Cinco diferenças na vida da classe média no Brasil e na Europa

Margarida Vaqueiro Lopes

11 Janeiro 2016 | 09h39

Um texto da jornalista Marjorie Rodrigues, publicado na semana passada, falava das cinco coisas que um brasileiro deve considerar antes de ir trabalhar no exterior. Os comentários ao referido texto foram profícuos em disparates e considerações bastante acertadas. Uma dela me chamou bastante a atenção: o fato de ser totalmente diferente pertencer à classe média no Brasil ou na Europa.

Me lembro de quando vivia em São Paulo – o euro estava valendo 3 reais e a inflação brasileira ainda não estava no ridículo patamar estratosférico de hoje – e poderia ser considerada uma pessoa de classe média, que se dava com várias pessoas de classe média. Em Portugal, também sou considerada uma pessoa de classe média, mais que não seja porque os salários são tão baixos que já é classe média quem ganhe pouco acima do salário mínimo.

E aí reside uma das grandes diferenças entre Brasil e Europa: a classe média europeia não tem como garantir, monetariamente falando, várias mordomias que a classe média brasileira toma por garantidas. Selecionei cinco coisas que me chamaram a atenção quando vivia no Brasil e sem as quais vivo aqui. Deverá haver bem mais, portanto, sintam-se à vontade para partilhar.

1. Diarista


Ao contrário do que se pensa, diarista é quase um luxo na Europa. Enquanto no Brasil quase todo o mundo tem uma – nem que seja de duas em duas semanas – aqui não é assim tão linear que uma pessoa que ganha razoavelmente tenha uma diarista. Qualquer empregada doméstica cobra entre 6,5 a 8 euros – preços de Lisboa – por hora. Isso significa que se você tiver uma durante um dia, ou seja, 8h por semana, isso pesará em entre 208 e 256 euros por mês na sua conta. Um salário médio em Portugal, atualmente, é de 530 euros – aumentou no início desse ano. Faça as contas né? A gente aqui se acostuma a fazer a faxina da própria casa, seja à noite ou durante os finais de semana. Já dá para uns jantares fora. Se falarmos de uma pessoa que vá todos os dias, o dia inteiro, bom..é fazer as contas.

2. Porteiro

Embora aí em SP grande parte dos prédios ter um porteiro, muitas vezes durante 24 horas por dias, sete dias por semana, essa é uma coisa que aqui você só encontra em prédios já considerados de classe alta. Estranho? Pois é, mas é que pagar a uma porteira também demasiado no nosso orçamento, e quando queremos alugar ou comprar uma casa, olhamos para todos os custos e esse não é uma prioridade. No entanto, também não é um problema… no fundo é quase a moeda de troca por podermos viver num país em que a maioria das casas NÃO tem cerca elétrica.

3. Supermercado

Sabe aqueles carinhas que ajudam você a colocar as compras na sacola e depois carregam tudo para o seu carro ou levam a casa? Pois é, aqui não tem isso, não. Nós mesmo ensacamos as nossas compras e as levamos para casa. As entregas ao domicílio são quase todas pagas e é realmente um luxo você poder pagar por isso.

4. Almoços fora

Esse foi um hábito que mudou muito recentemente – obrigada, crise! – para qualquer pessoa de classe média: os almoços num restaurante são um luxo, e a marmita não é coisa de pobre. Assim, em Portugal cada vez mais gente de classe média leva almoço para o trabalho e não gasta aquela média de 7 euros por refeição – no final do mês a poupança é de cerca de 140 euros. Quem almoça todos os dias fora, atualmente, é considerado de classe alta. A verdade é que vi isso mudando no Brasil, da última vez que aí estive, mas em proporções bastante menores que aquelas em que aconteceu em Portugal. Terá sido só impressão?

5.       Poupança e pagamentos à vista

Classe média europeia poupa dinheiro. E não compra nada parcelado – a não ser carros e eventualmente um ou outro eletrodoméstico mais caro. Não há roupa no cartão, sapato a 9,90 por mês, nada disso. Quando há dinheiro disponível, a gente compra. Quando não há, não se compra. E muitas vezes, a gente compra menos para poupar mais. A poupança se torna relevante sobretudo quando passamos os 30 anos, e damos conta de que é importante ter uma almofada financeira para imprevistos ou mesmo para conseguirmos chegar a velhice com uma aposentadoria mais confortável. Como aqui quase nada se compra parcelado, a gente também não viaja a menos que tenhamos dinheiro para isso – por outro lado, temos as companhias aéreas low-cost que nos permitem ir a Londres ou Paris por pouco mais do que 50 euros, ida e volta.

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