Brasileiro não é malandro, portuguesa não tem bigode

Brasileiro não é malandro, portuguesa não tem bigode

Margarida Vaqueiro Lopes

07 de setembro de 2021 | 13h40

No outro dia, precisei chamar o técnico da televisão por cabo lá em casa. Ele chegou num sábado ao final da manhã, já pedindo desculpas por ter antecipado a intervenção por uma hora – nem entendi o pedido de desculpa, porque eu precisava da televisão e da internet funcionando, e aproveitei para recordar que assim teríamos ambos um resto de sábado.

Ele ficou em silêncio, trabalhando afincadamente. Minha filha de 5 anos entrou na sala e falou “bom dia”. Quando ele respondeu, ela perguntou: “você é brasileiro?”. Ele respondeu que sim, e continuou trabalhando. Dava para sentir a tensão daquele momento, como se nada de legal pudesse vir depois dessa pergunta. Aí, ela fala, enquanto se aproxima: “A sério? Eu adooooooro o Brasil. Queria muito ser brasileira”.

Deixei os dois conversando sobre vídeos do Youtube – ele indicando o que ela não devia ver, sobretudo -, sobre as diferenças entre o português dos dois países, sobre desenho animado e comida tradicional. No final, o moço me agradeceu pela minha filha e foi embora. Não entendi imediatamente o agradecimento, mas não precisei muito tempo.

Lembrei esse episódio – do qual saí uma mãe orgulhosa por saber que para minha filha é aboslutamente irrelevante de onde vem cada pessoa, qual a cor da sua pele, ou a forma como fala – quando no outro dia olhei uns dados sobre a evolução do número de denúncias de discriminação racial em Portugal. E fiquei absolutamente escandalizada com o meu próprio país, pelo qual não posso pedir desculpa, mas que precisa de nos obrigar a todos a pensar sobre o assunto. 

Uma investigação da Universidade de Coimbra dava conta de que entre 2006 e 2016, as denúncias de discriminação no país se desdobravam em vários fatores, e que 44% delas aconteciam com base na nacionalidade, principalmente brasileira, ucraniana, romena e moldava. Um relatório da Casa do Brasil, em Lisboa, que foi liberado no final do ano passado, mostrava que 86% dos imigrantes brasileiros em Portugal já sofreu preconceiro contra a sua nacionalidade. 

Fonte: Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial

E isso são os casos que a gente sabe. Porque a maioria deles, creio, nem sequer termina em denúncia. São pequenas agressões feitas até por crianças, na escola – uma reportagem da Folha de São Paulo, publicada em maio desse ano, revelava que falar português do Brasil rendia nota menor e discriminação em todos os níveis de ensino.

Vale lembrar que os brasileiros são a maior comunidade imigrante em Portugal, representando oficialmente 7% da população – no entanto, é possível que esse número esteja mais perto dos 10%. 

E que os brasileiros estão também entre os que mais vistos gold pediram nos últimos anos – uma autorização de residência por via de investimento: ou com a transferência de capital para um banco português, através da compra de um imóvel (cujo valor tem de ficar entre os 350 mil euros e os 500 mil euros (cerca de 2 milhões e 3 milhões de reais, respetivamente); ou para a criação de postos de trabalho.

Se a História podia servir para explicar as imagens preconcebidas que Portugal foi fazendo dos brasileiros – que são tão reais quanto as que os brasileiros têm sobre todos os portugueses serem donos de padaria ou todas as mulheres portuguesas serem bigodudas – e que no limite têm um tempo e um lugar próprios, seria importante que a História recente fizesse o seu trabalho, também: viver num mundo globalizado implica que as pessoas se movam. 

Que escolham outros países para viver – como aliás, os portugueses fazem desde lá dos Descobrimentos. Que se integrem, que entendam a culturas umas das outras, que se respeitem. E parte realmente de cada um de nós – da forma como falamos, como interagimos, como educamos os nossos filhos, como nos comportamos, como comentamos… – alterar isso.

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