Viagens sustentáveis para 2021

Viagens sustentáveis para 2021

Mari Campos

25 de janeiro de 2021 | 11h01

Sustentabilidade tem sido item praticamente obrigatório em toda lista de tendências de viagem para 2021, seja no Brasil ou lá fora. Obviamente apareceu também na minha lista de tendências de viagem para o Estadão. Mais que viagens sustentáveis, a indústria turística internacional começa a falar seriamente em “viagens regenerativas” agora, capazes realmente de equilibrar impactos.

Mas não adianta apenas que a indústria turística se preocupe com as viagens sustentáveis; é fundamental que nós, mesmo com todas as restrições impostas pela pandemia, ESCOLHAMOS fazer viagens sustentáveis em 2021 e nos próximos anos.

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É urgente que planejemos melhor nossas viagens para garantir que apoiemos as pequenas comunidades locais e busquemos a redução do consumo de plástico, rastro de carbono e geração de lixo na estrada. E, principalmente, que aprendamos de uma vez por todas a escolher destinos e empresas do turismo (companhias aéreas, hotéis, pousadas, operadores, receptivos etc) que realmente ajam em prol da sustentabilidade.

Ao contrário das revistas de viagem brasileiras, que tristemente ainda não estão dispostas a abraçar essa bandeira de verdade, as grandes publicações de turismo internacionais estão todas afinadas no discurso da sustentabilidade no turismo neste começo de 2021. A última edição da Condé Nast Traveller, por exemplo, listou (em uma matéria de capa linda!) 10 destinos que parecem estar realmente engajados com o turismo sustentável atualmente: Slovenia, Costa Rica, Finlândia, Grécia, Escócia, Palau, Malawi, Portugal, Havaí e Butão.  Também cita os esforços éticos e sustentáveis de destinos como Ruanda, Seychelles, Suíça, Holanda, Nova Zelândia, Noruega e os compromissos “verdes” recentemente assumidos por cidades como Valência e Copenhagen.

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foto: Mari Campos

Regenerative Travel – Turismo regenerativo

A pandemia popularizou diversos termos e expressões que já existiam no turismo, mas ainda eram pouco conhecidas por aqui. Turismo de isolamento, extented stays, buy out, staycation são algumas delas e explico cada uma delas nesse link aqui.

Mas acabou trazendo novas expressões também – ou novos usos para expressões antigas – como já abordei aqui na coluna sobre Revenge Travel. Pois uma outra expressão que tem sido muito usada pelo setor lá fora e é totalmente ligada à ideia das viagens sustentáveis é Regenerative Travel.

O conceito de regenerative travel ou regenerative tourism (viagem regenerativa, turismo regenerativo) tem sua raiz em desenvolvimento regenerativo e design, edifícios sustentáveis etc. Pois a indústria do turismo internacional vem discutindo com seriedade a possibilidade de uma retomada das viagens pós-vacinas mais inteligente, sustentável e definitivamente menos massiva. A discussão principal (infelizmente ainda insípida em terra brasilis) é tentar criar mecanismos para viajantes e trade que promovam viagens que sejam o total oposto do overtourism.

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Urge batalhar para que o turismo seja capaz de balancear os impactos sociais e ambientais associados à sua prática em um determinado destino. Uma forma de se fazer turismo de modo realmente regenerativo, através da qual, ao partir, sejamos capazes de deixar um lugar melhor do que encontramos na nossa chegada. Até porque, geralmente, “as áreas com maiores necessidades não são necessariamente as áreas com mais atrações turísticas”, como bem apontou o fundador da OneSeed Expeditions em matéria recente do New York Times sobre o tema.

Hoje, diversas organizações, entidades, operadores internacionais e até mesmo órgãos nacionais de turismo – como Center for Responsible Travel, Sustainable Travel International, G Adventures, Slovenian Tourism, Tourism New Zealand etc – estão discutindo a ideia de “regenerative travel” ativamente e propondo soluções a curto prazo. Incluindo a ideia de que o “sucesso” de um destino turístico deixe de ser definido apenas por seus números de visitantes. Seria incrível começar a ver essa movimentação aqui no Brasil também, não?

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Six Senses Uluwatu Bali

Dicas para viagens sustentáveis em 2021

Fazer do turismo uma cadeia sustentável é também nossa responsabilidade como viajantes. “O viajante será cada vez mais consciente. Antes da pandemia o mercado já tinha expectativa de que 2020 seria o ano do viajante consciente”, afirma Simon Mayle, diretor de eventos da ILTM. Simon está otimista: “Os viajantes darão cada vez mais importância para um mundo mais humano e entendem que sustentabilidade em turismo é saber como hotéis e prestadores cuidam do meio ambiente mas também se ajudam suas comunidades, se contratam pessoas da comunidade etc. Tudo está conectado”.

Realmente não é complicado optarmos por viagens mais sustentáveis daqui pra frente. A velha receitinha básica de qualquer viagem bem feita: pesquisar, pesquisar, pesquisar muito antes de se decidir pela compra de qualquer serviço. Quando a gente decide colocar nosso dinheiro em um hotel ou serviço em viagem (tours, transfers, companhias aéreas etc), a gente está deixando claro que é ESSE tipo de empresa que a gente quer no mercado. É preciso termos sempre responsabilidade em nossas escolhas.

