Descobrindo os Açores – São Miguel

Descobrindo os Açores – São Miguel

Margarida Vaqueiro Lopes

20 de maio de 2019 | 20h19

Se você perguntar para um português, não vai ser difícil achar quem ainda não conheça o arquipélago dos Açores. São nove ilhas vulcânicas que ficam bem no meio do caminho entre Lisboa e Nova Iorque, e que nos últimos anos têm sido regularmente apontadas como um destino obrigatório para quem gosta de conhecer o mundo. No entanto, a gente acha que essa Região Autónoma está tão longe que até nos esquecemos de marcar viagem para um dos lugares mais bonitos do nosso país.

Ao longo dos anos, tive o privilégio de conhecer cinco das nove ilhas – Corvo e Flores, das mais pequenas, Faial, Terceira e São Miguel. Essa última é a maior e a mais desenvolvida de todo o arquipélago, sendo também aquela onde é mais fácil chegar por ser servida pelo aeroporto internacional de Ponta Delgada.

Se ainda não conhece nada dos Açores, pode começar por São Miguel, mesmo. Se tiver tempo, aproveite os voos que saem de Lisboa operados pela SATA (a companhia aérea açoriana) e que permitem que visite duas ilhas pagando apenas uma passagem. Hoje vou falar um pouquinho de São Miguel, porque foi onde estive recentemente e é aquela que já visitei várias vezes.

Lagoa das Sete Cidades. Dez minutos antes estava fazendo sol…

Em qualquer guia você vai encontrar informação sobre os lugares imperdíveis da ilha. Como todas elas são de origem vulcânica, é possível ver uma quantidade incrível de lagoas naturais, de formações rochosas com estranhas formas, praias onde só é possível chegar de barco e areias negras em redor de toda a ilha. Você vai se encantar com a Lagoa das Sete Cidades, a Lagoa do Fogo ou a Lagoa das Furnas, se perder de vista nos pastos verdejantes e nas paisagens da Caloura, se maravilhar com o salto do Cabrito ou com a quantidade de vacas (super felizes) que vai encontrar pelo caminho. Não deixe de passar em Rabo de Peixe e descobrir as obras de artistas contemporâneos como Vhils plasmados nas paredes dos edifícios.

Obra de Vhils em Rabo de Peixe, uma comunidade piscatória

Visitar São Miguel implica usar carro, porque não há outra forma de se locomover na ilha.

E se não quiser, puder ou souber dirigir, não se preocupe: há muitas unidades hoteleiras que providenciam serviços de transfer pela ilha, ou mesmo motoristas privados – tudo depende de quanto estiver disposto a pagar.

O facto de ser uma ilha bem no meio do Atlântico significa que o tempo é incerto. Já visitei os Açores várias vezes em momentos diferentes do ano e nos mesmos meses, mas nunca encontrei um padrão meteorológico. Isso só não é um problema porque São Miguel tem várias alternativas para essas loucuras climáticas: no verão (geralmente ele acontece entre maio e setembro, mas em 2018 foi mais entre junho e novembro) é possível encontrar dias quentes e pegar um sol na praia, passear de barco para ver baleias e golfinhos, fazer mergulho ou pesca submarina, experimentar todos os restaurantes com mesas na rua e descobrir a gastronomia da ilha. 

E dez minutos depois, as nuvens voltaram a abandonar o céu e a Lagoa das Sete Cidades ficou ainda mais linda.

Se por acaso chover (e a probabilidade de isso acontecer é de uns 50% quase sempre), experimente tomar uns banhos nas piscinas naturais ou artificiais de águas aquecidas naturalmente – nas Furnas, a atividade do vulcão é sentida na terra, que aquece as águas e permite até que se cozinhe o famoso ‘Cozido à Portuguesa’ dentro de uns buracos no chão. Vale a pena fazer a experiência (e o melhor restaurante para isso é o do Parque de Campismo das Furnas. Anote no seu caderninho;)) No jardim do Hotel das Furnas tem uma das mais impressionantes piscinas de água quente, que funciona como tratamento termal, e que está aberta ao público mediante o pagamento da entrada.  O mesmo acontece na Poça da Dona Beija, inserida num pequeno parque natural. Em ambos os lugares há vestiários para quem precisar. Leve um biquini ou maiô preto porque a água tem bastante ferro e cheira a enxofre, e se prepare para banhos com temperaturas a rondar os 37 a 39 graus. É um dos programas mais mágicos a fazer quando chove.

