A crise em Portugal está deixando muitas famílias passando fome

Margarida Vaqueiro Lopes

10 de março de 2021 | 12h48

O primeiro confinamento deixou muitas pessoas sem emprego, mas o segundo atirou milhares para a fome e a miséria

Amanhã, dia 11 de março, o Governo português apresenta o plano de desconfinamento, pelo qual todo o País está esperando para tentar retomar um pouco da normalidade em suas vidas. Mas todos sabemos pelo menos duas coisas, sobre esse suposto retorno:

  1. Tem famílias e empresas que vão demorar muito tempo a recuperar;
  2. A normalidade não vai voltar a ser o que hoje a chamamos de normal.

Há um mês eu, minhas irmãs e um amigo criámos uma plataforma – foi uma coisa que nasceu de uma conversa de sofá e que de repente está quase sendo uma ONG – para tentar ajudar algumas famílias que sabíamos estarem passando fome, de uma forma rápida e anónima (www.admiradores-secretos.pt). O objetivo era fazer uma ajuda única e de emergência para famílias que, de repente, se viram sem ter o que comer.

Muitas das pessoas que estavam precisando de ajuda eram de classe média ou média alta, e nem sabiam onde se dirigir, nem como fazê-lo. E eu entendo. Se, nesse momento, ficasse sem dinheiro para comer e sem família a quem recorrer, desconfio de que ia morrer de vergonha antes de conseguir me dirigir a uma das instituições que geralmente prestam auxílio nessas ocasiões.

Já para não falar do montão de documentos e informação que geralmente elas pedem para nos doar o que quer que seja: declaração dos rendimentos do ano anterior – que em 2020 e 2021 diz nada sobre a nossa atual situação – , endereço, números de celular…enfim. O monte de coisas que nem sei se estaria disposta a partilhar.

Em um mês, ajudámos quase 600 famílias que se inscreveram e conseguimos reunir o contato de mais de 4500 pessoas dispostas a ajudar. A plataforma se encontra fechada de momento, porque precisámos de conseguir processar tudo [todo o mundo envolvido é voluntário de áreas tão diversas quanto jornalismo, marketing ou ensino] e de pensar como fazer o projeto viver com pessoas com experiência que consigam dar um apoio mais estruturado e responsável para essas famílias.

Um dia, uma das doadoras que se inscreveu na plataforma – e que calha ser minha amiga – contou uma história completamente trágica sobre a família que tinha lhe calhado ajudar. Ela ligou para eles, uma família recém-chegada do Brasil, e de repente se deu conta de que faltava tudo para eles. Tinham vindo para Lisboa com emprego garantido, casa, tudo certo, e de repente Portugal entrou no segundo lockdown. Sem dinheiro para voltar, ou para se manter, a família precisava desde cobertor – janeiro e fevereiro são meses muito frios em Portugal, e esse ano ainda foram particularmente mais – a comida, passando por outros bens essenciais. A minha amiga e o outro doador encarregue de ajudar a família foram muito além daquilo que era o nosso pedido inicial, e se encarregaram de encontrar um monte de coisas que fizeram toda a diferença nessas pessoas que chegaram em Lisboa cheias de planos e depois foram completamente abandonadas por um sistema que está longe de conseguir chegar a todo o mundo.

Um outro casal, com quatro filhos e vivendo no centro de Portugal, trabalhava em hotelaria e restauração e no espaço de um ano ficou sem emprego e sem as poupanças que, entretanto, acabaram e não tiveram forma de ser repostas como consequência de tantos meses com a economia parada. De repente, nem dinheiro para fraldas eles tinham. Uma oferta generosa de outros dois doadores lhes deu descanso durante umas semanas.

No entanto, isso não é solução – apesar de a sociedade civil ter também um papel na segurança e na ajuda dos seus vizinhos – e é urgente encontrar soluções para uma crise que, sabemos, só tende a se agravar nos próximos meses. Centenas, milhares de empresas estão fechando ou atravessando muitas dificuldades para conseguir manter os postos de trabalho e os salários das pessoas que têm à sua responsabilidade.

Isso significa que há centenas, milhares de famílias em risco de ficarem sem rendimentos muito depressa. E numa altura em que a crise bateu na porta de todo o globo, a esperança de encontrar soluções se torna ainda mais difícil, por não se poder pensar numa ida além-fronteiras para mitigar esse efeito.

Apesar de estarmos conseguindo reduzir consistentemente – já estava na hora – o número de óbitos e de casos Covid-19 em Portugal, tendo o País voltado a ser um dos que tem menores taxas de novas infeções da Europa, a verdade é que teremos um sério problema de fome, de pobreza e de abandono se não encontrarmos, rapidamente, soluções que não passem apenas pela boa vontade da comunidade civil para ajudar. E para isso, é preciso que todos nós pensemos no que há a fazer, e no quão exigentes devemos ser com quem nos governa.

 

Até lá, quem pode deve manter-se em casa, ajudando quem tem perdido tudo e garantindo que não ajuda ao aumento das infecções.

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