E se a Itália sair da União Europeia?

Margarida Vaqueiro Lopes

15 Novembro 2016 | 09h31

Quando a Inglaterra decidiu fazer um plebiscito uma eventual saída da União Europeia, todo o mundo decidiu assobiar para o lado e fingir que nada estava acontecendo. David Cameron sofreu uma estrondosa derrota política, e os ingleses votaram mesmo pela saída do bloco, sem que os líderes europeus fizessem alguma coisa para o impedir – quando e como vai acontecer ainda estamos para ver, como todos sabemos.

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No próximo dia 4 de Dezembro, a Itália também vai fazer um plebiscito, dessa vez sobre uma quantidade de reformas constitucionais que, muito basicamente, pretendem simplificar o atual sistema governativo bi-camarário: o primeiro-ministro Matteo Renzi quer retirar peso ao Senado, para que haja um maior equilíbrio de poder com o Congresso. É que apesar de esse sistema ser ótimo para travar a ascensão de ditadores – ele foi criado para impedir que um novo Mussolini governasse na Itália -, ele é também um horrível travão à governação. É que tem leis que passam anos tentando uma aprovação entre as duas Câmaras.


Mas o que tem isso a ver com a Europa?, perguntam vocês! Poderá ter tudo: é que Renzi começou por afirmar que se demitiria do cargo no caso de essas reformas não serem aprovadas. E embora já tenha dito que afinal talvez não seja bem assim, o partido do comediante Beppe Grilo está se posicionando para subir. O Movimento Cinco Estrelas – vincadamente anti-europeu – tem ganhado inúmeros apoiantes e tem garantido que fará um plebiscito sobre a permanência na União Europeia assim que chegue ao poder.

Numa altura em que a Europa ainda sara as feridas do possível Brexit, em que treme pensando em como mudarão as relações com os EUA devido à Vitória de Trump e em que metade dos Estados culpa as instituições comunitárias pelo fraco crescimento econômico, esse pode ser mais um duro golpe para um sistema já dolorido.

Wolfgang Münchau, renomado colunista do Financial Times, escreveu há uns tempos que “os italianos começam a culpar o euro pelos problemas na economia. Uma saída de Itália da zona euro levaria ao total colapso da união monetária num curto espaço de tempo”. O economista acredita que se isso acontecesse, seria um evento mais traumático do que a Grande Depressão que se seguiu à queda da bolsa de Nova York em 1929.

Se ainda restam dúvidas de que 2016 vai ficar na história pelas razões mais inesperadas, é possível que o dia 4 de Dezembro acabe com todas elas.

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