Europa não é guerra, é paz

Europa não é guerra, é paz

Margarida Vaqueiro Lopes

23 Maio 2017 | 07h17

Na escola tive várias aulas sobre as duas grandes guerras mundiais. Portugal sempre passou relativamente incólume, mas como é óbvio, teve o seu papel, geralmente ali bem próximo dos aliados. Por aqui passaram vários sobreviventes do Holocausto, ajudados por Aristides de Sousa Mendes, um português demasiado esquecido. A gente falou também da Guerra Colonial – a que nos afetou mais, como podem imaginar -, da Guerra do Vietnã, da Guerra do Golfo… Mas a gente só falava do assunto. As coisas não faziam sentido em termos de sentimento, porque nunca fizera ideia do que seria ver pessoas partir para não voltar; racionamentp de comida; medo de que fossemos bombardeados ou mortos a tiro ou o que quer que fosse. Não houve, nunca, o mais ínfimo medo. As guerras eram histórias que pais e professores contavam – o meu pai esteve na Guerra Colonial, por exemplo – mas que não passavam disso mesmo. De histórias.

Aí, em 2001 as Torres Gêmeas foram destruídas e veio uma leve incerteza. Mas que incerteza sente você de algo que não conhece? De qualquer forma, Bush decidiu levar a guerra para longe do mundo ocidental, e de repente a gente [horrorosamente] se acostumou com guerras civis, mortes de inocentes, cidades destruídas e povos saqueados lá longe. Continuava sem problema, não é? Porque estava longe, porque nem sequer havia portugueses combatendo – tirando algumas missões específicas. Como a gente diz por aqui, “nunca sentimos na pele” o que era isso da guerra. A Europa continuava firme na sua posição de continente abençoado com uma paz que nem a Guerra Fria abalou, e a vida sempre seguiu.

Tudo começou a mudar nos últimos dois anos. Madrid. Berlim. Nice. Paris. Bruxelas. Roma. Londres. Ontem, Manchester. Sempre que há um atentado numa cidade europeia, o dispositivo de segurança é reforçado nas outras todas. Facilmente Lisboa vê mais policiais na rua, as fronteiras saem reforçadas, enfim… E a gente não se acostuma, porque não faz parte do nosso dia-a-dia – quer dizer, agora faz! Mas na minha cabeça, de quem cresceu num mundo onde pensar num atentado no meio de um show era tão ridículo quanto acreditar no coelho da Páscoa, não faz sentido. E como não faz sentido, a única forma de combater isso, é não ceder ao medo. Me recuso a ter medo. Porque quando tivermos medo eles ganham. Quando cancelarmos espetáculos eles ganham. Quando deixarmos de viver pensando no que pode acontecer eles ganham. Quando não marcarmos viagens eles ganham. Quando os odiarmos eles ganham.


Então, descobri que na minha vida adulta vou ter que aprender a viver com essa certeza: de que não quero que o medo vença. De que ensinarei às crianças que não podemos ter medo, mesmo quando temos. Porque o ódio não pode ganhar ao amor. E porque só não tendo medo conseguimos vencer pessoas que vivem, elas próprias, aterrorizadas por fantasmas que só elas veem. É um aprendizado diário, difícil e doloroso. Mas com a memória do que são tempos de paz, a gente ganha força para não deixar que a guerra ganhe.

Não deixem, também, que o medo vos afaste daqui. A Europa continuará sendo um reduto de paz mesmo que alguém queira que não seja. E só nós, os que acreditamos que a guerra não é o único caminho, podemos evitá-la.

Continue sambando no Facebook e no Instagram

Mais conteúdo sobre:

ManchesteratentadosEuropa