Um check list inicial bastante simples para começarmos a fazer viagens mais sustentáveis daqui pra frente poderia ser:

  1. Defina um propósito antes de fazer sua reserva.  Procure entender quem (e como!) se beneficia com o seu investimento em cada produto ou serviço da sua viagem. São justamente as decisões sobre EM QUE investimos nosso dinheiro ao viajar que fazem a indústria turística em geral realmente se mexer em prol da sustentabilidade.
  2. Questione SEMPRE antes de se decidir por um produto ou serviço: quais políticas o hotel tem para consumo de energia e água? De onde exatamente vêm os produtos utilizados pelo restaurante no preparo das refeições? Quais exatamente são os projetos sociais que esta empresa de passeios apoia (e como apoia)? E procure consumir apenas produtos e serviços de empresas realmente comprometidas social e ambientalmente com o destino que você visita.
  3. Confie no seu agente de viagens! Um bom agente de viagem é um profundo conhecedor de destinos, hotéis e empresas do turismo em geral. Capaz de realmente transformar nossos sonhos em  viagens, tornou-se uma figura ainda mais indispensável nestes tempos de pandemia e incertezas. E, portanto, um excelente curador para o turismo sustentável. Explique a ele seus valores e seus anseios por viagens realmente sustentáveis e faça bom uso de sua curadoria, para investir seu orçamento de viagem somente em empresas sérias e comprometidas.

Uma das muitas lições que a pandemia tem nos deixado é nunca mais encararmos o ato de viajar para qualquer lugar como certeza ou garantia. Então é realmente necessário que, a partir deste 2021, nós façamos cada viagem ter realmente um propósito, um significado.  De verdade. Que façamos um compromisso verdadeiro em cada escolha das nossas viagens, pelo planeta e por todos nós que vivemos nele.

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explora Atacama. Crédito: Mari Campos

Hotelaria de luxo TEM que ser sustentável

Hotéis DEVEM que ser sustentáveis daqui pra frente, independentemente de serem econômicos ou luxuosos. Está dentro das principais tendências apontadas para a hotelaria em 2021, mas tem que ser, de fato, um compromisso real da hospitalidade com o mercado.

Há atitudes simples e pouco onerosas que mesmo pousadinhas com preços super camaradas têm feito com maestria para serem mais sustentáveis no Brasil. Por isso mesmo é simplesmente inadmissível que ainda tenhamos tantos hotéis de luxo, em pleno 2021, que ainda não passam nem perto da sustentabilidade verdadeira. Já sabemos muito bem que hotéis comprometidos vão MUITO além do aviso para evitar troca de toalhas, certo?

Minha receita pessoal nas minhas viagens tem sido já há algum tempo procurar escolher unicamente hotéis realmente comprometidos com sustentabilidade para minhas férias. Enquanto algumas grandes redes hoteleiras continuam vergonhosa e inexplicavelmente fechando os olhos para esse tema, felizmente há excelentes opções de hotelaria realmente engajada, comprometida social e ambientalmente, em quase todos os destinos – aqui e lá fora. A gente só precisa procurar.

Já recomendei aqui mesmo na coluna várias delas, dos hotéis Explora, no Chile, aos simplesmente impecáveis Porini Camps e Great Plains Conservation, em destinos africanos. O genial e inovador The Brando, na Polinésia Francesa, segue inspirando novos hotéis a seguirem seus passos todos os anos.  E felizmente cada vez mais propriedades brasileiras estão trabalhando também em prol da sustentabilidade – incluindo pousadas menos onerosas, como a despretensiosa Pousada Mata N’ativa, em Trancoso.

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Soneva Fushi. Foto: Mari Campos

O case Soneva

A rede de hotéis Soneva tem elevado a sustentabilidade na hotelaria a outro patamar ultimamente. Desenvolvem ações realmente sustentáveis em seus hotéis há 25 anos. Baniram plásticos por completo e vivem lutando para que o governo local proíba plásticos de uso único em todo o destino.

Criaram práticas eficientes para reciclagem e reaproveitamento de lixo, eficiência energética e reaproveitamento de água em suas propriedades (só em 2019, seus hotéis geraram o equivalente US$553.000,00 em reciclagem e reutilização de lixo, e filtram, mineralizam, alcalinizam e engarrafam água nos próprios resorts).

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Investimentos combinados de quase 10 milhões de dólares vêm tendo impacto extremamente positivo não apenas no meio ambiente, mas também na vida de mais de um milhão de pessoas direta ou indiretamente envolvidas em suas ações. E foram além dos domínios dos seus resorts nas Maldivas: criaram projetos 100% sustentáveis relacionados a recolhimento e reciclagem de lixo, limpeza dos oceanos, cultura orgânica e até mesmo surf que executam em outras ilhas e comunidades do destino.

Todos os hotéis Soneva também criaram atividades especiais para que seus respectivos hóspedes se engajem pessoalmente em projetos de conservação durante sua estadia – de pesca sustentável à formação de pequenos protetores da vida selvagem. Um baita exemplo de “regenerative travel” desde muito antes da indústria turística começar a usar a expressão.  É de hotelaria comprometida assim que o turismo precisa.

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