A geração Y é a geração da prepotência?

Margarida Vaqueiro Lopes

15 Janeiro 2016 | 09h28

A geração Y ou dos ‘milenials é composta pelas pessoas que têm hoje entre 20 e 40 anos. Segundo definição sociológica, são pessoas que adoram feedback, vivem para o trabalho, aspiram a ter muito sucesso económico e são multi-tarefa. Tudo coisas incríveis – se não contarmos com as análises sociológicas que dizem também que esses jovens esperam que tudo lhe caia no colo com pouco esforço, uma vez que foi assim que os seus pais os educaram, para que não passassem pelas mesmas dificuldades.

Eu própria sou parte dessa geração, ao que parece. E por isso decidi falar sobre ela, porque me tem parecido – experiência empírica, própria ou de gente próxima – que essa geração tem uma coisa bastante grave em desenvolvimento, e que a longo prazo será um flagelo social: a falta de lealdade e de seriedade para com os que os rodeiam.

Nessa onda da ‘meritocracia’ e do ‘vale tudo’, da ambição desmedida, do ter que ter porque todo o mundo tem, já vi muito boa gente fazer coisas, em termos profissionais, que fariam os defensores da meritocracia séria dar voltas no túmulo.

  1. A competição deixou de ser saudável. Para esta geração, a competição não é mais sobre cada um se superar, mas sim superar o outro. E importa pouco como essa superação é conseguida: não importa se temos que passar por cima de pessoas, se temos que tirar o tapete ao colega do lado que sempre nos ajudou, se mentimos ao nosso chefe, se mentimos ao cliente. Para ser o melhor, para ganhar mais, vale tudo;
  2. Cada um acredita que merece sempre mais, desde o início. Já vi estagiários chegando e pedindo um salário de diretor, porque tem “formação superior em várias áreas” e sabe tudo sobre a vida. Ainda que não tenha qualquer experiência de trabalho. Começar por baixo e ir merecendo um salário melhor não é uma coisa óbvia para essas pessoas: a ideia nem faz sentido;
  3. A lealdade acabou. Lembra aquela coisa de a gente lembrar do nosso primeiro chefe, ou daquele que nos abriu portas? De a gente respeitar e entender que desafios e oportunidades nos foram dadas e agir em conformidade, nomeadamente sendo sempre verdadeiros e leais para com aqueles com quem trabalhamos? Pois é, acabou. Agora, eu não posso me sentir infeliz no trabalho por mais de três dias; me indigno se o meu chefe não faz as coisas como eu acho que deve fazer; acredito sempre que sei mais do que quem é meu superior – e sim, às vezes é verdade – e não me importo de mentir para ele na hora de ir embora: “Ah, sabe? Vou pensar na minha vida, não sei se essa área é para mim…” Quando você dá conta, a pessoa está na concorrência, num trabalho que muitas vezes arranjou quando ainda trabalhava para você. É um problema, isso? Em si, não. Mas não seria mais correcto falar: “Olha, eu gostei de trabalhar com você mas quero experimentar outra coisa”?
  4. A prepotência é gritante. Outro dia soube de uma situação hilária. O diretor de uma menina perguntou para ela sobre três tarefas que tinha pedido para ela fazer há uns dois dias. Das três vezes ela respondeu que não tinha tido tempo. À terceira, o cara perdeu a paciência e disse algo como “mas você nunca tem tempo para trabalhar?” e voltou costas. Pessoa com bom senso fica triste e manda bala no que tem para fazer. Essa não. Levantou junto, entrou no gabinete do diretor sem pedir permissão e começou gritando com ele dizendo que ele não tinha “o direito de falar assim, e que se tinha algo para lhe dizer, que dissesse logo”. A história não só é verdadeira como não é única. Perdemos o senso de hierarquia e de respeito.
  5. A ambição, quando descontrolada, (“Desejo veemente de poder ou do que dá superioridade” in Dicionário Priberam) é também conhecida por avidez ou cobiça. Muitas vezes, faz você perder a noção entre bem e mal. Entre correto e errado. E tantas vezes quanto essas, ela vai acabar por ser prejudicial, em algum ponto do caminho. Porque, sabe uma coisa, você da geração Y? A famosa expressão what goes around comes around, também conhecida por karma (no seu significado budista) é usada ao longo desses séculos todos por alguma razão: é que ela realmente diz a verdade. Mantenha isso em mente.


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