Covid-19: Um mundo parado

Covid-19: Um mundo parado

Margarida Vaqueiro Lopes

20 de março de 2020 | 09h41

Creio que a capa da The Economist essa semana é a imagem certa daquilo que estamos vivendo: um planeta totalmente fechado tentando apenas sobreviver a um inimigo invisível. O aviso é claro e é o único que poderá nos salvar – por favor, fiquem em casa.

 

Capa da revista The Economist dessa semana. D.R.

A forma como tudo aconteceu é digna de um guião de filme de ficção científica. Primeiro as notícias vêm da China, logo no início do ano, o vírus chega à Europa cerca de um mês depois e atravessa os oceanos à mesma velocidade com que todos nós nos habituámos a viajar nesses dias. São milhares e milhares de infetados em todo o mundo, com a organização mundial de saúde (OMS) a mudar as suas recomendações quase dia-a-dia, consoante a evolução galopante de uma doença que nos pousou nos braços nem sabemos bem como.

Enquanto se sabe muito pouco sobre esse vírus que já matou milhares de pessoas – a maior parte delas na China, logo seguida de Itália, onde o surto se tem revelado uma verdadeira tragédia – as ordens das autoridades são claras e parecem estar dando resultado onde foram seguidas pelas populações: a melhor forma de combater essa pandemia é ficando em casa. Lave muito bem as suas mãos, várias vezes ao dia; tussa e espirre para o cotovelo ou para um lenço que deita fora; desinfete regularmente as superfícies onde toca mais vezes e FIQUE EM CASA.

Num país com a dimensão do Brasil e com todas as usas diferenças socio-econômicas, sabemos que recomendações como essas são ainda mais difíceis de gerir: como é que a gente diz para a D. Nazaré que ela não pode mais trabalhar como diarista, quando toda a família depende do seu salário? Ou como a gente explica para o senhor Danilo que não tem como continuar vendendo no mercado, mesmo que isso signifique que ele vai ficar sem rendimento esse mês? Ou pior, como se protegem os milhares de sem-abrigo que habitam as ruas de grandes metrópoles? Lamentavelmente, não tenho respostas – aqui em Portugal estamos ainda tentando descobrir como vamos conseguir sobreviver, em termos econômicos e sociais a uma tragédia sem igual. E nós até temos um país relativamente pequeno, com um sistema social que geralmente funciona (ainda que tenha bastante coisas a melhorar).

Responsabilidade social

Li recentemente que uma das primeiras pessoas que morreu, no Brasil, devido à Covid-19, foi uma empregada doméstica que foi infetada pela patroa, que nunca lhe terá dito que ela estava em risco, nem evitou que ela fosse trabalhar. Gente, vamos ter noção? Essa doença é perigosa para pessoas cujo sistema imunitário está débil – e nem sempre as pessoas de baixa renda são as mais saudáveis, por motivos de cansaço extremo, má alimentação e afins. Além disso, o sistema de saúde não vai conseguir dar conta de todos os casos críticos que vão aparecer. É FUNDAMENTAL que quem tem mais informação e dois dedos de inteligência proteja os outros.

Se você tem uma empregada, diga para ela não ir trabalhar. Se você não está perdendo rendimentos durante essa quarentena voluntária que todos nós devemos estar fazendo, por favor, continue a lhe pagar o salário ara que ela não fique aflita e não vá a correr trabalhar noutro lugar onde possa ficar em risco. Se você não perdeu rendimentos, porque consegue continuar a trabalhar de casa, ou simplesmente porque tem possibilidades financeiras, ou porque sua empresa continua lhe pagando, por favor, se lembre de todos os que não têm sua sorte, e para quem esse vírus assusta menos – embora não devesse – do que a perspectiva de ficar sem dinheiro algum para se alimentar ou às suas famílias: encomende comida sempre que possível; prefira os produtos locais; ajude os negócios pequenos e tradicionais; continue pagando para o jardineiro, a diarista, a personal trainer ou outros serviços que geralmente você consumia, mesmo que agora não os use.

É uma questão de responsabilidade social. De vida em comunidade.

O problema de sair na rua

Muita gente, aqui na Europa, começou a entrar em pânico com medo de pegar o novo coronavírus. Essa, aliás, tem sido a principal razão para as pessoas permanecerem em casa, terem tirado os filhos da escola mesmo antes de as autoridades decidirem que esse era o caminho certo, e se isolarem totalmente do resto da família e amigos. No limite, ótimo!

Sobretudo porque temos que proteger os mais velhos e os doentes crónicos ou imunodeprimidos, e realmente o isolamento é a melhor forma de o fazer. Mas por favor, entenda uma coisa: o problema de você sair na rua não é você, adulto saudável, sem qualquer pré-condição clínica e com uma idade entre os 20 e os 50 anos, pegar a Covid-19. Possivelmente, todos nós vamos ficar infetados em alguma altura, e em 80% dos casos será tranquilo. Muita gente nem terá sintomas, outros terão sintomas de gripe, apenas, como febre que baixa com paracetamol e algumas dores no corpo. Então, o problema de você sair na rua e fazer uma vida normal é que você pode, realmente, contagiar outros, mesmo que esteja assintomático. E os outros, se forem pessoas com pré-condições ou se forem pessoas idosas, podem realmente ficar muito doentes. E eventualmente morrer.

Essa é a razão pela qual os netos não devem visitar os avós, muito menos ficar com eles se os pais estiverem trabalhando. É a mesma razão pela qual sua empregada não deve estar em sua casa – sobretudo porque ela vai pegar um monte de transportes públicos lotados com pessoas que são potenciais focos de contágio. É por essa razão que não deve convidar os seus amigos para jantar ou para uma festa: porque você pode contagiá-los! No final, é por amor que a gente deve ficar isolados e em casa. Por gostarmos demasiado das pessoas e não querermos fazer-lhes mal.

Se conseguirmos quebrar as cadeias de contágio, evitaremos a sobrelotação dos serviços de saúde e conseguiremos reduzir o número de mortos. É só isso que importa agora – mesmo que o vosso presidente ache que tudo isso é bobagem. Não é. Perguntem para a Itália!

Menos compras, por favor

É por amor também que NÃO DEVEMOS comprar todas as embalagens de álcool, desinfetante e papel higiênico que encontrarmos no mercado. Tá? Porque assim, vale de muito pouco você estar super desinfetado se o seu vizinho não consegue comprar sequer um frasco de detergente ou de álcool, certo?

Também é importante se lembrar que nem todo o mundo tem dinheiro para comprar os produtos que começam a faltar com os preços que estão já começando a subir. Então SEJA RESPONSÁVEL e não aumente as dificuldades de tanto cidadão brasileiro que já enfrenta, mesmo sem pandemia, muitos problemas de dinheiro mesmo sem uma pandemia. Pode ser? Compre apenas o que vai consumir durante os próximos dias; evite sair de casa; mantenha a distância de segurança (1,5 a 2 metros) quando precisar de o fazer; ensine as suas crianças a lavar bem as mãos e explique por que não podem ter visitas; abuse das vídeo-conferências; fique em casa. Fique em casa. Sejam, por favor, mais rápidos do que nós a entender que agora não é hora para viagens, para visitas sociais, para fotografias super incríveis no Instagram – a menos que tenham sido tiradas antes dessa pandemia. Agora é hora de agirmos, uma vez na vida, como humanos que somos: ficando em casa para protegermos os outros.

Vamos lá? Estamos juntos!

 

 

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