A arte de saber dar colo a quem precisa

Margarida Vaqueiro Lopes

27 Janeiro 2016 | 09h47

Quando fui viver para esse lado do Altântico, durante os primeiros meses fui turista, como tantos outros. Todo o mundo sabia que eu não era brasileira e eu me denunciava nos mais pequenos gestos, olhares assustados e sorrisos amarelos de quem não entendia o que as pessoas queriam dizer. Por esses dias me lembrei muito de uma das primeiras viagens de ônibus que fiz em São Paulo, precisamente para chegar na Barra Funda e depois ir para a redação do Estadão. Era de manhã cedo, e além da minha bolsa eu levava também uma quantidade de outras coisas comigo: livros, anotações, blocos vários, câmara fotográfica, aquelas coisas, numa sacola de pano. E obviamente, não tinha lugar para me sentar, numa viagem que demorava pelo menos uns 40 minutos. Tudo bem.

Me apoiei num dos bancos, e me preparei para o trânsito. Até que a senhora que estava sentada do meu lado, me perguntou, no tom mais natural do mundo, se eu queria largar a minha bolsa e a minha sacola no colo dela. Eu devo ter feito a pior cara de sempre, achando que a pobre senhora queria ficar com as minhas coisas, mas achando também que era a maior cara de pau ela estar se oferecendo para o fazer às claras. Depois dei conta de que esse é um hábito que vocês, brasileiros, têm. E muitas vezes ofereci colo e tantas outras aproveitei o de algum passageiro que, sabendo da dificuldade de ir em pé, tenta aliviar como pode o desconforto de alguém que nem conhece.

Aqui isso não acontece. Mesmo que a pessoa que esteja em pé tenha 120 anos e dez sacos, ninguém lhe perguntará se quer colo para as coisas – às vezes nem lhe dá lugar no assento. O gesto que parece tão pequeno alivia de uma forma inimaginável o corpo e dá tanta alegria à alma, que eu não sei por que aqui, na Europa, não o fazemos. Mas sei, lembro todos os dias quando pego o trem ou o ônibus aqui em Lisboa, que foi por esses pequenos gestos que o Brasil ganhou no meu coração um espaço que nenhum outro país conseguiu.

No fundo, é só sabermos olhar uns pelos outros. Nas mais simples coisas.


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