A vitória da democracia

A vitória da democracia

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Outubro 2018 | 10h19

Portugal assistiu aos resultados das eleições no Brasil com algum espanto e outra metade de encolher de ombros. Depois das vitórias de Trump, Orbán ou Salvini, há um pedaço de mundo que já entendeu que o problema é muito mais profundo do que parece e que Bolsonaro tinha uma real chance de ser o escolhido de grande parte da população.

A vitória de Bolsonoro no primeiro turno – com um resultado que tornará muito difícil, ainda que não impossível – uma derrota no segundo turno, dia 28, levantou uma onda de indignação por Portugal inteiro, que também já tinha aderido à campanha #elenão, mesmo que não votasse nas eleições.

Sempre tenho algum receio dessas campanhas contra algo mas sem solução: certo, você é contra Bolsonaro mas é a favor de quem? De quê? Daquilo que acompanhei da campanha desse ano, o mais assustador foi a falta de debate sério: de um lado, Bolsonaro defendendo o indefensável num país democrático. Do outro, pessoas atacando Bolsonaro. Não consegui encontrar propostas de governo claras em qualquer um dos candidatos – exceção para Ciro Gomes, que tentou várias vezes botar alguns dados concretos em discussão – que se cansaram em debates pseudo-intelectuais mas sobretudo etéreos que não respondem às necessidades das pessoas mas poderão fazê-las votar com as emoções.

Fui falando com algumas pessoas que à pergunta “mas porque você vai voltar Bolsonaro”, me respondiam “porque eu jamais votaria PT”. Como se fosse óbvio, e como se não houvesse outros dez candidatos correndo ao Planalto. “Ah, mas os outros não têm hipótese”. Bom, essa é a parte legal da democracia: é você, eleitor, quem dá ou quem tira hipóteses a cada candidato. E claro que todos os candidatos têm problemas, mas eu acredito que daria para encontrar um que não defendesse publicamente a ditadura ou que fizesse a apologia da violência. Ou um que não fosse do PT.


Para entender essas eleições seria preciso entender, primeiro, o Brasil. Para nós portugueses, que vivemos num pedaço de terra com 11 milhões de habitantes, isso fica bem complexo. Temos dificuldade em entender as diferenças enormes com que vocês se debatem todos os dias, e esquecemos facilmente que o Brasil não é apenas São Paulo, o Rio de Janeiro ou Santa Catarina. Muitos portugueses nunca estiveram fora dos resorts de Natal ou Fortaleza. Para entender essas eleições, é preciso olhar para o que tem sido a história do mundo, mas sobretudo a do Brasil e da sua jovem democracia – porque é isso também que nos faz olhar para o futuro com preocupação acrescida. Uma democracia pouco madura tem menos capacidade para lidar com as possíveis consequências de uma vitória de Jair Bolsonaro. E tem também menos tolerância para os erros – e foram muitos – dos governos petistas dos últimos anos, e para os solavancos de uma justiça por vezes erráticas.

Agora, adianta ficar culpando quem votou em Bolsonaro? Não! Adianta ficar acusando Bolsonaro de ser fascista? Não. Adianta encher as redes sociais de comentários depreciativos contra a liberdade de quem votou nele? Não! A democracia existe para que cada um escolha, precisamente, quem quiser escolher. E quem votou em Bolsonaro é livre de o fazer precisamente porque nos anos 1980 o Brasil derrotou a ditadura militar.

Por isso, Brasil, essa é a hora de arregaçar as mangas e trabalhar: há dois candidatos que vocês podem escolher para ocupar o Planalto durante os próximos quatro anos. Um deles é o candidato da extrema direita, que concorda com a ditadura, que odeia os gays, que defende a violência, que é racista, xenófobo, liberal – isso são factos. Tudo isso ele defende publicamente.

Do outro lado, vocês têm um cara de dentro do sistema, que já foi ministro, que representa o PT – o mesmo que tem Lula acusado de vários crimes – e que não vai surpreender muito. Isso significa, entre outras coisas, que ele deverá governar protegendo os mais desfavorecidos e primando pela liberdade da população. Pelo menos, foi isso que aconteceu governos petistas. Vai cometer crimes de corrupção? Não sei. É possível, tendo em conta a sua história política. Poderia haver outras opções, mas foram esses os candidatos ditados pelo primeiro turno.

Então, dia 28 vencerá aquele que a maioria de vocês decidir. E todo o mundo viverá com a consequência dessa decisão – daquele momentinho em que você carregar no botão. Daí que não tome essa decisão de ânimo leve. Porque o que você decidir, valerá para todo o mundo – para quem é rico, para quem é pobre. Para quem pode comprar carro zero e para quem não tem comida para alimentar os filhos. Para quem paga colégio privado e para quem vê o filho morrer com bala perdida. Para quem tem filhos gays e heterossexuais. Para casais brancos ou negros. Para quem vive no nordeste, no sul ou entre os indígenas da Amazônia. A sua decisão influencia a vida daquele cara lá do outro estado. Então vai e vota. Mas vota com responsabilidade e com todo esse mundo na sua cabeça.

E se alegra, porque a democracia vai fazer com que o candidato mais votado ganhe e chegue à presidência. E é essa a grande magia da democracia: a liberdade de escolha. Essa é uma lição que em Portugal a gente aprendeu pouco antes do Brasil (em 1974), mas que temos tentado guardar bem guardada. É essa a melhor experiência que podemos partilhar com vocês.

 

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