Poça da Dona Beija. Chuva lá fora, água a 37 graus aqui dentro.

Se a chuva não parar, experimente visitar o Arquipélago, um centro de artes que é também uma verdadeira obra de arquitetura contemporânea. Onde antes havia secadores da Fábrica de Tabaco da Ribeira Grande, hoje há exposições, performances, espetáculos e espaços de lazer únicos e modernos com vista para o mar. 

Claro que outra opção é passear, mesmo com chuva, e se encantar com a paisagem natural, até à fábrica de chás Gorreana, que detém atualmente a única plantação de chá da Europa. É possível ver de perto a plantação, a fábrica e entender o processo de fabrico dessa bebida tão tradicional. E claro, comprar umas embalagens para levar para casa um pouco de Açores 😉

As hortênsias são algumas das flores mais comuns de todas as ilhas do arquipélago dos Açores

Nos últimos anos, São Miguel foi ganhando vários novos pontos de atração turística, apesar de ainda ser um lugar super tranquilo para passar umas férias, sem sentir que está APENAS no meio de turistas. Há novos e exclusivos hotéis, restaurantes e pequenos bares que podem ser visitados e várias lojinhas engraçadas para conhecer. Numa pequena visita ao Trip Advisor, você vai encontrar facilmente lugares maravilhosos para comer, para além desses que fazem parte do meu TOP – a Tasca, com deliciosas lapas (um marisco imperdível, que pode ser comido grelhado com muita manteiga); o recente Õtaka, com comida asiática que se encontra com influências peruanas; o restaurante do Santa Barbara Eco Resort, que tem um sushi de chorar por mais (e vários outros pratos que privilegiam ingredientes sazonais que valem a experiência); o restaurante da Associação Agrícola de São Miguel, onde é possível comer muito boa carne. Apesar de estar numa ilha com várias comunidades pesqueiras, o que faz do peixe e do marisco uma opção segura, os imensos pastos fazem com que a carne seja também maravilhosa. Tal como os laticínios..

Peça vinhos açorianos e se surpreenda com o que tem sido feito na Terceira, no Pico e até na Graciosa – vinhos frescos, complexos, com sabor a mar e a calor. Muitas vezes não são fáceis de encontrar, nem são muito baratos, mas garanto que vale a pena o investimento.

Para os amantes do surf, São Miguel tem ótimas opções também (e o transporte das pranchas é gratuito nos aviões que partem de Portugal continental). Pode alugar fatos e pranchas em vários lugares, e se deliciar com as ondas das várias praias que rodeiam a ilha. A praia de Santa Bárbara, por exemplo, recebeu em 2018 o Azores Airlines World Masters Championships, levando àquela ilha várias estrelas da modalidade.

Lá em baixo, o mar

Ainda dentro de água, é possível fazer viagens de barco para ver baleias ou golfinhos, ou somente para chegar a praias escondidas que convidam a alguma introspeção e muitos mergulhos. Pode também se aventurar nas primeiras aulas de surf (há escolas na ilha), fazer body board, vela, mergulho, pesca submarina…enfim, um monte de opções que valem para vários tipos de turistas, de todas as idades e com gostos bem diversos!

As praias são todas de areia preta, por serem de origem vulcânica…

 

…O que torna as fotografias de pé na areia em algo muito divertido!

E no final da visita, passe no Rei dos Queijos, encha a mala de queijos produzidos nas várias ilhas, de bolos lêvedos (só provando!!), de queijadas de Vila Franca do Campo, de manteiga do Pico e das Flores, e vá para casa com a certeza de que vai regressar a esse arquipélago muito antes do que estava à espera!