Covid-19: A ciência e a solidariedade nos salvarão

Margarida Vaqueiro Lopes

05 de abril de 2020 | 10h44

Portugueses patenteiam ventilador de emergência em nome da humanidade

Desde que essa pandemia surgiu que o mundo todo se reorganizou muito rapidamente: aprendemos a trabalhar a partir de casa – quem pode fazê-lo; encontrámos alternativas aos jantares, almoços, festas, idas ao cinema, ao teatro a shows diversos. Em pouco mais de um mês, assistimos a mudanças assustadoras em praticamente todos os países no mundo, unidos contra um inimigo comum: esse vírus altamente contagioso que galgou fronteiras e já matou milhares de pessoas em redor do globo.

Sem surpresa, e como já escrevi aqui, esse vírus vai atingir os mais pobres de forma muito mais dramática: são eles que não conseguem ter condições de isolamento, cujos sistemas imunitários por norma já são mais fracos, que não têm possibilidade de, em países como os EUA, aceder ao sistema de saúde ou em países como o Brasil, sequer de terem uma casa em que se isolar. Aliás, países com sistemas de saúde mais fracos ou já em esforço, vão ter muita dificuldade em atender todo o mundo: não só porque faltam ventiladores, mas porque faltam médicos e enfermeiros intensivistas que consigam utilizar os equipamentos.

A economia sofrerá horrores com todas as medidas que já estão a ser tomadas, já há demasiadas pessoas passando fome e não conseguindo passar as contas em muitos lugares. A tragédia será inevitável, com demasiados mortos para contar e com imensas sequelas com que vamos ter que lidar. Mas no meio de tudo, eis que surge um pouquinho de esperança.

Semana passada, um grupo de cientistas, estudantes e engenheiros portugueses anunciou que estava pronto, para fazer uma prova de conceito, um ventilador de emergência que poderá servir para aliviar hospitais e clínicas que estejam com falta de ventiladores de cuidados intensivos; e que o mesmo poderá ser solução em lugares onde não é possível esperar nem pagar por unidades de cuidados intensivos como as utilizadas atualmente. Escrevi sobre esse assunto na EXAME Portugal – pode ler o texto aqui – depois de falar com alguns dos autores do projeto.

Para além da esperança inerente a um projeto dessa envergadura, o que mais me animou nesse caso foi o facto de ele unir pessoas tão diferentes [médicos em hospitais, professores em universidades, investigadores em laboratórios, estudantes e engenheiros de Fórmula 1], em redor de um objetivo comum: salvar vidas. O ventilador foi patenteado em nome da humanidade, e está blindado a que possa ser comercializado, evitando que alguém possa lucrar com ele. O fato de todos terem dedicado do seu tempo e conhecimento de forma gratuita, de usarem seus contatos para fazer o melhor produto possível, sem ganhar outra coisa com isso que não a sensação de ter ajudado o mundo nessa época tão difícil, me enche de alegria.

Afinal, há sempre algo que podemos aprender em períodos trágicos da nossa história. Esse exemplo em particular nos dá dois ensinamentos: 1) a ciência e o conhecimento devem ser sempre valorizados, porque são eles que nos salvam em tempos de emergência, mesmo que haja quem adore nega-los; 2) o instinto de sobrevivência nos leva a nos unirmos, porque sabemos, bem lá no fundo, que juntos e cooperantes somos mais fortes.

Mantenham-se em casa, seguros e saudáveis. Os tempos que aí vêm ainda vão ser duros. Mas estaremos juntos nessa luta.

 

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