Copa do Mundo: chegou a hora de esquecer tudo

Copa do Mundo: chegou a hora de esquecer tudo

Margarida Vaqueiro Lopes

18 Junho 2018 | 08h03

©Reuters

Acontece de dois em dois anos, e pode variar de intensidade consoante os protagonistas da história. Mas geralmente, tem sempre muito combustível por onde arder: chegou a Copa do Mundo [que vai intercalando com a Copa da Europa] e os dias em que Portugal esquece totalmente tudo o que sejam problemas para se concentrar na potencial alegria trazida pela seleção nacional.

O primeiro jogo da ‘seleção das quinas’ foi na sexta-feira, 15 de junho, às 19h, e vocês deveriam ter visto Lisboa uma hora antes: ao contrário de uma habitual sexta-feira cheia de trânsito, confusões e gritos de indignação pelo tempo que se demora no trajeto, às 18h as  estradas estavam vazias, as pessoas corriam para os supermercados para tentar comprar cervejas de última hora, os bairros estavam vazios de carros e os botecos fervilhantes de gente.

Portugal empatou frente à Espanha, nosso arqui-inimigo – uma espécie de Brasil-Argentina aqui do velho continente – e levou o país ao rubro. Cristiano Ronaldo foi A seleção nacional, marcando os três gols de Portugal numa partida imprópria para pessoas com problemas cardíacos. O sucesso do melhor jogador do mundo foi bem descrito por toda a imprensa internacional durante todo o final de semana, numa altura em que se celebra outra coisa no país: passou um ano desde os incêndios de Pedrogão Grande, aquele fogo gigante que tirou a vida a 64 pessoas e que levou uma semana para ser extinto. E apesar de todas as reportagens mostrando que há sinalização (!!) que continua chamuscada, que há novas florestas para limpar, que há gente que só há uma semana (!!!) conseguiu tomar um duche de chuveiro, que mais de metade das pessoas continuam sem casas (!!!!!), que o Estado se recusou a pagar radiadores e fogões para pessoas vivendo em atrelados num dos invernos mais longos do país porque “as contas do ano fecharam”, a verdade é que ninguém quis saber. As gentes do interior centro do país continuam tão abandonadas como há um ano, com um monte de boas intenções sendo escritas e a total desresponsabilização dos nossos governantes. Esse ano, Pedrogão provavelmente não arderá – não tem mais por onde arder. Mas não se enganem: haverá fogos. Com consequências igualmente nefastas, embora esperamos que menos mortais. As pessoas continuarão esquecidas nas suas vidas, recebendo casas de um cômodo em troca da casa de três que tinham antes “porque não precisam de mais”, decidem os políticos sentados em Lisboa. E na televisão, Ronaldo continuará marcando gols (esperamos!) e provocando a alegria generalizada de um país que ficará dormente até a seleção terminar sua participação no Campeonato do Mundo.


E depois disso, como o verão chegou, as praias encher-se-ão de gente, os parques de piqueniques, e todos voltaremos às nossas vidas sem querer saber daquelas pessoas para quem já mandámos algum dinheiro para descansar nossa consciência – e até fizemos um post no Facebook sobre isso – e que continuarão tão abandonadas quanto antes.

Ah, Portugal.

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