A culpa é sempre de alguém que não eu

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Janeiro 2016 | 09h19

 A discussão tem vários anos, mas tem estado mais presente nessa altura de crise, com a emigração a aumentar consistentemente. Dados da Pordata mostram que desde 2008 – considerado o ano inicial da crise – o número de emigrantes permanentes subiu de cerca de 20 mil para 49.500. depois de ter atingido seu valor mais elevado em 2013: 53.786 portugueses estavam vivendo fora.

Com os emigrantes temporários o movimento foi igual, apesar de a gente só conseguir consultar os dados desde 2011: o número subiu de 57 mil para 85 mil em 2014. 

O que significa isso? Bom, basicamente que Portugal está perdendo grande parte da sua força produtiva. Não que isso seja um problema em termos de economia, uma vez que o desemprego continua acima dos 10%. Além disso, acredito realmente que estamos vivendo na famos ‘aldeia global’ de que McLuahn falava tantos anos atrás, e que cada vez mais haverá gente mudando de país para viver, trabalhar, casar, ter filhos.

Mas o problema social é o que interessa aqui. Há uns dois dias, um grande amigo estava comentando no seu mural do Facebook que dois anos passados vivendo numa outra cidade europeia, só lhe faltava mais doze meses longe de Portugal e da família – está terminando uma especialização. De repente, começaram a aparecer comentários perguntando por que ia ele voltar? Que Portugal não tinha nada para oferecer, que não vali a pena.


Essa coisa de a gente achar que não faz parte de um País, e logo, da mudança de que ele precisa, me deixa indignada. A minha geração – que está agora entre os 30 e 40 anos de vida – será a dos próximos líderes. Somos também a geração com mais qualificações da história do País, quase todo o mundo já estudou ou trabalhou fora do país durante um tempo o que é ótimo para o currículo, mas continuamos nos minimizando, esquecendo que seremos nós quem decidirá muita coisa no futuro.

Se não nós, quem?

Os empregos são mal pagos? Verdade! Mas daqui a dez anos, menos até, alguns de nós, possivelmente, estarão em cargos de chefia e terão oportunidade de mudar isso (já tem gente mudando). O trabalho não é reconhecido? A meritocracia é mentira? Os horários fixos deviam acabar? As pessoas têm que ser pagas segundo qualificações e trabalho feito e não tendo em conta os amigos, ou tabelas predefinidas? Tudo verdade. Concordo em absoluto – e sou super a favor de as pessoas emigrarem, se isso as fizer felizes, ok? Acho que o movimento migratório até que ajuda bastante as economias em redor do mundo. Mas é preciso deixar bem claro uma coisa: as coisas não mudam se as pessoas que pensam assim não fizerem esse esforço para as mudar.

Se eu acho que tudo isso está errado e vou embora sem querer voltar, não contribuirei para que um dia Portugal seja diferente. E nem vale a história do “agora é que o Governo vai ver como é. Vai perder todo o mundo que tem qualificações”. É que o prejudicado não é o Governo: somos nós, todos, enquanto povo, enquanto nação. Eu sou muito pouco patriótica – de verdade – mas tem uma coisa que não me faz sentido: não estar aqui tentando mudar as coisas para melhor. E se não estou aqui, então não tenho o direito de criticar. Já dizia Barack Obama num dos deus discursos há uns anos: We are the change we seek (“Somos a mudança que estamos buscamos”). E ainda acrescento o que disse Emma Watson no emocionante discurso da ONU sobre o feminismo, mas que serve bem  para esses casos, também: Se não eu, quem? Se não agora, quando?