Brasileiras criam página de Instagram para denunciar assédio ou discriminação

Brasileiras criam página de Instagram para denunciar assédio ou discriminação

Margarida Vaqueiro Lopes

22 de julho de 2020 | 08h57

Em apenas uma semana a página juntou mais de seis mil seguidores. Principais relatos são de Portugal, mas chegam de todos os pontos do mundo

Quando bati de frente com a página @brasileirasnaosecalam – por sugestão de um amigo que várias vezes me ouviu falar da discriminação de que amigas minhas brasileiras vivendo em Portugal sofrem –, ela tinha apenas umas centenas de seguidores. Acabara de ser criada, mas em todas as poucas mensagens que já lá estavam, eu conseguia ouvir a voz de uma amiga.

 

São relatos honestos e anónimos de mulheres brasileiras vivendo em vários lugares do mundo, onde contam suas histórias de luta contra os estereótipos. Como portuguesa, me envergonho de todas as vezes que encontro um relato feito de alguma vivendo em Portugal. Como Humana, me envergonho com qualquer mensagem escrita de qualquer outro país – e já chegaram relatos de brasileiras que vivem no Canadá, nos EUA, na Suíça, na República Checa…

Mais do que denunciar esses casos, essa página pretende ser um aviso para quem ainda não entendeu que há um problema sério para resolver, e que há pessoas que sofrem bastante no seu dia-a-dia por comentários maldosos, tratamento desrespeitoso e ilegalidades várias – em Portugal, uma cantada já pode ser considerada crime. A lei, apesar de parecer meio esdrúxula, tem alguma razão de ser: há cantadas que traumatizam, e há comportamentos recorrentes que provocam danos muito graves na saúde mental das pessoas.

E vai mais longe: as autoras da página pedem também ajuda a advogadas e psicólogas que possam prestar assistência a todas as mulheres que queiram tomar medidas sobre os assédios que vivem nos países de residência.

Várias vezes tenho essa briga sobre o que os portugueses, em particular, dizem das mulheres brasileiras. E muitas vezes oiço “ah, ‘tá, mas no Brasil também todo o mundo fala que a mulher portuguesa tem bigode”.  É verdade, e é absurdo. A diferença é que durante o tempo em que vivi no Brasil – e de todas as vezes que regressei, depois disso, muitas delas viajando sozinha – nunca me senti invadida na minha intimidade mais do que aqui. Ninguém tirou conclusões sobre minhas competências, minha vida íntima ou minhas intenções simplesmente porque o meu RG diz ‘portuguesa’. E isso faz toda a diferença.

A página @brasileirasnaosecalam é uma boa ferramenta de combate social, séria, sem tentativa de aproveitamento político ou o que seja. É uma ajuda para todas as que precisam, uma forma de mostrar que as mulheres brasileiras não estão sozinhas e que podem e devem pedir ajuda.

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