastante irresponsável durante a pandemia. E nem falo aqui do aspecto puro da sustentabilidade, mas da responsabilidade como viajante mesmo. Todos os dias vemos vídeos e fotos com péssimos exemplos de viajantes no noticiário e nas redes sociais. 

Por outro lado, pouco a pouco, vemos mais pessoas se preocupando em fazer justiça à expressão “viagem com propósito“. Com tanto acesso à informação, estamos cada vez mais atentos à postura e às ações de destinos, hotéis e prestadores de serviços em geral. E buscamos cada vez mais consumir produtos e serviços de empresas que tenham valores semelhantes aos nossos. Assim, o ato de escolher “para onde” viajar, ainda que bem devagarinho, está virando “como” e “por que” viajar para esse destino ou propriedade para cada vez mais gente. O processo é bastante lento, sabemos; mas o crescimento tem sido constante. 

Não sabemos ainda se o termo “promad traveller” vai virar ou não. E, honestamente, isso não faz a menor diferença, certo? Já estamos cansados de rótulos. Por outro lado, se servirem para conscientizar mais gente para encarar o turismo com responsabilidade, sou da turma que apoia com prazer. Afinal, fazer viagens cada vez mais responsáveis, com escolhas realmente conscientes o tempo todo, zelando atentamente pelos impactos que geramos, é passo absolutamente fundamental para construirmos também um mundo cada vez mais sustentável. 

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