A importância dos fundamentais

Margarida Vaqueiro Lopes

07 Março 2016 | 15h18

Sei que já falei aqui do que penso sobre as novas gerações e a forma como elas vêem a vida: todo o mundo concentrado em como ganhar mais, ter mais, mostrar mais, comprar mais. Muito poucos preocupados com ser mais: ser mais correto, ser melhor, ser mais amigo, mais leal, mais importante na vida de quem os rodeia. Todo o mundo preocupado consigo mesmo e esquecendo que esse mundo, na verdade, é feito de gente e dessas interações tão necessárias a uma vida mais cheia de amor, de afeto, de relações humanas.

 

Essa manhã, numa viagem rápida que fiz ali à capital da Espanha a trabalho, conheci uma pessoa incrível: mãe de duas crianças pequenas, ela divide o seu tempo entre Portugal e Espanha – e uns outros países do mundo onde a empresa onde trabalha tem presença – em várias cidades.

 


Quando perguntei onde vivia a família, ela respondeu como se fosse óbvio: em Portugal. “Madrid é muito chato para um homem como o meu marido que, ainda por cima, adora desportos náuticos. É ótimo para uma mulher, porque tem lojas, e movida, mas pouco mais, não é?”, terminou com uma gargalhada.

Perguntei como fazia com os filhos, tão pequenos, e mais uma vez ela falou como se fosse óbvio: “tento não passar mais do que três noites fora de casa, mesmo que isso implique duas vezes por semana sair de casa às 4h30 para pegar o avião”. Continuei olhando para ela. “Quando chego, a meio da semana, ainda consigo ir a tempo de dar banho, dar jantar e deitá-los. E deixo sempre pronta a roupa para eles usarem durante os três dias em que estou fora”, terminou com um sorriso.

Vendo meu ar de incredulidade, ela disse: “Sabes? Eu sou uma privilegiada. Eu adoro o que faço, e vejo os meus filhos quatro dias por semanas (os finais de semana são sagrados). Há pessoas – enfermeiros, médicos, tarefeiros, empregados de limpeza – que trabalham ao lado de casa e que provavelmente estão menos com a família do que eu! Sou recomepnsada pelo meu trabalho, estou com a família e adoro o que faço…além disso, em quatro pessoas, eu sou a única que me sacrifico. Acho mais do que justo”, rematou.

As olheiras dela me mostraram que apesar de o sorriso não a abandonar, ela realmente luta e se cansa para conseguir ser feliz. Mesmo que isso implique mais esforço da parte dela, mais dinheiro gasto em oisas que pessoas acham ridículas…E sabem? De repente, de alguma forma, a minha fé na humanidade renasceu. E me pareceu que talvez, talvez seja possível, afinal, ter o coração no lugar certo, no meio desse mundo onde niguém parece querer sacrificar-se pelo outro.

Em que a gente reclama por tudo e por nada – em Portugal somos exímios na arte de reclamar e nada fazer para mudar a nossa vida – e em que a inveja nunca é branca.

Hoje, essa menina me inspirou de uma forma que há muitos meses ninguém conseguia fazer. E tenho que falar para vocês: hoje em dia, isso vale mais que muito salário!